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#519 Usando um livro de devocioinal diário

April 08, 2018
Q

Dr. Craig,

Observei algo que me incomoda ao pesquisar livros e guias devocionais comuns em que muitos cristãos se apóiam para seu dia-a-dia. Eu notei que um modelo comum para a maioria das devocionais tende a citar uma passagem da Bíblia, mas depois dá seguimento com uma anedota bem intencionada, ou mensagens inspiradoras que são vagamente relevantes para a passagem citada, ou às vezes até mesmo aforismos banais, re-embalados com conotacões cristãs.

Eu sou um instrutor de apologética cristã do ensino médio e passei muito tempo focando em hermenêutica bíblica em classe. Estou principalmente tentando demonstrar a esses jovens cristãos quais são as diferenças entre as maneiras corretas de interpretar as Escrituras em comparação as formas incorretas mais comuns. Penso ser um problema tomar um único verso ou um par de versos bíblicos (a maioria das vezes fora do contexto original da Bíblia) e embrulhá-lo com prosa inspiradora de um autor. Ao invés de se concentrar em iluminar o significado bíblico da passagem dentro do seu contexto bíblico para a edificação do leitor, todo o foco é fornecer inspiração, conselhos triviais e apelar quase exclusivamente para os sentimentos e emoções do leitor. As devoções são parte integrante da vida do cristão, mas minha abordagem às devoções baseou-se na compreensão das verdades bíblicas através da exegese adequada. Eu acho que é isso que Timóteo 4:15 estava tentando transmitir. Você acha que os devocionais comuns são um problema para o crescimento espiritual dos cristãos, embora possam fornecer conceitos positivos e encorajadores para o cristão leigo? Ou eles têm seu lugar na edificação e no crescimento cristão?

Nickolas

United States

Dr. Craig responde


A

Obrigado por esta pergunta muito incomum, Nickolas! Na verdade, tenho algumas reflexões sobre esse assunto!

Parece-me que qualquer cristão maduro, na ausência de circunstâncias atenuantes, não deve usar um livro devocional diário para suas devoções pessoais. Em vez disso, um crente maduro deve estudar a própria Bíblia. Ao invés de depender de pensamentos devocionais simpatizantes, ele deveria estar cavando, por si mesmo, os vários livros da própria Bíblia, estudando, por exemplo, o livro de Colossenses, usando, como o tempo o permita, estudos de apoio como dicionários e comentários bíblicos para enriquecer sua compreensão do contexto, conceitos e interpretações do material que ele está lendo.

Então, os guias devocionais são inúteis? De jeito nenhum! Eu acho que um bom devocional diário é um presente de Deus para o marido ou pai que quer conduzir sua esposa e filhos em devocionais familiares. Nós, homens, somos encarregados por Deus de ser líderes espirituais em nossas famílias, cuidando de nossas esposas e educando nossos filhos. Isso é um desafio assustador! Como qualquer um que tentou pode lhe dizer, isso é muito difícil de fazer de forma consistente.

É aí que entra uma boa devocional diária. Depois de uma refeição, enquanto você se sente ao redor da mesa, você pode ler para sua família o pensamento para o dia e fazer uma rápida oração. Essa é, geralmente, uma maneira indolor de ter um exercício espiritual que não os aborreça ou extrapole sua capacidade de atenção. Não requer nenhuma preparação ou criatividade de sua parte. Você só tem que ter a disciplina para fazê-lo!

Deixe-me compartilhar com você os títulos de alguns devocionais diários que minha esposa Jan e eu usamos, os quais achamos realmente interessantes e úteis.

O primeiro é The One Year Christian History [em inglês] por Michael e Sharon Rusten, um casal com um grande interesse pela história da igreja. Cada dia, você vai ler sobre algum evento na história da igreja que aconteceu nesse dia ou sobre uma pessoa que nasceu ou morreu naquele dia. Realmente a história ganha vida! Você lerá, por exemplo, sobre a fé pessoal do presidente William McKinley, que foi morto pela bala de um assassino em 26 de setembro de 1901 e sobre Archibald Alexander, que fundou e ensinou no Seminário Teológico de Princeton até sua morte em 22 de outubro de 1851, e como um pugilista chamado Honest Munchin resgatou João [John] Wesley de uma máfia assassina em 20 de outubro de 1743. Muitas (talvez até demais!) das histórias dizem respeito a martírios e são muito emocionantes. Encontramo-nos inspirados pelos atos e coragem de fiéis irmãos e servos do Senhor que nos precederam.

O segundo devocional que achamos útil é Amazing Grace [Maravilhosa Graça] por Kenneth Osbeck, um diretor de música com um amor pelos hinos clássicos. É trágico que esses ricos hinos estão sendo perdidos pela igreja por causa dos cultos contemporâneos liderados por músicos da garagem. Foi corretamente dito, penso eu, que o caráter teológico de uma igreja será determinado não apenas por sua pregação, mas por sua música. Medido por esse padrão, a igreja americana e as igrejas no exterior influenciadas por ela estão em reais problemas. Muitos dos cristãos de hoje nunca cantaram as palavras exaltadas de  Charles Wesley "And can it Be?" [como pode ser?],  ou as palavras reconfortantes de "Be Still, My Soul" [Ser ainda, a minha alma] de Katherina Schlegel ou as lindas palavras de Bernardo de Claraval: "Jesus, sê Tu a nossa alegria e a nossa recompensa”. Estes são hinos maravilhosos e profundos com letras bonitas. A igreja que negligencia esses tesouros será empobrecida por isso. Este devocional diário conta as histórias, uma para cada dia do ano, de como esses vários hinos foram compostos e colocados em música. É impressionante o número de hinos que surgiram de experiências de sofrimento profundo, o que nos lembra que a saúde e a prosperidade não são a vontade de Deus para todo cristão.

Esses devocionais não cometem o erro que você menciona, Nickolas, citando uma passagem da Bíblia fora do contexto e envolvendo um pensamento ao redor (embora um verso da Bíblia normalmente termine o pensamento para o dia). Em vez disso, eles contam histórias verdadeiras da história cristã e dos hinos que nos fornecem exemplos para hoje. Eu os recomendo para você usar com sua família.

- William Lane Craig