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Doutrina da Revelação (Parte 1): Introdução à revelação geral

March 01, 2023

Tipos e funções de revelação geral

Hoje começamos a primeira seção de nosso novo panorama de doutrina cristã, falando sobre a doutrina da revelação. Ao estudar a doutrina cristã, atentaremos para os chamados loci communes tradicionais da teologia protestante. Loci communes é a expressão latina para lugares-comuns, temas ou tópicos principais da teologia cristã. Tradicionalmente, os loci communes incluíam coisas como a doutrina de Deus, a doutrina de Cristo, a doutrina do homem, a doutrina da salvação e assim por diante. Daremos abertura a nosso estudo de doutrina cristã atentando para o locus chamado doutrina da revelação.

Fundamental para o estudo da teologia cristã é a questão da autoridade. Quem tem a autoridade para falar de questões acerca de Deus e nosso relacionamento com ele? Seria a Sagrada Escritura ou seria a igreja? Gostaria de sugerir que a autoridade reside, em última instância, no próprio Deus. Qualquer outra autoridade é derivada e advém do fato de que Deus é, por exemplo, o autor das Escrituras ou seu guia providencial sobre a igreja. A autoridade última reside no próprio Deus. É ele que tem a habilidade de falar com autoridade sobre si mesmo e sua verdade.

Quando falamos de autoridade, o que queremos dizer? Minha definição de autoridade é o direito de exigir fé e obediência. Todos estamos familiarizados com autoridades em questões humanas. Por exemplo, o estado tem certa autoridade numa esfera de jurisdição. Pais têm autoridade na família. Patrões têm certo tipo de autoridade no local de trabalho. Essas autoridades têm poder derivado, além de terem uma esfera limitada onde essa autoridade é exercida. Em contraste, a autoridade de Deus é última. Não há nenhum tribunal superior de apelação do qual deriva a autoridade de Deus. Deus é o supremo tribunal de apelação. Além disso, a autoridade de Deus é ilimitada. Ele tem soberania sobre todas as coisas. Portanto, Deus fala com autoridade em todas as questões.

A pergunta prática, então, é a seguinte: como descobrimos a vontade e propósito de Deus nessas questões? Como passamos a conhecer o que Deus pensa sobre essas coisas e o que ele quer que façamos? A resposta é: revelação. Deus revelou sua vontade e propósito para nós. Assim, ao discutir revelação, não estou falando do livro da Bíblia que tem esse título [Apocalipse]; antes, estou falando da revelação divina de sua verdade e de si mesmo para nós.

O que queremos dizer com revelação? A palavra em si, em grego, tem a noção de desvendar algo que está oculto, a fim de que seja visto e conhecido pelo que é. Revelação, neste sentido, é apresentação ou descoberta (a remoção da cobertura, a remoção do que oculta), a fim de que vejamos determinada questão por aquilo que ela realmente é.

De imediato, somos confrontados com uma dificuldade, porque tipicamente se pensa que a Escritura é a revelação proposicional de Deus para nós, ou seja, sua revelação para nós na forma de enunciados. Todavia, é bem claro que nem toda a Escritura é revelação nesse sentido de desvendar algo oculto ou descobrir algo que, de outro modo, seria desconhecido.[i] De fato, esta foi uma das crises dos primeiros críticos bíblicos no fim do século 17: entender em que sentido se pode dizer que a Bíblia é revelação de Deus, quando boa parte dela pode ser conhecida por meio do conhecimento corriqueiro. Por exemplo, Lucas, em seu evangelho, fala das fontes que ele consultou para redigir seu evangelho, como ele entrevistou testemunhas dos eventos. Essas testemunhas teriam sido acessíveis a qualquer pessoa. Não é que Lucas tenha recebido alguma revelação lá do alto sobre essas questões, sem seu trabalho de historiador ao entrevistar pessoas e compilar fatos. Ou ainda, quando Paulo escreveu sua carta a Filemom sobre o perdão a um escravo fugitivo, ele não deu nem um pouco a entender que estava revelando da parte de Deus mistérios até então desconhecidos. Ainda assim, consideremos Filemom um livro inspirado, parte do Novo Testamento e, portanto, parte da revelação de Deus para nós. Alguns dos primeiros críticos bíblicos se perguntaram como podemos falar do Novo Testamento, por exemplo, como se fosse revelação de Deus, quando boa parte dele é, na verdade, apenas coisas corriqueiras e comuns que poderiam ser conhecidas por qualquer um, sem nenhum tipo de desvendamento divino.

Acho que isso evidencia que, quando falamos de revelação, estão em jogo, na realidade, dois sentidos da palavra. Um é o sentido bem estrito que fica implícito na etimologia da própria palavra: desvendar algo previamente desconhecido, a fim de que seja visto e conhecido por aquilo que é. É um sentido muito estrito de revelação. Nesse sentido, nem todo o Novo Testamento é revelação. Há revelações desse tipo que podem ser encontradas no Novo Testamento. Pode-se pensar, por exemplo, no livro de Apocalipse, onde João descreve como o Senhor lhe revelou o que estava para acontecer. Ou, em Corinto, Paulo fala de profetas do Novo Testamento que se levantavam no meio da reunião dos cristãos da época e tinham uma revelação da parte do Senhor que partilhavam com os demais. Paulo diz que é preciso ouvir cuidadosamente esses profetas, um de cada vez, e ponderar com discernimento o que eles estão dizendo para ter certeza de que aquilo realmente vem do Senhor, e não de si mesmos.

Nem tudo no Novo Testamento é assim. Como eu disse, boa parte da correspondência de Paulo trata apenas de questões comuns da igreja sobre as quais ele escreveu. Outros livros históricos no Novo Testamento usam fontes. Eles copiam ou tomam emprestado de outras fontes. Eles não são simplesmente enviados lá do alto, por assim dizer. Assim, embora o Novo Testamento tenha revelação nesse sentido muito estrito, nem tudo o que está nele é revelação nesse sentido.

Penso que existe ainda um sentido mais amplo da palavra revelação, de modo que podemos falar do Novo Testamento e da Bíblia como a revelação de Deus. Ou seja, é uma comunicação da parte de Deus. É o que Deus quer comunicar a nós. Isso tem perfeita compatibilidade com o fato de que os autores das Escrituras usam fontes históricas, conhecimento corriqueiro, para escrever o que escreveram. Nesse sentido mais amplo, não é preciso haver uma revelação especial da parte de Deus para que ela seja a Palavra de Deus para nós. No sentido mais amplo de revelação, a Escritura é uma comunicação da parte de Deus para nós. É a Palavra de Deus para nós e, portanto, é revelação naquele sentido amplo, mesmo que, no sentido estrito, não seja revelação transmitida diretamente por Deus sem nenhuma espécie de intermediário ou investigação humanos.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Relatos de testemunhas, mesmo que elas estejam vendo algo milagroso, são considerados revelação geral?[ii] Ou seriam revelações especiais?

Dr. Craig: Pois bem, ele introduziu outra distinção que pode facilmente ser confundida com o que eu disse aqui. Logo logo pretendo discutir a distinção entre revelação geral e revelação especial. Eu as chamaria de dois tipos de revelação. No entanto, estou falando aqui de duas definições de revelação. Não são tipos de revelação, mas duas definições da palavra “revelação”. Num sentido estrito, revelação é um desvendamento da parte de Deus sobre algo, de modo que seja visto e conhecido por aquilo que realmente é — algo previamente desconhecido ou oculto. Num sentido mais amplo, revelação é simplesmente uma comunicação da parte de Deus. São os sentidos (ou definições) estrito e amplo da palavra “revelação”. Logo logo discutiremos os modos como Deus, de fato, escolheu se revelar. Trata-se de uma distinção diferente, mas vale a pena levantar a questão e apontar essa diferença.

DISCUSSÃO TERMINA

Falemos agora de dois tipos diferentes de revelação. Os teólogos normalmente fazem distinção entre a revelação geral e a revelação especial de Deus.

A revelação geral é assim chamada porque é geral em dois sentidos. Primeiro, é geral no sentido de que está geralmente disponível à humanidade como um todo. É uma revelação universal. Todos são recebedores da revelação geral de Deus. O primeiro sentido em que ela é geral é em sua universalidade. Segundo, porém, ela também é geral por prover conhecimento ou informações meramente gerais sobre Deus, e não informações específicas sobre Deus. Por exemplo, pela revelação geral é possível saber que Deus existe, que existe um criador e arquiteto do universo, mas não é possível saber que ele é uma trindade. Apenas com a revelação geral não é possível ter nenhuma ideia de que há três pessoas na divindade. Só seria possível ter a ideia de que existe um criador e arquiteto pessoal do universo. Ou então, só com a revelação geral, não seria possível saber que Jesus Cristo era tanto humano quanto divino — que ele tinha tanto uma natureza divina quanto uma natureza humana. Isso não faz parte da revelação geral. Pelo contrário, a revelação geral lhe dará um quadro mais amplo de Deus, uma espécie de monoteísmo genérico, por assim dizer, que seria comum a judeus, cristãos, bem como certos pagãos (por exemplo, deístas que acreditam num criador e arquiteto do universo). É nesses dois sentidos que a revelação geral é geral: em seu escopo e, em segundo lugar, no tipo de informações que ela fornece sobre Deus.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Sempre ouvi que a revelação geral era toda a criação, e uma parte dela era o conhecimento geral de Deus, mas toda a elaboração do universo é a primeira criação.

Dr. Craig: Sim, logo logo devo dizer quais são os tipos de revelação geral. Veremos que o modo como Deus é geralmente revelado é pela criação, pelas obras da criação. Vemos a obra do criador nas coisas criadas.

DISCUSSÃO TERMINA

Falemos agora dos tipos de revelação geral. Já indicamos o primeiro tipo. É a revelação que Deus faz de si mesmo na natureza. Deus, como criador do universo, deixou suas impressões digitais, por assim dizer, na criação, de modo que possamos discernir o oleiro no barro.[iii] Ao observar as obras da criação, é possível ver certas qualidades ou traços do autor da natureza. Paulo fala dessa revelação em Romanos 1.18-20. Veja o que Paulo tem a dizer sobre a revelação geral de Deus na natureza:

Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça. Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis”.

Aqui, Paulo diz que todos os homens em todos os lugares em qualquer período da história são responsáveis por reconhecer ao menos a existência do criador do universo. Ele diz especificamente que, a partir da ordem criada ao nosso redor, a natureza invisível de Deus (duas coisas em particular: seu eterno poder e sua divindade) é vista claramente nas coisas criadas. Por isso, embora as pessoas não possam saber a partir da revelação geral de Deus na natureza que ele é o Deus cristão nem mesmo o Deus judeu, eles devem conseguir discernir que existe um criador com eterno poder e divindade que fez o mundo. Assim, todas as pessoas são indesculpáveis por reconhecer tão pouco sobre Deus simplesmente com base em sua auto-revelação na natureza.

Em segundo lugar, em Romanos 2 parece que Paulo fala de um segundo modo como Deus se revelou geralmente à humanidade, e foi por meio da consciência. Pela consciência, é possível apreender a lei moral que Deus implantou em nós. Em Romanos 2.14-16, Paulo fala de não-judeus (gentios) que não têm a lei judaica e, ainda assim, parecem apreender os rudimentos daquilo que a lei exige. Paulo diz:

(Porque, quando os gentios, que não têm lei, praticam as coisas da lei por natureza, embora não tenham lei, tornam-se lei para si mesmos, demonstrando que o que a lei exige está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem). Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os pensamentos secretos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho”.

Aqui, Paulo diz que mesmo quem não tem a lei judaica (por exemplo, os Dez Mandamentos) tem uma apreensão básica do certo e errado, das exigências da lei. É algo escrito por Deus inatamente em seus corações. Por isso, são moralmente responsáveis por esse conhecimento. Como todas as pessoas em todos os lugares são responsáveis por reconhecer a existência de Deus, assim também todas as pessoas em todos os lugares são responsáveis pelas exigências da lei moral de Deus impostas sobre si.

Estes seriam os dois tipos de revelação geral mencionados na Escritura: a revelação de Deus na natureza e também na consciência mediante sua lei moral implantada.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Em todas suas interações e discussões com ateus, o senhor acha que, para algumas pessoas, por algum motivo, a revelação geral não as afeta? Seriam psicopáticos ou algo assim? As suas consciências estariam cauterizadas, depois de terem negado tudo isso por tanto tempo?

Dr. Craig: A pergunta é muito boa.[iv] Às vezes, alguns dizem que não existem realmente ateus sinceros, que de alguma forma, bem no fundo, eles sabem que Deus existe. Ao ler Romanos 1, é possível entender por que alguém diria isso. Paulo diz que aquilo que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Em seguida, diz no verso 21:

porque, mesmo tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; pelo contrário, tornaram-se fúteis nas suas especulações, e o seu coração insensato se obscureceu”.

No verso 25, ele diz: “pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito eternamente”.

Parece, então, que Paulo considera o ateísmo ou, no caso, o politeísmo, como uma supressão da verdade que lhes é evidente. Penso que algumas pessoas podem sinceramente se auto-enganar. Não acho que isso significa que os ateus são mentirosos, que eles realmente creem em Deus, mas estão mentindo. Penso que a pessoa pode se auto-enganar de tal modo que sinceramente acha que Deus não existe, mas só faz isso, conforme diz Paulo, ao substituir a verdade pela injustiça. Alvin Plantinga, o mais famoso filósofo cristão ainda ativo, argumentou que os ateus, na realidade, são disfuncionais do ponto de vista cognitivo. Têm uma disfunção cognitiva que os impede de apreender Deus do modo como Deus os criou para apreender naturalmente. A tese é muito ousada, mas Plantinga a defendeu extensivamente. Creio que Paulo provavelmente concordaria com Plantinga, com base no que diz aqui. Alguém cujas faculdades cognitivas estão funcionando apropriadamente do modo como Deus as pretendeu formaria a crença de que Deus existe. Ela a formaria instintivamente ou a inferiria com base na revelação de Deus na natureza e na consciência. Como diz Paulo aqui, alguém que vira suas costas para Deus tem um intelecto obscurecido. Ele diz que suas mentes foram obscurecidas, de modo que não veem mais a verdade. Não quer dizer que estão mentindo. Não quer dizer que estão vendo a verdade, mas não a admitem. O intelecto obscurecido é disfuncional: ele não vê mais a verdade. Assim, como enfatiza Plantinga, parte da obra do Espírito Santo é restaurar o funcionamento apropriado de suas faculdades cognitivas, para que comecem, então, a pensar corretamente, conforme o propósito original de suas faculdades. Entendo sua pergunta dessa maneira.

Aluno: Seria correto afirmar que esses valores morais implantados em nós são consequência de sermos criados à imagem de Deus?

Dr. Craig: Penso que os teólogos cristãos afirmariam isso e diriam que é isso que nos separa do restante da criação. Por termos sido feitos à imagem de Deus e portarmos sua semelhança, temos um valor moral intrínseco que animais e seres não-sencientes (pedras, árvores e assim por diante) não têm. Não quer dizer que não exista uma ética ambiental. De fato, como portadores da imagem de Deus, deveríamos tratar a natureza, os oceanos e florestas de certa maneira, mas não porque têm valor moral intrínseco. Não são pessoas como nós o somos. Pelo contrário, é porque somos pessoas, é porque nós somos à imagem de Deus, que temos certas responsabilidades morais com o restante da criação, bem como com o próximo. Sim, eu diria que essa percepção de deveres e valores morais seria, no nível mais fundamental, a percepção de que outras pessoas são intrinsecamente valiosas. Por isso, devem ser tratadas como fins em si mesmos, e não como meios para seus fins pessoais. Essa percepção fundamental do valor intrínseco de outras pessoas estaria bem no âmago dessa apreensão das exigências da lei.[v]

Aluno: O senhor acha que aquela consciência foi criada em Adão e Eva à imagem de Deus? Ou eles de certo modo a apreenderam para toda a humanidade, quando comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal?

Dr. Craig: Se entendi direito sua pergunta, eu diria definitivamente que, por serem criados à imagem de Deus, conforme exposto anteriormente, Adão e Eva teriam esse senso moral implantado e a consciência funcionando apropriadamente para saber que o que estavam fazendo estava errado.

Aluno: O que abriu os seus olhos? O conhecimento do bem e do mal me dá a impressão de que eles não saberiam a diferença entre bem e mal antes disso.

Dr. Craig: Ah, entendi agora. Parece-me que ali se está falando de um conhecimento experimental do mal. Enquanto eram inocentes, não tinham aquele tipo de conhecimento experimental do que é o mal, mas com certeza sabiam a diferença entre certo e errado.

Aluno: Eles conscientemente decidiram desobedecer.

Dr. Craig: Sim, é isso. Eles escolheram ir contra Deus e, então, tiveram essa experiência ou o conhecimento experimental do bem e do mal.

Aluno: Talvez seja uma análise específica demais, mas fico pensando por que Paulo fez distinção entre conhecer o eterno poder de Deus e sua divindade. Um não implica o outro?

Dr. Craig: Não sei a resposta. É intrigante que ele mencione o eterno poder de Deus; no caso, temos na verdade dois atributos de Deus, correto? Deus nunca começou a existir (ele é eterno), e fala-se também do poder de Deus. Mas ele distingue tudo isso da divindade. Sinceramente não sei por que ele teria feito essa distinção, a não ser talvez para dizer que divindade é um conceito ainda mais completo do que apenas eterno poder. Não basta apenas ter eterno poder. É preciso ser Deus. A palavra para divindade, theotes (vamos discuti-la depois), é usada de modo especial aqui no Novo Testamento. É o único lugar no Novo Testamento onde a palavra aparece. É provavelmente uma indicação de que Paulo tem contato com tradições filosóficas gregas sobre Deus e, portanto, deseja afirmar que se trata de um ser divino que exemplifica a natureza divina. Não se trata apenas de uma espécie de poder eterno. Mas, além do que disse, só é possível especular.

DISCUSSÃO TERMINA

Falemos a respeito das funções da revelação geral. A revelação geral exerce algumas funções.

1. Mostrar a glória de Deus. Salmos 19.1. O salmista diz:

Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia declara isso a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Sem discurso, nem palavras; não se ouve a sua voz. Mas sua voz se faz ouvir por toda a terra, e suas palavras, até os confins do mundo”.

 

Aqui, o salmista diz que a beleza e a grandeza dos céus (ele está pensando, obviamente, nas estrelas) anunciam a glória de Deus a toda a humanidade. Não há aí nenhuma palavra falada — nenhuma língua humana falada —, mas ainda assim ele diz que essa mensagem se espalha por todo o mundo, revelando a glória de Deus. À medida que passamos a aprender mais sobre o universo, só aumentou nossa admiração pelo poder e majestade de Deus ao criar este incrível universo onde vivemos. Quando pensamos que aquilo que o salmista conseguia ver a olho nu era apenas estrelas em nossa galáxia (ele não tinha ideia dos bilhões e bilhões de galáxias que ficam além da observação a olho nu), só podemos ver como Deus é incrivelmente grandioso e majestoso por meio de sua revelação na natureza como o criador do magnífico universo.[vi]

2. Tornar as pessoas moralmente culpáveis diante de Deus. Voltemos a Romanos 1.19. Paulo diz o seguinte:

Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis”.

A revelação geral serve para remover qualquer desculpa que as pessoas possam ter por sua descrença na existência de Deus. Ela as torna culpáveis ou responsáveis diante de Deus por reconhecer sua existência.

Adiante, em Romanos 2.15-16, Paulo diz:

[eles demonstram] que o que a lei exige está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem. Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os pensamentos secretos dos homens, por Cristo Jesus, segundo o meu evangelho”.

Aqui ele diz que as pessoas serão julgadas com base em seu conhecimento inato da lei moral de Deus. Serão acusadas ou defendidas no dia do juízo com base em seu conhecimento inato da lei moral escrita em seus corações. Uma das funções da revelação geral é remover qualquer desculpa que as pessoas possam ter diante de Deus. Antes, ela serve para tornar as pessoas culpáveis diante de Deus.

Uma das questões que surgem em relação a isso é se a revelação geral poderia também proporcionar conhecimento salvífico de Deus. Será que aqueles que nunca ouviram o evangelho durante a vida estão uniformemente perdidos para sempre? Eles vão para o inferno sem sequer ter ouvido de Cristo? Como Deus os julgará? É possível que, por meio de sua resposta à revelação geral, eles venham ao conhecimento salvífico de Deus? É esta questão que abordaremos no próximo encontro.[vii]


[i] 5:08

[ii] 10:18

[iii] 14:57

[iv] 19:57

[v] 25:05

[vi] 30:02

[vii] Duração total: 32:57 (Copyright © 2014 William Lane Craig)