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Doutrina da Revelação (Parte 2): A revelação geral pode levar à salvação?

March 01, 2023

Mais funções da revelação geral

Estamos discutindo a revelação geral de Deus na natureza e na consciência. Apontei que a revelação geral serve a inúmeras funções que pretendemos continuar a discutir hoje.

1. A primeira função da revelação geral é revelar a glória de Deus. No maravilhoso universo ao nosso redor, vemos reveladas a majestade e a grandeza de Deus.

2. Consequentemente, Paulo diz que isso faz todas as pessoas culpáveis diante de Deus. Todas as pessoas são responsáveis por reconhecer a existência de Deus com base em sua revelação na natureza, bem como em sua lei moral e sua exigência sobre eles, à luz da lei moral implantada em seus corações.

Ao abrir Romanos 1.20, lemos: “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis”. Em seguida, em Romanos 2.15, Paulo diz que os gentios que não têm a lei “[demonstram] que o que a lei exige está escrito no coração deles, tendo ainda o testemunho da sua consciência e dos seus pensamentos, que ora os acusam, ora os defendem”.

Assim, todas as pessoas são responsáveis por crer num eterno e poderoso criador do universo e por reconhecer as exigências de sua lei moral implantada em suas vidas.

A questão, então, seria: será que isso fornece informações sobre Deus suficientes para que alguém chegue não apenas ao conhecimento de que Deus existe, mas ao conhecimento salvífico sobre Deus? Será que é possível por meio da revelação geral chegar a conhecer a Deus de maneira redentora, e não simplesmente como o criador diante do qual alguém se encontra moralmente caído e culpado?

O assunto é bastante controverso. Por exemplo, Jack Cottrell, em seu livro What the Bible Says about God the Creator [O que a Bíblia fala do Deus criador], defende que o propósito da revelação geral é fornecer informações sobre a grandeza e poder de Deus. Não se trata de fornecer conhecimento redentor sobre Deus; por isso, a revelação geral não é fonte de conhecimento redentor. Cottrell escreve o seguinte a partir da página 342 de seu livro:

Em lugar algum a Bíblia ensina que alguém pode ser salvo do pecado e condenação mediante sua resposta à luz da criação somente. A revelação geral simplesmente não nos proporciona nenhum conhecimento da redenção ou do redentor... Será que isso significa que [as pessoas] estão condenadas por causa de sua ignorância? De modo algum. Isto seria muito injusto. É verdade que não conhecem o evangelho, mas não são condenadas por não conhecer o evangelho. Por que, então, são condenadas? Porque conhecem a revelação geral e não viveram à altura dela. Conhecem a Deus e sabem que devem honrá-lo como Deus e lhe render graças, mas não fazem isso. É por isso que são condenadas. Não é por aquilo que desconhecem, mas por aquilo que conhecem. Que eles não tenham ouvido o evangelho é algo que não está em questão. Quando alguém é condenado por seu abuso da revelação geral, a condenação é justa. A revelação geral advém somente da obra da criação. É uma revelação de Deus como criador, e não redentor. Ela fala ao homem enquanto criatura, e não enquanto pecador.[i] Ela foi designada para funcionar assim desde o princípio, e é assim que ela ainda funciona. Desde o princípio, o homem consegue responder positiva ou negativamente a essa revelação. Ao responder positivamente, o homem consegue evitar a condenação. Ao responder negativamente, o homem se põe sob a justa condenação da parte de Deus. O fato é que a humanidade uniformemente responde de modo negativo e, portanto, é indesculpável em sua totalidade. Será que isso significa que a revelação tem apenas uma função negativa? Que ela apenas condena e não salva? Não. Formular a pergunta desse modo é repetir a falácia de que essa revelação não é uma função da criação, mas de certa forma tem um propósito específico para o mundo pós-queda. A questão é que a revelação geral não foi designada para salvar (positivo) ou condenar (negativo). Foi designada apenas para o propósito positivo de declarar a glória do Deus criador e de dar orientação geral à criatura.[ii]

Da perspectiva de Cottrell, o propósito da revelação é simplesmente demonstrar a glória e o poder do criador. Ela não serve a um propósito redentor. No entanto, se alguém evita a luz da revelação geral que possui, ignora a Deus e se afunda na imoralidade, ele é culpável e condenado diante de Deus por sua rejeição da revelação geral. Deus julgará quem nunca ouviu o evangelho não com base no que fizeram com Cristo, mas, sim, no que fizeram com a revelação geral. Neste sentido, a revelação geral tem o efeito de condenar as pessoas — de deixá-las condenadas diante de Deus —, mas não salvá-las.

Ao mesmo tempo, porém, perceberam que Cottrell diz que, ao responder positivamente à revelação geral, o homem consegue evitar a condenação? É uma admissão muito interessante que dá uma perspectiva muito diferente à questão. Ele diz que, ao responder positivamente, o homem consegue evitar a condenação. Isso sugere que, mesmo que ninguém tenha, de fato, acesso ao conhecimento salvífico sobre Deus mediante a revelação geral, até que poderia ter. É possível. Pode-se evitar a condenação ao responder adequadamente à revelação geral de Deus na natureza e na consciência.

Quero deixar claro o que isso significa. Não significa que alguém seria salvo mediante suas boas obras ou vida correta. Antes, significaria que ele tem acesso à salvação que é operada por Cristo, mas sem ter conhecimento consciente de Cristo. A revelação geral simplesmente serve como uma canal pelo qual se chega ao conhecimento de Deus, e isso pela resposta positiva à revelação. Como a resposta positiva ao evangelho traz salvação, assim também essa revelação poderia ajudar a escapar da condenação.

De fato, acho que há alguns motivos para pensar que isso seja possível. Veja Romanos 2.7. Mais uma vez, Paulo se dirige aos que estão fora da lei judaica, os não-judeus. No versículo 7 do capítulo 2, ele diz: “ele dará a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e imortalidade”. Entendo que isso quer dizer uma oferta de boa-fé da parte de Deus. Se alguém responder de modo positivo à revelação geral de Deus na natureza e consciência, buscando a Deus e sua glória, Deus lhe dará vida eterna. Isso significa que alguém pode ser salvo sem Cristo? Não! Simplesmente significa que ele seria salvo sem ter conhecimento consciente de Cristo. E isso seria possível? Claramente, é possível, porque isso se aplica aos santos do Antigo Testamento.[iii] Gente como Abraão, Moisés e o rei Davi nunca ouviram de Cristo e, ainda assim, obviamente foram salvos apenas pela morte expiatória de Cristo. O exemplo dos fiéis do Antigo Testamento nos mostra claramente que alguém não precisa ter conhecimento consciente de Cristo para ser beneficiário da morte de Cristo.

Alguém pode dizer: “Mas eles previam a Cristo” ou “eles previam o Messias”. Embora isso talvez se aplique a alguns dos profetas, não se pode dizer o mesmo, por exemplo, de Abraão ou de alguns do primeiros judeus, quando nenhuma profecia messiânica ainda havia sido dada. Foram simplesmente fiéis à revelação que Deus lhes dera.

Será que isso se aplicaria a quem não fosse judeu? Novamente, o Antigo Testamento nos dá a resposta clara à pergunta. Sim. Há alguns personagens no Antigo Testamento que são não-judeus e, ainda assim, claramente têm um relacionamento salvífico com Deus. Às vezes são conhecidos como os “Santos Pagãos do Antigo Testamento”. De quem estou falando? Por exemplo, de Jó. Ele não era judeu. Era de Uz, na Caldeia. Porém, se alguém no Antigo Testamento tinha um relacionamento com Deus, esse alguém era Jó. Deus se refere a ele como “meu servo irrepreensível”. Obviamente, Jó conhecia a Deus e tinha uma relação correta com Deus, embora não fosse judeu. Outro exemplo é o personagem misterioso de Melquisedeque, que Abraão encontrou e por quem ofereceu sacrifícios. Ele foi chamado sacerdote do Deus altíssimo, rei de Salém. Não era judeu. Obviamente, não era descendente de Abraão — ele encontrou Abraão. Ainda assim, Melquisedeque era sacerdote de Deus. Ou, em Gênesis 20, vemos o rei de um dos pequenos clãs cananeus, o rei Abimeleque, ao qual Deus fala num sonho, preservando-o do pecado. Ele o preserva do pecado do adultério, de se casar com Sara, por Abraão ter mentido ao dizer que ela era sua irmã. Por isso, Abimeleque a tomou como esposa. Deus o preservou porque não queria que Abimeleque caísse nesse pecado. Vemos aí exemplos de não-judeus no Antigo Testamento que parecem ter um relacionamento correto com Deus.

Alguém pode dizer: “Talvez Deus lhes tenha dado revelações especiais de outro tipo”. Eles obviamente não tinham as Escrituras, certo? Mas talvez eles tivessem sonhos, como aconteceu com Abimeleque, ou revelações especiais. Penso que seja possível. Só não sabemos com certeza. Acho que é no mínimo sugestivo que alguém que não é judeu, mas responde adequadamente à revelação e à luz que Deus lhe deu, possa assim ter acesso ao conhecimento salvífico sobre Deus. Deus poderia, então, aplicar-lhe os benefícios da morte de Cristo.

Acho que o que Cottrell diz está correto, ou seja, que mediante uma resposta positiva à revelação geral é possível evitar a condenação, mas, conforme Cottrell indica, quase ninguém faz isso. A triste realidade é que a grande maioria da humanidade não responde à revelação geral de Deus na natureza e consciência e, portanto, encontra-se condenada diante de Deus. É isso que Paulo indica em Romanos 1.20 em diante. Três vezes na passagem, ele diz que “Deus os entregou”, “Deus os entregou”, “Deus os entregou”. Em seguida, descreve como eles se encheram de todo tipo de imoralidade e desobediência. Então, no versículo 32, diz: “conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que praticam essas coisas, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam”. O quadro aqui não é nada animador. Podemos dizer que, mediante a revelação geral, é possível evitar a condenação. Ninguém vai para o inferno simplesmente por ter nascido numa época e lugar na história onde não pôde ouvir o evangelho.[iv] A salvação está acessível a essa pessoa. Infelizmente, porém, parece que poucos de fato chegam à salvação desse modo.

Portanto, meu segundo ponto nas funções da revelação geral é dizer que ela torna as pessoas culpáveis diante de Deus.

3. Em terceiro lugar, ela pode dar acesso à salvação. Não é que ela proporcione salvação a muitos, mas o acesso ao menos está presente. Existe justiça da parte de Deus.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Acho que a implicação é que, mesmo hoje, quando tantos ouviram falar de Cristo — embora muitos não tenham ouvido —, eles poderiam evitar a condenação mediante a resposta à revelação que receberam na natureza. Esta afirmação é verdadeira?

Dr. Craig: Acho que é verdadeira. É a minha visão. Ao que me parece, a mudança da velha para a nova aliança não ocorreu instantaneamente no mundo inteiro quando Jesus morreu na cruz, por exemplo. Antes, essa transformação progride geograficamente, à medida que o evangelho se espalha pelo mundo. Assim, quem ainda vive, digamos, na China central ou no norte da Sibéria, onde não há nenhum acesso ao evangelho, de fato ainda se encontra na condição dos pré-cristãos, antes da vinda de Cristo. Seriam julgados nesse fundamento. Provavelmente cerca de 15 a 25% da população mundial ainda precisa ouvir o evangelho pela primeira vez. Portanto, ainda existem pessoas que se encontram nessa era pré-cristã, por assim dizer.

Aluno: O que dizer de gente que ouviu falar de Cristo, mas apenas de uma visão distorcida de Cristo? Onde se encaixariam?

Dr. Craig: Você está bem certo. Na América Latina, por exemplo, o cristo-paganismo que é dominante em muitos desses países — uma espécie de sincretismo entre catolicismo romano e superstição pagã pré-cristã — é uma imagem distorcida e deturpada de Cristo. Quando alguém rejeito isso, não está bem rejeitando o evangelho. Não está rejeitando a Cristo, mas alguma outra coisa. Eu diria que, em casos assim, Deus é amoroso, ele é justo, e podemos confiar que ele julgará aquela pessoa com base em sua resposta à luz que ela teve. Pelo menos, essas pessoas têm a luz da revelação geral na natureza e consciência.

Aluno: O que o senhor está descrevendo parece muito com a doutrina católica romana da fé implícita. Agora que temos a revelação especial que Cristo nos deu quando ele veio, não sei se podemos nos comparar com os santos do Antigo Testamento como Noé, Melquisedeque e os demais que foram apontados. Isso porque Deus se revelou ao mundo por meio de Jesus Cristo.

Dr. Craig: A pergunta que nos resta é esta: a transição ocorreu no mundo inteiro instantaneamente como ao apertar um botão ou ela ocorre gradualmente, à medida que o evangelho se expande geograficamente? Ao que me parece, a segunda opção faz mais sentido. Essas pessoas de que falamos nunca ouviram falar de Cristo, de modo que se acham numa situação que não é qualitativamente diferente daquela das pessoas cronologicamente anteriores a Cristo, embora, como você disse, Cristo tenha vindo e Deus se revelado de modo especial, e agora temos as Escrituras. Mas eles não têm as Escrituras, nunca ouviram falar de Cristo. Pelo menos no sentido qualitativo, parece que são mais como as pessoas que existiam antes do que depois de Cristo vir.

Aluno: Entendi. Também fico pensando em Romanos 10, versículo 13, que diz: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Adiante, diz: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar?”. E continua com a resposta: “Como são belos os pés dos que anunciam coisas boas!”. É aí que entra o evangelismo. Por isso que Filipe teve de ir explicar ao eunuco etíope o que ele estava lendo.[v] Do contrário, não seria necessário a Filipe fazer isso.

Dr. Craig: Lembre o que eu disse. Mesmo que seja possível, pouquíssimos, de fato, têm acesso à salvação desse modo. A grande maioria da humanidade é descrita em Romanos 1 como perdida no pecado e, portanto, por assim dizer, desesperadamente necessitada de ouvir o evangelho. O evangelho comunica o conhecimento salvífico sobre Deus com uma clareza e poder que a revelação geral não consegue. Ele será muito mais eficiente para trazer as pessoas à salvação do que simplesmente deixá-las definhar nas trevas espirituais com acesso apenas à revelação geral. Sim, Romanos 10 está correto. Elas desesperadamente necessitam ouvir o evangelho para ser salvas.

Aluno: Só quero terminar dizendo que é minha crença pessoal que, se uma pessoa está respondendo à revelação geral e verdadeiramente buscando a Deus, ele (se necessário, sobrenaturalmente) lhe oferecerá a revelação especial da pessoa de Jesus Cristo.

Dr. Craig: OK. Ele está dizendo que, se a pessoa responder positivamente à revelação geral, Deus trará mais luz a ela. Ele lhe trará um sonho ou um missionário ou um folheto evangelístico e, se a pessoa responder, Deus lhe trará mais luz. Existem inúmeras maneiras de lidar com o problema dos não-evangelizados. Esta seria uma delas. Voltaremos a este problema depois, quando discutirmos o problema do particularismo cristão — ou seja, como a salvação pode ser somente por meio de Cristo? Não seria isso de algum modo injusto e desamoroso àqueles que jamais tiverem a chance de ouvir falar de Cristo? Voltaremos a esta questão.

Aluno: Será que exemplos de resposta à revelação geral que leva à salvação aparecem na segunda viagem missionária de Paulo, em Atos 10? Não foi uma viagem missionário, mas, antes disso, quando Cornélio respondeu ao que conhecia e Pedro veio até ele. Diz que sua família temia a Deus e orava. Pedro veio e lhe apresentou o evangelho. Outro exemplo talvez seja — agora numa viagem missionária — Lídia em Filipos. Ela ouviu Paulo falar à beira do rio. Diz que ela cultuava a Deus. Então, Paulo lhe explicou o evangelho, e ela respondeu.

Dr. Craig: Esses são exemplos muito bons do que falávamos antes. Em Atos 10, vivendo em Cesareia, está Cornélio, um centurião, parte da coorte romana, e mesmo assim descrito como temente a Deus. Ele cria no Deus do monoteísmo judaico, mas ainda não era cristão. Deus sabia que Cornélio era alguém que responderia ao evangelho e, portanto, lhe enviou Pedro. E eis que o evangelho foi recebido e o Espírito Santo foi dado aos gentios. Este é um exemplo perfeito em que Deus faz exatamente aquilo que quem perguntou antes estava imaginando.

Aluno: Ao ler Romanos 1, parece que a revelação geral se aplica a hoje também porque o ateu e os negacionistas são os evolucionistas. Estão negando Deus ao negar que ele criou todas as coisas. Portanto, quando negam Deus, segue que também negam Jesus. Se negam que Deus criou, negam todo o restante. Se alguém nega que Deus criou as coisas, toda a beleza do mundo e todas as criaturas — se ele não criou nada —, não dá para ir muito além disso.

Dr. Craig: Acho que isso está certíssimo. Se Deus não existe, obviamente ele não tem um Filho. Certo? Por isso, a descrição em Romanos 1 é muito adequada ao ateísmo contemporâneo em certo sentido. Talvez não ao politeísmo, mas com certeza na negação do criador, ao pensar que não existe um criador por trás do mundo que percebemos.[vi] Penso também na rejeição da lei moral. Muitos naturalistas veriam as obrigações morais como convenções sociais que nos foram inculcadas pelo condicionamento dos pais e da sociedade, mas que não são objetivas. Penso que os primeiros capítulos de Romanos são bem aplicáveis à situação contemporânea.

Aluno: Fico com quem fez a pergunta anteriormente sobre exemplos de revelação. Às vezes, missionários deparam com pessoas que são totalmente contraculturais e que estão sendo perseguidas em seu contexto porque têm uma visão de Deus diferente do que existe ao seu redor. O mesmo com o caso de Abraão e Melquisedeque. Acho que Melquisedeque é uma forma de teofania, porque se diz que Abraão lhe pagou dízimo, e Hebreus nos diz que Melquisedeque não tinha pai, nem mãe, nem princípio de dias, mas é semelhante ao Filho de Deus. Obviamente, ele é algo diferente de um ser humano.

Dr. Craig: Talvez. Ele está se referindo à descrição de Melquisedeque no livro de Hebreus, que é muito diferente do que se lê em Gênesis. A questão, no caso, é a seguinte: quando ele diz: “Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida”,[vii] será que ele quer dizer literalmente que Melquisedeque é uma pessoa eterna que existe desde sempre? Há quem diga que sim, ele é Cristo pré-encarnado. Pode ser simplesmente que o que o autor pretendeu foi que sua genealogia não está alistada na narrativa. Ela não descreve o começo de seus dias, o fim da sua vida, sua mãe ou pai. Não diz que ele era “filho de... filho de... filho de...”. Portanto, no caso, não é o que se pode pensar acerca de sua divindade.

Aluno: Talvez seja só uma variação, mas me parece que um dos propósitos da revelação geral é preparar o caminho, por assim dizer, para aceitar o conhecimento para salvação. Em outras palavras, se alguém realmente ponderar, estiver realmente aberto e avaliar o mundo ao redor bem como a criação, logicamente chegará ao criador. É uma espécie de evolução natural, por assim dizer (desculpe a palavra). O mundo e mesmo o universo precisam desse equilíbrio de vida, desse tipo de ambiente, e precisamos entender o quanto tudo é frágil. Parece que é aí que a mente e o coração ficam mais abertos para levá-lo até o próximo nível ou próximo passo. Seja ao Deus trazer algum instrumento em sua vida ou seja por sua aceitação de um criador em sua mente, você está num diálogo e está aberto a entender a salvação.

Dr. Craig: Não sei como pude esquecer esse ponto! Que vergonha. É claro que você está certa. O livro de Hebreus diz: “é necessário que quem se aproxima de Deus creia que ele existe e recompensa os que o buscam”.[viii] Um dos propósitos da revelação geral é cumprir essa primeira condição: crer que Deus existe. Você está certo. É uma “praeparatio evangelica”: uma preparação para o evangelho para dispor as pessoas a crer no evangelho quando ele chegar.

DISCUSSÃO TERMINA

4. Quero fazer só mais uma coisa antes de encerrarmos, pois gosto de terminar fazendo uma ponte para depois, e não parar no meio do caminho. A quarta função de revelação geral seria estabilizar a sociedade humana. A noção no caso é que a lei divina moral geral está escrita nos corações de todas as pessoas, e isto serve para permitir que a sociedade humana exista e funcione estavelmente, e não com cada um por si — como se fosse um manicômio. Existe aí uma espécie de acordo mútuo sobre o valor das pessoas humanas e sobre as boas relações e funcionamento da sociedade. Portanto, a revelação geral também teria esse efeito estabilizador da cultura e sociedade humanas.[ix]

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: A China tem muitos grandes filósofos, e a ideia básica deles é que sua consciência leva ao temor do céu, um conceito abstrato, ou que é possível dividir a humanidade entre a consciência obediente e a rebelde. As consciências obedientes em dado momento buscarão a verdade e nunca rejeitarão Jesus quando ouvirem o evangelho, mas o outro lado se oporá. É por isso que Jesus aparece como um fator de divisão. O evangelho chega basicamente dividindo os dois e permite ao lado obediente usar uma ferramenta para conversão, como se fosse uma segunda chance, um plano redentor.

Dr. Craig: Isso é muito oportuno, especialmente em relação ao último ponto que fiz sobre a estabilização da sociedade humana. No confucionismo ou na sociedade chinesa pré-comunista, havia essa ideia de um céu abstrato, que é uma espécie de conceito vago de divindade ou coisa parecida. O problema é que agora, na era pós-marxista, isso se perdeu no materialismo e no ateísmo. Quando a Jan e eu fomos à Universidade Fudan participar de uma conferência para filósofos, os filósofos chineses (não os americanos, os chineses!) estavam dizendo que o confucionismo está morto, o marxismo não tem nada a oferecer e, se a China moderna quiser avançar com um tecido social que a fará funcional e coesa, precisamos do cristianismo para nos fornecer esse tecido moral para a sociedade. Disseram que não deviam ter receio de adotar essa postura, porque o cristianismo é uma religião chinesa nativa. Já está lá há séculos. Estavam defendendo o cristianismo exatamente por essa quarta razão, o que me deixou de queixo caído.

DISCUSSÃO TERMINA

Isto encerra nossa aula de hoje. No próximo encontro, faremos a seguinte pergunta: será que perceber Deus mediante a revelação geral é uma questão de inferir a existência de Deus? Isso seria um argumento para a existência de Deus? Ou seria algum tipo de percepção em que simplesmente se vê que Deus existe por meio de sua revelação?[x][10]

 

[i] 5:03

[ii] Jack Cottrell, What the Bible Says about God the Creator (Joplin, Mo.: College Press, 1983), pp. 341-346.

[iii] 10:03

[iv] 15:03

[v] 20:01

[vi] 25:07

[vii] Cf. Hebreus 7.3.

[viii] Cf. Hebreus 11.6.

[ix] 30:17

[x] Duração total: 33:26 (Copyright © 2014 William Lane Craig)