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Excurso sobre teologia natural (Parte 14): O argumento teleológico

August 02, 2023

O argumento teleológico

No nosso estudo da doutrina de Deus, embarcamos num excurso sobre teologia natural ou os argumentos para a existência de Deus. Até agora, demos um panorama da basicalidade apropriada da crença em Deus, do argumento da contingência para a existência de Deus e do argumento cosmológico kalam para a existência de Deus. Hoje, vamos passar para um novo argumento: o argumento teleológico para a existência de Deus, ou o velho argumento para o projeto.

A importância deste excurso bateu à porta mais uma vez esta semana, quando assistia a um vídeo do Fórum Veritas na Universidade Estadual de Ohio do ano passado, com um cientista cristão e um filósofo ateu. O principal argumento do filósofo ateu foi que simplesmente não há nenhuma prova para a existência de Deus e, portanto, seria injustificado crer nele; por isso, devemos simplesmente afirmar que Deus não existe e que não há nenhum significado último à vida no sentido de uma razão ou propósito para a nossa existência. Fiquei chocado que ele não tenha feito absolutamente nenhum esforço para defender a sua posição. Ele simplesmente a asseverou. Jamais examinou a posição de que pode ser racional crer em algo, não com base em provas — havendo crenças apropriadamente básicas —, e que, de fato, a ideia de que apenas crenças baseadas em provas podem ser racionais leva, em última instância, ao ceticismo, sendo contraditória. Ademais, ele jamais atentou para nenhum dos argumentos para a existência de Deus que percorremos neste curso. Por isso, na minha opinião, é extremamente importante que nós, cristãos, a fim de levarmos a nossa fé a uma cultura cada vez mais secular e cética, consigamos oferecer argumentos para a existência de Deus ou defender a racionalidade da crença em Deus na ausência de tais argumentos.

Hoje, queremos passar para o argumento teleológico ou o argumento para o projeto. Este é um dos argumentos mais velhos para a existência de Deus. Filósofos gregos antigos, como Platão e Aristóteles, ficavam estupefatos com a ordem que permeia o cosmo. As estrelas e planetas, na sua constante revolução pelo céu noturno, eram de encanto especial para os antigos. A Academia de Platão esbanjou tempo e pensamento no estudo da astronomia, porque Platão cria ser ela a ciência que despertaria o homem para o seu destino divino.

De acordo com Platão, há duas coisas que levam os homens a crer em Deus. Primeira, o argumento a partir da existência da alma e, segunda, o argumento “a partir da ordem do movimento das estrelas e de todas as coisas sob o domínio da mente que ordenou o universo”.[1] Platão empregava os dois argumentos para refutar o ateísmo e concluía que deve haver uma “alma mais nobre” que é o “criador e pai de todos”, o “Rei”, que ordenou o caos primordial no cosmo racional que observamos hoje.[2]

Uma declaração ainda mais magnífica de projeto divino se encontra num fragmento da obra perdida de Aristóteles intitulada Da filosofia. Aristóteles também ficava cheio de deslumbre com a majestosa varredura da hoste brilhante pelo céu noturno da Grécia antiga. Quem quer que tenha pessoalmente estudado os céus, na minha opinião, há de ouvir com simpatia estes pensadores da antiguidade que fixaram os olhos no céu noturno, intocado pela poluição e o brilho das luzes urbanas, e observaram o vagaroso, mas irresistível, giro do cosmo, repleto de planetas, estrelas e constelações familiares à sua vista, indagando-se: “Qual é a causa de tudo isto?”.

Aristóteles concluiu que a causa era a inteligência divina.[3] Ele imaginou, nesta obra, o impacto que a visão do mundo teria sobre uma raça de homens que tivessem vivido no subterrâneo as suas vidas inteiras e jamais tivessem contemplado o céu, conseguindo um dia escapar da sua prisão subterrânea. Escreve ele:

Quando ganhassem a vista da terra, dos mares e do céu; quando viessem a conhecer a grandeza das nuvens e a força dos ventos; quando contemplassem o sol e soubessem da sua grandeza e beleza, bem como o seu poder de causar o dia ao lançar luz sobre o sol; e ainda quando a noite escurecesse as terras e contemplassem todo o céu constelado e adornado de estrelas; e quando viessem as luzes da lua a mudarem ao aparecer e desaparecer, e o nascer e o ocaso de todos esses corpos celestes, os seus cursos fixos e imutáveis através de toda a eternidade — quando contemplassem todas estas coisas, com toda certeza teriam julgado que deuses existem e que estas obras maravilhosas são as obras dos deuses. (Aristóteles, Da filosofia)

No seu livro Metafísica, Aristóteles passou a defender que deve haver uma Causa Primeira Incausada, que é Deus, um ente vivo, inteligente, imaterial, eterno e boníssimo que é a fonte da ordem no cosmo.

Ao ler as obras destes filósofos antigos, não se pode deixar de pensar nas palavras de Paulo, na sua carta à igreja de Roma: “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas” (Romanos 1.20). Desde os tempos mais antigos, os homens totalmente ignorantes da Bíblia concluíram, com base no projeto no universo, que Deus deve existir. Hoje, muitos astrônomos, em decorrência de descobertas recentes, estão chegando a uma conclusão parecida.

Os cientistas costumavam pensar que quaisquer que houvessem sido as condições do universo antigo, dado tempo suficiente e alguma sorte, formas inteligentes de vida como nós provavelmente evoluiriam, em algum lugar no universo. Em decorrência de descobertas nos últimos cinquenta anos, mais ou menos, agora sabemos que tal suposição estava errada. De fato, o exato oposto é verdade.

Os astrônomos se espantam com a descoberta do tão complexo e delicado equilíbrio de condições iniciais que deve ter havido no próprio Big Bang, para que o universo permitisse a existência da vida inteligente em sequer algum lugar no cosmo. Este equilíbrio delicado de condições iniciais veio a ser conhecido como o “ajuste fino” do universo para a vida. Chegamos a descobrir que o universo tem ajuste fino incompreensível para a existência da vida inteligente.

Este ajuste fino do universo tem dois tipos. O primeiro envolve as constantes da natureza e, então, há certas quantidades arbitrárias.

Primeiro, as constantes da natureza. O que é uma constante? Quando as leis da natureza são expressas como equações matemáticas, veem-se nelas certos símbolos que representam quantidades imutáveis, como a força da gravidade, a força eletromagnética, a força subatômica “fraca” e assim por diante. Estas quantidades imutáveis são denominadas constantes. Os valores destas constantes não são determinados pelas leis da natureza. Poderia haver universos regidos pelas mesmas leis da natureza que as nossas e, ainda assim, com diferentes valores destas constantes. Os valores reais destes constantes não são, portanto, determinados pelas leis da natureza. As leis da natureza são compatíveis com uma ampla gama de valores destas constantes fundamentais.[4] Dependendo dos valores destas constantes, os universos regidos pelas mesmas leis da natureza parecerão radicalmente diferentes.

Além destas constantes, há também certas quantidades arbitrárias que são justamente inseridas como condições iniciais a partir das quais operam, então, as leis da natureza. Por serem tais quantidades arbitrárias, também não são determinadas pelas leis da natureza. Um bom exemplo de tal quantidade seria a quantidade de desordem termodinâmica (ou entropia) no universo inicial. É só dada no Big Bang como condição inicial e, então, as leis da natureza tomam controle e determinam como o universo se desenvolverá a partir daí. Se as quantidades iniciais tivessem sido diferentes — se o nível de entropia ou desordem no universo inicial tivesse sido diferente —, as leis prediriam que um tipo de universo bastante distinto teria evoluído.

Ora, a descoberta que deixou os cientistas estupefatos nas décadas recentes é que estas constantes e quantidades devem enquadrar-se em gama extraordinariamente estreita de valores propícios à vida, se for para o universo permitir a evolução e existência de vida inteligente em algum lugar no cosmo. É o que se quer dizer com o ajuste fino do universo.

É importante entender que o termo “ajuste fino” não quer dizer “projetado”. Ajuste fino é expressão neutra que nada diz a respeito do modo em que o ajuste fino é mais bem explicado. O ajuste fino só quer dizer que a gama de valores propícios à vida para estas constantes e quantidades é primorosamente estreita. Se o valor de até mesmo uma destas constantes ou quantidades fosse alterado por menos do que a espessura de um fio de cabelo, o delicado equilíbrio exigido para a existência da vida seria perturbado, e o universo seria, pelo contrário, impeditivo à vida.

Vejamos alguns exemplos de ajuste fino. O ajuste fino neste sentido neutro é bastante incontroverso e bem estabelecido. A física abunda com exemplos de ajuste fino. Antes de partilhar alguns destes exemplos, permitam-me só passar alguns números para dar-lhes uma noção da delicadeza de tal ajuste fino. Diz-se que o número de segundos na história do universo inteiro desde o Big Bang é de 1017 (ou seja, 1 seguido por 17 zeros, um número incompreensível). Diz-se que o número de partículas subatômicas no cosmo conhecido inteiro está em torno de 1080. Trata-se de número incompreensível. Não fazemos a menor ideia do que algo assim signifique. Está além da imaginação humana.

Com estes números em mente, considerem o seguinte. Tanto a força da gravidade quanto a força atômica fraca têm ajuste tão fino que uma alteração dos seus valores por sequer uma parte de 10100 teria tornado o universo impeditivo à vida.

Aqui vai um dado formidável! Roger Penrose estimou que as chances de que a condição de baixa entropia inicial do nosso universo (a condição inicial da baixa entropia no universo) ocorrer por acaso é algo na ordem de uma chance em 1010(123), um número de grandeza tão incompreensível que chamá-lo de astronômico seria um eufemismo deslavado.[5]

Obviamente, o ajuste fino de que estamos falando aqui está, literalmente, além da compreensão humana. Ter a precisão de sequer uma parte de 1060 seria como ter uma mira tão precisa que se poderia atirar uma bala num alvo do outro lado do universo, a vinte bilhões de anos-luz de distância, e acertá-lo na mosca de uma polegada! O número é insignificante comparado com números como 10120 ou 10100. E não é só cada quantidade ou constante que deve ser ajustada com fineza. Quando as duas são multiplicadas, para que elas todas se enquadrem na gama propícia à vida primorosamente estreita, estamos tratando, no caso, de números que são, simplesmente, incompreensíveis.

Os exemplos de ajuste fino são múltiplos e variados e, portanto, é improvável que desapareçam com o avanço futuro da ciência. A sua multiplicidade (isto é, o número deles) e a sua variedade (são diferentes) tornam extremamente improvável que esses números sejam desfeitos ou desapareçam com o avanço da física. Gostem dele ou não, o ajuste fino é justamente um fato da vida, bem estabelecido cientificamente.

Ora, talvez você esteja pensando a esta altura: “Mas, se as constantes e quantidades tivessem tido diferentes valores, talvez diferentes formas de vida teriam evoluído”. Porém, isto subestima as consequências realmente desastrosas de uma mudança nos valores destas constantes e quantidades.

Quando os cientistas dizem que o universo é propício à vida, não estão falando apenas de formas presentes de vida. Com “vida”, os cientistas querem dizer a propriedade dos organismos de absorverem alimento, dele extraírem energia, de se adaptarem ao seu ambiente e se reproduzirem. Qualquer coisa que cumpra tais condições conta como vida. A questão é que para a vida, segundo esta definição, ser possível, qualquer que seja a sua forma, as constantes e quantidades do universo têm de ter ajuste fino incrível; do contrário, ocorre um desastre. Na ausência do ajuste fino, nem mesmo a matéria ou a química existiriam, muito menos as estrelas e planetas onde a vida pudesse evoluir!

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Só uma pergunta sobre esses números astronômicos: que tipo de parâmetros se utiliza para sequer calcular esses números? Há alguma base racional para eles?

Dr. Craig: Sem dúvida, existe base racional para eles. O que fazem é simplesmente aumentar um pouquinho o valor, digamos, da gravidade, e o que se descobriria em seguida ao rodarem as leis da física com constante gravitacional um pouco mais forte é que tudo desmoronaria em si mesmo, e o universo se desfaria num buraco negro. Por outro lado, caso se enfraqueça só marginalmente a força da gravidade, só um pouquinho, as leis preveem que o universo justamente se expandiria com tanta rapidez que estrelas e planetas jamais se congelariam e, então, nunca haveria lugares onde a vida pudesse existir. Como estamos falando de universos regidos pelas mesmas leis, os físicos podem alterar esses valores e, então, rodar as leis e prever quais consequências decorreriam. O que descobrem, conforme eu disse, caso se alterem esses valores por até mesmo um fio de cabelo mais forte ou mais fraco, é que o universo vem a ser impeditivo à vida, em vez de propício à vida, de um jeito ou de outro.

Aluno: Estava discutindo este argumento com alguns ateus no Instituto de Tecnologia da Geórgia, e meio que chegamos a um impasse quando falávamos do modo em que, de fato, chega-se a esta probabilidade.[6] Parecia que eles estavam argumentando a partir do que se chamaria de filosofia frequentista de probabilidade, que afirma não ser possível dizer que algo é possibilidade até que tal coisa seja observada de fato. Fiquei pensando se seria mais como filosofia epistêmica de probabilidade, em que se trata de realidade hipotética.

Dr. Craig: Tratei desta objeção, no meu capítulo sobre ajuste fino no livro Apologética contemporânea. Não ia falar nada a seu respeito aqui, mas permitam-me dizer algo. Vocês entendem qual é a objeção? A objeção é que a probabilidade significa que algo acontecerá, digamos, uma vez em dez. Trata-se de análise frequentista do que é probabilidade. Portanto, caso nunca se tenha observado, por exemplo, dez tentativas, não se sabe qual é a probabilidade de algo ocorrer. Obviamente, há apenas um universo, de modo é que sem sentido falar da probabilidade de que o universo tenha ajuste fino, porque houve só uma tentativa, por assim dizer. Por isso, não podemos falar da probabilidade do ajuste fino.

Acho a posição bastante equivocada. Em primeiro lugar, a análise frequentista da probabilidade está equivocada. Só para dar uma ilustração. Os cientistas estão investindo milhares de horas de trabalho e milhões de dólares em pesquisa na busca por um evento de decaimento de prótons. Em reatores, estão tentando detectar o decaimento de um próton para partículas mais fundamentais. Isto jamais se observou, embora a física prediga que pode acontecer. Ora, segundo o modelo frequentista, quer dizer que estão procurando um evento que tem probabilidade zero, porque nunca acontece. Ainda assim, é algo obviamente errado. Os cientistas não estão gastando milhões de dólares e milhares de horas de trabalho na busca disto porque se trata de evento com probabilidade zero. A análise que o frequentista dá simplesmente não é aplicável, neste caso.

Como é que devemos entender a probabilidade? John Barrow, físico na Universidade de Cambridge, dá a seguinte ilustração. Diz ele: peguemos uma folha de papel e coloquemos nela um ponto vermelho; suponhamos que o ponto vermelho representa o nosso universo, com os seus valores das constantes e quantidades. [Dr. Craig desenha uma ilustração na lousa.] Assim, este é o nosso universo, caracterizado pelas constantes e quantidades que tem. Então, diz ele, alteremos tais constantes e quantidades em quantidade minúscula, e este é um novo universo. Se for universo propício à vida, faça outro ponto vermelho na proximidade do primeiro. Se for universo impeditivo à vida, diz ele, faça um ponto azul. Então, faça-o de novo. E de novo. E mais uma vez, até que a folha esteja cheia de pontos. Acaba-se chegando, diz ele, a um mar de azul, com apenas alguns pontículos vermelhos. É neste sentido que um universo com ajuste fino tem altíssima improbabilidade. Os valores das constantes e quantidades são tais que apenas um número primorosamente minúsculo de valores será compatível com a permissão à vida. A vasta maioria destes universos possíveis é impeditiva à vida. Acho que isto nos dá uma noção bem clara em que podemos dizer que a existência de um universo com ajuste fino seja incompreensivelmente improvável.

Aluno: Seria possível dizer que alguns desses números foram criados a partir de simulações que cientistas já usam para outras investigações científicas que já produzem, de fato, resultados, e que, por este motivo, no caso, o cálculo seria muito mais favorável?

Dr. Craig: Não sei a resposta à sua pergunta. Não sei se, na contemplação de universos nos quais, por exemplo, a força fraca no núcleo atômico tivesse valor mais forte — se isto levaria ou não a algum tipo de predição frutífera. Não sei se essas predições têm esse valor prático. Antes, o que elas revelam, no entanto, é que esses outros universos seriam impeditivos à vida. Não haveria nenhuma vida, conforme a definimos nesses tipos de mundos. O resultado seria o verdadeiro desastre, como eu disse. Não haveria sequer a química nesses mundos, caso se perturbasse o equilíbrio dessas constantes e quantidades.[7]

Aluno: Será que alguém já tentou chegar ao valor da entropia inicial, em contraste com o que é hoje?

Dr. Craig: Ah, sim, é o que Penrose faz na sua estimativa. Ele faz o cálculo de volta à condição de entropia inicial do Big Bang, descobrindo que é primorosamente baixa. O universo inicial tem condição de entropia baixíssima, com altíssima e incompreensível improbabilidade. Deveria ser muito mais alta do que o é. É algo que clama por explicação e para o qual os cientistas buscam uma explicação.

Aluno: Se a taxa de aumento de entropia é consistente, é possível, caso haja o valor inicial em comparação com agora, quase calcular a idade do universo.

Dr. Craig: Seria algo relacionado. O que se faria é ver os níveis atuais de entropia e, então, rodá-los retroativamente até a um universo velho assim e, então, parar. Isto daria a condição inicial de entropia baixa.

Aluno: Tenho vaga familiaridade com o limite da probabilidade universal de Dembski. Poderia explicá-lo?

Dr. Craig: William Dembski é teórico do projeto inteligente que buscou desenvolver um modelo para fazer inferência de projeto. Quando é que somos justificados na inferência de que algo é projetado? Como parte da sua teoria, ele estabelece esse limite de probabilidade em que algo que é mais improvável é tão absurdo que jamais aconteceria; portanto, pode-se dizer que é impossível. O seu limite de probabilidade está ligado àquele número de partículas subatômicas de 1080 no universo. O que quer que tenha uma probabilidade que seja menor do que uma chance em 1080 é impossível. Jamais acontece. Como se pode ver, o ajuste fino de que estamos falando, para até mesmo apenas uma constante ou quantidade, excede tal limite de probabilidade que Dembski estabelece.

Aluno: Por que é que ele faz equivalência disto com o número de partículas do universo? Como chegou a isto?

Dr. Craig: Acho que a ideia dele é que se veriam as chances de que algo ocorra e, caso se identifique uma chance com uma partícula ou posição subatômica, se chegaria ao número de chances para que isto aconteça. Suponho que seria preciso extrapolá-lo no tempo também, mas não me lembro do seu limite exato, mas é algo nesta ordem, muitíssimo mais baixo do que as chances que estamos discutindo para o ajuste fino. Isto está no seu livro The Design Inference [A inferência de projeto], publicado pela Imprensa da Universidade de Cambridge, se alguém tiver interesse em ir mais a fundo.

Aluno: Para mim, o que acho que podemos aceitar é o fato de que a comunidade científica concorda que o ajuste fino é uma realidade. Não há dúvida a este respeito.

Dr. Craig: Há cientistas que o questionarão, e acho que, em parte, porque veem aonde tudo isto está levando. Mas, sim, a maioria dirá que o ajuste fino está bem estabelecido.

Aluno: É como o elefante na sala. Não tenho certeza como é possível desviá-lo sem vê-lo. De fato, tudo se resume a isto: ele existe, mas como é que ele existe? É dali que vem? Será que discutiriam ao redor do elefante?

Dr. Craig: Sim, vamos chegar aí. Estou expondo aqui os dados a serem explicados. Como veremos da próxima vez, há três explicações propostas na literatura atual para como melhor explicar este ajuste fino: necessidade física, acaso e projeto. Assim, o debate terá a ver, não tanto com o fato do ajuste fino, que está bem estabelecido, quanto com o modo de melhor explicá-lo. Como veremos, os que negam o projeto são movidos a algumas hipóteses metafísicas bem radicais, a fim de explicarem o ajuste fino.[8]

Aluno: Se há uma condição de que, por exemplo, se não fosse igual a um, o universo não poderia existir (só estou dando um exemplo hipotético), como é que se pode dizer o número máximo a atingir antes de...?

Dr. Craig: A pergunta é excelente e bastante debatida. Representemos a gama de valores que uma constante ou quantidade adotaria. [Dr. Craig desenha uma ilustração na lousa.] O que descobrimos é que a gama de valores propícios à vida é primorosamente estreita: é preciso enquadrar-se nesta gama, a fim de ser propício à vida. A pergunta é a seguinte: até que ponto vai esta gama mais ampla de valores possíveis? Até à infinidade? Ou será que há alguma extensão finita? A questão é deveras controversa. Robin Collins, provavelmente o melhor escritor sobre o ajuste fino hoje, diz que o contraste entre a gama propícia à vida e a gama possível devia ser a gama de valores para os quais podemos dizer, fisicamente, se o universo seria ou não propício à vida. Ele a denomina de gama ilustrada. Esta gama ilustrada será a gama de valores possíveis para a qual podemos fazer um juízo: sim, isto aqui seria propício à vida; ou, não, isto ali não seria propício à vida. Além deste ponto, é como uma gama obscura sem luz, e simplesmente não sabemos o que está presente. Assim, ele compara a gama propícia à vida com a gama ilustrada, e é assim que ele chega a todos esses números extraordinários sobre o nível de ajuste fino necessário para que existam agentes corpóreos e conscientes como nós.

DISCUSSÃO TERMINA

Da próxima vez, vamos considerar mais algumas objeções ao argumento. Depois, vamos estabelecer e começar a desdobrar as premissas deste argumento.[9]


[1] Platão, Leis 12.966e.

[2] Platão, Leis 10.893b-899c; idem, Timeu.

[3] 5:00

[4] 10:04

[5] 15:16

[6] 20:10

[7] 25:10

[8] 30:06

[9] Duração total: 33:08 (Copyright © 2015 William Lane Craig)