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Excurso sobre teologia natural (Parte 15): O argumento teleológico, Parte 2

August 02, 2023

Premissas do argumento teleológico

Da última vez, começamos a ver o argumento para o projeto com base no ajuste fino do universo para a vida inteligente. Vimos que, ao longo do último meio século, mais ou menos, os cientistas se impressionaram com a descoberta de que, para que a vida inteligente evoluísse e existisse em qualquer planeta, em qualquer lugar no universo, as condições iniciais do Big Bang tinham de ser ajustadas finamente, com complexidade e delicadeza que, literalmente, desafiam a compreensão humana. A fim de que o universo fosse propício à vida, como o é, os valores das constantes e quantidades fundamentais do universo deviam se encaixar numa gama extraordinariamente estreita de valores propícios à vida, de tal modo que, se esses valores fossem fortalecidos ou enfraquecidos por menos do que a espessura de um fio de cabelo, o equilíbrio seria perturbado, e a vida de qualquer tipo não existiria em lugar algum no universo.

Às vezes, as pessoas objetarão ao ajuste fino, dizendo: “Talvez, num universo regido por leis da natureza diferentes, tais consequências desastrosas não aconteceriam a partir da alteração dos valores das constantes e quantidades”. Porém, esta objeção revela um mal-entendido em relação ao argumento.

Nosso interesse não está em universos que operam de acordo com leis da natureza diferentes. Não fazemos nenhuma ideia do que aconteceria nos universos que operam de acordo com leis da natureza diferentes. Antes, este argumento diz respeito apenas a universos em operação de acordo com as mesmas leis da natureza que o nosso universo, mas com diferentes valores das constantes e quantidades. Uma vez que as leis da natureza se preservam, e alteram-se, meramente, os valores das constantes e das quantidades, podemos predizer o que aconteceria, caso tais valores fossem aumentados ou diminuídos, marginalmente. Por isso, o nosso interesse está em universos regidos pelas mesmas leis da natureza, mas com diferentes valores das constantes e quantidades.

O filósofo canadense John Leslie dá uma ilustração bem envolvente desta observação. Ele nos pede para imaginar uma mosca solitária pousada num amplo espaço em branco na parede. Dá-se um único tiro, e a bala traspassa a mosca. Ora, mesmo que, fora do amplo espaço em branco, a parede estivesse recoberta de moscas, de modo que uma bala disparada a esmo provavelmente acertasse uma mosca, continua sendo verdade que, no amplo espaço em branco, é extremamente improvável que um tiro disparado a esmo acertasse a mosca solitária. Com toda probabilidade, o tiro disparado a esmo acertaria alguma outra porção do amplo espaço em branco. Essa mosca solitária é bem como o nosso universo, e a ampla área em branco serão outros universos regidos pelas mesmas leis da natureza, mas com diferentes valores das constantes e quantidades. Assim, não temos interesse no que aconteceria fora da área em branco: os universos que têm leis da natureza diferentes. Ninguém sabe o que aconteceria neles. Antes, a questão é a seguinte: em universos regidos pelas presentes leis da natureza, mas com diferentes valores das constantes e quantidades, qual é a probabilidade de que o universo fosse propício à vida? A resposta é que um universo propício à vida é como essa mosca solitária na ampla área em branco, mas incomparável e incompreensivelmente mais isolado do que a mosca na parede de John Leslie.

Uma vez que as leis são as mesmas, podemos determinar o que aconteceria, quando se alterassem as constantes e quantidades. E, como disse na semana passada, os resultados calham de ser, simplesmente, desastrosos. Um universo propício à vida é incompreensivelmente improvável.[1]

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Uma resposta seria que a vida (detesto usar a palavra “evoluiu”), que a vida tornou-se real neste universo; é claro que existiria neles... porque é essa a origem da vida, de modo que, obviamente, um ajuste fino assim estaria claro ou presente.

Dr. Craig: Estaria presente. Só não é tão claro. Os cientistas não descobriram até as últimas tantas décadas que essas condições iniciais tinham esse ajuste fino. Porém, sim, você está absolutamente correta. Entenderam a observação que ela fez? Vou reiterá-la depois. Para que a vida evolua em algum lugar no universo, as condições iniciais no Big Bang têm de estar presentes para começar; do contrário, a vida jamais evoluiria em nenhum lugar. Assim, a questão da evolução só se torna irrelevante a esta versão do argumento porque são condições iniciais e, portanto, não são o produto de processos evolutivos anteriores. É assim que o universo se inicia.

Aluno: Será que o ajuste fino trataria mais da natureza metafísica do que o faria com a natureza física, visto que trata das condições iniciais?

Dr. Craig: É natureza física. Estamos falando, no caso, de parâmetros físicos que não são discutidos na filosofia — isto é física! Trata-se de um exemplo do que um cosmólogo denominou de cosmologia metafísica. A cosmologia moderna tornou-se quase metafísica nas suas implicações e ramificações. Este seria um exemplo deste fato. Mas são parâmetros descobertos por astrofísicos, pessoas que estudam o universo. Por isso, trata-se de interesse físico ou científico.

Aluno: Topei com uma objeção que creio ter sido feita por Victor Stenger, quando ele afirmou que o ajuste fino não é tão extremo quanto pensamos, porque, basicamente, as diferentes constantes como que equilibram uma à outra. Uma grande variação de uma pode ser equilibrada pela outra. Assim, o ajuste fino não é lá tão extremo quanto talvez pareça.

Dr. Craig: Stenger, que era (já faleceu) naturalista e ateu fervoroso. Ele tinha forte tendência em livrar-se do argumento do ajuste fino e adotou posições que, a meu ver, são defendidas por pouquíssimos. Robin Collins, em particular, responder às objeções de Stenger na sua obra, por exemplo, no artigo em Blackwell Companion for Natural Theology [Manual Blackwell de teologia natural]. O que Robin indica é que estes parâmetros se distinguem pela independência um do outro. Não há razão para pensar que ajustar, por exemplo, a razão da massa de próton para nêutron afetaria a entropia baixa do universo inicial ou que, de algum modo, estejam relacionadas. Conforme disse da outra vez, não é só o número destas constantes e quantidades que precisam ter ajuste fino, mas também a sua variedade e independência umas das outras. Porém, de fato, a observação que Stenger faz, segundo entendo, realmente reforça a improbabilidade do ajuste fino, porque se tem de considerar não só estas coisas isoladamente, mas as suas razões de uma para a outra. Se são realmente interconectadas do modo em que ele imagina, seria ainda mais notável, a meu ver, que houvesse essas razões interconectadas necessárias para o universo ser propício à vida. Então, dê uma olhada, se estiver interessada, nas respostas de Robin Collins a Stenger.

DISCUSSÃO TERMINA

A questão que enfrentamos é a seguinte: qual é a melhor explicação para este notável ajuste fino? O ajuste fino é fato da natureza relativamente incontroverso, quando entendido de modo adequado no sentido neutro. Muitos hoje estão chegando à conclusão de que a razão por que o universo tem ajuste fino para a vida inteligente é que ele foi projetado para ser assim. Foi projetado por um projetista cósmico inteligente, para ser propício à vida.

O projeto, porém, não é a única alternativa. Há também necessidade física e acaso. A chave para inferir o projeto como a melhor explicação será a eliminação destas outras duas alternativas.[2]

De acordo com isto, podemos apresentar um argumento simplicíssimo em três passos que é fácil de memorizar e partilhar com outra pessoa. Seria algo assim:

1. O ajuste fino do universo se deve a necessidade física, acaso ou projeto.

2. Ele não se deve à necessidade física ou acaso.

3. Logo, ele se deve ao projeto.

Trata-se de formulação muito simples do argumento do ajuste fino. Observem que, ao concentrar-se no ajuste fino, este argumento faz uma manobra eficaz em volta da questão emocionalmente sobrecarregada da evolução biológica. O argumento a partir do ajuste fino, conforme disse há um momento, se for bem-sucedido, mostrará que a evolução da vida inteligente, em qualquer lugar no universo, depende do projeto das condições iniciais do universo. Quaisquer argumentos de projeto que você queira propor a partir da biologia — por exemplo, a partir da origem da vida ou o desenvolvimento da complexidade biológica ou a origem da consciência e assim por diante — simplesmente acrescentará outra camada de improbabilidade em cima do ajuste fino, tornando ainda mais improvável que se possa dar alguma explicação sem um projetista. Por isso, este argumento não depende de exemplos de projeto biológico ou argumentos anti-evolutivos. Esse tipo de argumento, simplesmente, fortalecerá a defesa do projeto, tornando a vida ainda mais improvável do que já é, com base no ajuste fino.

A primeira premissa do argumento, de que o ajuste fino se deve à necessidade física, ao acaso ou ao projeto, é inobjetável, porque só elenca as alternativas disponíveis para explicar o ajuste fino. Estas são as alternativas discutidas na literatura atual. Se alguém aparecer com uma quarta alternativa e quiser acrescentá-la à lista, será bem-vindo, e teremos de considerá-la quando chegarmos à premissa (2). Porém, não parece haver nenhuma alternativa. Estas são as principais alternativas discutidas na literatura especializada.

Então, a questão real é a premissa (2). Será que a premissa é mais plausivelmente verdadeira do que falsa? Se o for, disto se seguirá que o ajuste fino do universo se deve ao projeto.

Digamos algo a respeito da primeira alternativa, a necessidade física. De acordo com esta alternativa, o universo tinha de ser propício à vida. As constantes e quantidades devem ter os valores que o fazem, de modo que um universo impeditivo à vida seja, literalmente, uma impossibilidade física.

Ora, à primeira vista, esta alternativa parece fantasticamente implausível. Exigiria que crêssemos ser um universo impeditivo à vida uma impossibilidade física. Mas por que adotar visão tão radical? Como vimos, as constantes e quantidades não são determinadas pelas leis da natureza. As leis da natureza são compatíveis com uma ampla gama de valores destas constantes e quantidades. Assim, não há nada nas leis da natureza que tornariam estas constantes e quantidades necessárias nos seus valores. Assim, por que é que não poderiam ter sido diferentes? As quantidades arbitrárias, lembrem-se, são só condições iniciais a partir das quais operam as leis da natureza. Nada se conhece na física que sugeriria haver leis de condições iniciais que as tornariam fisicamente necessárias. Assim, o oponente do projeto está adotando uma postura muito radical que demandaria algum tipo de prova. Mas não há nenhuma. Não há nenhuma prova, nenhum indício, de que os valores destas contantes e quantidades sejam fisicamente necessários. Esta alternativa está sendo proposta, simplesmente, como mera possibilidade, para a qual não há nenhuma prova, não devendo, portanto, ser aceita por nós.

Às vezes, os cientistas falam, sim, de algo ainda a ser descoberto, uma “Teoria de Tudo” (TdT). Porém, como muitos dos nomes coloridos dados a teorias científicas, este rótulo pode levar a muitos equívocos.[3] Uma TdT bem-sucedida não explicaria, de fato, tudo. O objetivo de uma Teoria de Tudo é oferecer uma teoria unificada da física que uniria as quatro forças fundamentais da natureza (gravitação, eletromagnetismo, a força forte e a força fraca) em uma única força, carregada por uma única partícula. Porém, ela nem sequer tentaria explicar tudo literalmente. Por exemplo, o candidato mais promissor à chamada Teoria de Tudo hoje é a Teoria-M ou a teoria das supercordas. Porém, a teoria das supercordas só funciona se houver 11 dimensões, e não as 4 dimensões que observamos. Só funciona num universo undecadimensional. Porém, a própria teoria não explica por que existiriam exatamente 11 dimensões, em vez de outro número qualquer de dimensões. É algo que apenas se pressupõe na teoria.

Além disso, a Teoria-M, na verdade, não prediz de maneira singular os valores das constantes e quantidades que observamos no nosso universo. A Teoria-M, de fato, permite uma ampla gama de universos, tendo cerca de 10500 membros com diferentes valores das constantes fundamentais da natureza. Estes universos são todos compatíveis com as leis da natureza, mas possuem diferentes valores das constantes fundamentais da natureza. Quase todos estes universos vêm a ser impeditivos, em vez de propícios à vida. A isto se faz referência, por vezes, como a paisagem cósmica de mundos compatíveis com a Teoria-M. Esta paisagem cósmica tornou-se, por si só, um fenômeno nos artigos de ciência popular ultimamente. Porém, é importante entender que esta paisagem cósmica não é real. É só uma gama de possibilidades. Algumas pessoas interpretaram mal a paisagem cósmica como se significasse que todos esses diferentes universos existissem de verdade, que estão todos por aí. Há quem tenha pensado que isto, portanto, solapa o argumento a favor do projeto, porque, se todas estas diferentes possibilidades existem, deve haver universos propícios à vida, como o nosso. Porém, a paisagem cósmica não é real. É só uma lista de possibilidades. Só descreve a gama de universos compatíveis com a Teoria-M. Tal gama é de tamanho tão incompreensível (10500 diferentes possibilidades) que alguma explicação se faz necessária, dizendo por que existe um universo propício à vida, em vez de um universo impeditivo à vida, uma vez que universos propícios à vida representam uma proporção praticamente infinitésima da paisagem cósmica.

Por isso, não se pode dizer que universos propícios à vida sejam fisicamente necessários por causa desta Teoria de Tudo (ou Teoria-M), uma vez que, para ser bem franco, isto é pura e simplesmente falso. Não é verdade que a Teoria-M prediga, de forma singular, o nosso universo.

Assim, não há provas de que um universo propício à vida seja fisicamente necessário. Pelo contrário, de fato, a ciência não só sugere que tais universos propícios à vida sejam possíveis, mas que eles, de fato, têm muitíssimo mais probabilidade do que qualquer universo propício à vida, como o nosso.

 

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Fico me perguntando se alguém poderia responder assim. No começo, restringe-se o escopo de mundos possíveis que se está observando aos mundos possíveis nomológicos, aqueles com as nossas leis da natureza. Fico pensando se alguém poderia dizer: “Se você for restringi-lo assim, por que é que não posso restringi-lo àqueles com as nossas constantes? A restrição está sendo feita, de todo modo. Parece um pouco forçada, mas...”, só para reverter a questão contra você. Queria saber o que diria em resposta.

Dr. Craig: Em certo sentido, é o que faz a pessoa que defende a necessidade física.[4] Ela diz que os valores das constantes e quantidades que observamos têm de ser assim, de modo que lhes restrinjamos a nossa atenção. Mas, como disse, não há nenhuma razão para pensar assim, e tudo que sabemos da física sugere que tal restrição seria injustificada. É perfeitamente possível que a força forte ou a força fraca tivessem valores diferentes e, assim, queremos saber por que é que têm a força que têm. Não precisavam tê-la. Este tipo de restrição seria forçado e injustificado.

Aluno: A ideia devia ser que já se está restringido aos mundos nomologicamente possíveis. Assim, se estão sendo restritos, por que é que o objetor não pode justamente restringi-los mais?

Dr. Craig: Eu diria que tal restrição resulta em trivialidade. Tudo que mostraria é que, relativamente aos valores das constantes e quantidades, o universo deve ser propício à vida. É trivial. É o que significa o ajuste fino. Tal restrição seria trivial, ao que me parece. É como dizer que uma hipótese, em relação a si mesma, tem probabilidade de 1. Certo. E daí? Parece não tratar da dificuldade.

Aluno: Quantos físicos ou cosmólogos realmente defenderiam esta teoria de que o universo é necessário, de que as constantes e quantidades têm os valores deviam ter?

Dr. Craig: Quase ninguém. Acho que alguém como Stenger ia querer adotar esta visão, mas a decisão advém claramente do preconceito naturalista. Porém, a teoria das supercordas, em particular, não entregou o prometido. Acho que um bom número de físicos agora está muito decepcionado com este projeto de pesquisa. E, de todo modo, mesmo que fosse a Teoria de Tudo correta, como disse, o que ela prediz não é um conjunto singular de valores, mas esta enorme gama de valores possíveis. Assim, acho que não haveria quase ninguém tão audaz a ponto de dizer: “Afirmo que os valores das constantes e quantidades são fisicamente necessários”. No máximo, proporiam a questão como mera possibilidade; talvez esta seja uma possibilidade. De longe, a alternativa escolhida será a segunda: trata-se do acaso. É simplesmente sorte nossa que os valores caíram todos na gama propícia à vida.

Aluno: Voltando à primeira pergunta, ia só apontar que, do ponto de vista do cientista, há uma diferença fundamental entre forças e constantes, para começo de conversa. Faz sentido restringir as leis reais do universo — por exemplo, a gravidade tem de ser uma lei do quadrado inverso —, mas a constante é, simplesmente, parte dessa lei. Trata-se de número aleatório. Como cientista, faz sentido dizer que vamos só lidar com universos que têm as nossas mesmas leis ou têm as mesmas formas, mas nos quais as constantes, na verdade, poderiam ser o que bem quisessem.

Dr. Craig: Gosto do jeito em que formulou a questão. Caso se acoplem valores a estas leis, está-se perguntando, na verdade, qual é a probabilidade do universo relativo a si mesmo, porque, no caso, deu-se só uma descrição das leis com os valores que ele tem.

DISCUSSÃO TERMINA

 

Isto nos leva, então, à segunda alternativa: será que o ajuste fino do universo poderia ser devido ao acaso? Reservaremos esta alternativa para a nossa próxima aula, porque levaria muito mais tempo do que só estes cinco minutos restantes![5]

 

 

[1] 5:01

[2] 10:04

[3] 15:12

[4] 20:02

[5] Duração total: 24:40 (Copyright © 2015 William Lane Craig)