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Excurso sobre teologia natural (Parte 16): O argumento teleológico, Parte 3

August 02, 2023

Explica-se o ajuste fino pelo acaso?

Hoje, queremos continuar a nossa discussão do argumento do projeto para a existência de Deus com base no ajuste fino do universo. Vimos que as constantes fundamentais e condições limítrofes do universo têm ajuste fino para a evolução e a existência de agentes corpóreos conscientes num grau de delicadeza e complexidade incompreensíveis. Há três explicações para este incrível ajuste fino disponíveis na literatura. Uma é a necessidade física: que as constantes e quantidades precisam ter os valores que têm. A outra é o acaso. E a terceira é o projeto. Já vimos que a primeira alternativa — de que se trata de necessidade física — é extremamente improvável. É contrária às melhores provas da ciência. As melhores provas indicam que estas constantes e quantidades independem das leis da natureza, e que não há nada, fisicamente, que determine deverem elas ter valores com o ajuste fino que possuem.

Isto nos leva à segunda alternativa, qual seja: o acaso. Será que o ajuste fino do universo poderia ser só o resultado do acaso? De acordo com esta alternativa, trata-se só de um acidente que todas as constantes e quantidades se enquadrem na gama infinitesimal propícia à vida. Simplesmente, tivemos sorte. O problema fundamental com esta explicação é que as chances de que um universo propício à vida existisse são tão remotas que esta alternativa se torna irrazoável.

Às vezes, as pessoas objetarão que é insignificante falar da probabilidade da existência de um universo com ajuste fino porque, afinal, há apenas um universo. Por isso, não se pode dizer, por exemplo, que um em cada dez universos tenha ajuste fino para ser propício à vida. Já abordei esta questão no nosso período de discussão, mas quero percorrê-lo mais uma vez, só para consolidar o argumento.

John Barrow, físico na Universidade de Cambridge, dá a seguinte ilustração do sentido em que se pode dizer que é extremamente improvável a existência de um universo com ajuste fino. Barrow disse: imaginemos uma folha de papel e coloquemos nela um ponto a representar o nosso universo. Ora, alteremos algumas das constantes e quantidades fundamentais só em quantidades minúsculas. Esta será, então, a descrição de um novo universo. Se tal universo for propício à vida, faça outro ponto vermelho. Se for impeditivo à vida, faremos um ponto preto. Em seguida, faça de novo e de novo e mais uma vez, até que a folha de papel esteja recoberta de pontos. Acaba-se obtendo um mar de preto com apenas uns pontinhos vermelhos no campo. Neste sentido, é esmagadoramente improvável que o universo seja propício à vida. Há, simplesmente, muito mais universos impeditivos à vida do que universos propícios à vida, na nossa área local de universos possíveis.

Por vezes, há quem apele para o exemplo da loteria para justificar a alternativa do acaso. Na loteria em que todos os bilhetes foram vendidos, é fantasticamente improvável que qualquer pessoa ganhe. Ainda assim, alguém tem de ganhar, caso todos os bilhetes tenham sido vendidos! Assim, seria injustificado que o ganhador (seja ele quem for) diga algo assim: “Pois bem, as chances de que eu ganhasse eram uma em vinte milhões. A loteria deve ter sido manipulada para me fazer ganhar!”.[1]

Da mesma forma, estes mesmos dirão que algum universo fora da gama de universos possíveis tinha de existir, e o ganhador da loteria do universo também seria injustificado, caso pensasse que o seu universo só existe em decorrência do projeto, e não do acaso. Todos os universos são igualmente improváveis, mas, ainda assim, algum universo tinha de existir. Assim, aquele que existe, existiria simplesmente por acaso e mais nada, e seria injustificado concluir ser ele decorrente do projeto.

A analogia da loteria é, de fato, de grande utilidade, porque acho que ela nos possibilita ver onde errou o objetor, onde ele entendeu mal o argumento do ajuste fino, e, então, propor uma analogia melhor e mais precisa no seu lugar. Contrariamente à impressão popular, o argumento para o projeto não busca explicar por que este universo específico existe. Antes, ele busca explicar por que existe um universo propício à vida. A analogia da loteria foi concebida erroneamente, por concentrar-se no porquê da vitória de alguém específico.

A analogia correta do argumento do ajuste fino seria uma loteria em que bilhões e bilhões de bolas de pingue-pongue brancas foram misturadas com uma ou duas bolas de pingue-pongue laranjas, e lhe dissessem que uma bola seria selecionada desta pilha de forma aleatória. Se der laranja, você poderá viver. Se der branca, você levará um tiro. Observe que qualquer bola específica a ser escolhida tem igual improbabilidade. Independentemente de qual bola de pingue-pongue caia na seletora, as chances contra tal bola de pingue-pongue específica serão fantasticamente improváveis. Mas alguma bola deve cair na seletora. É este o argumento ilustrado pela primeira analogia da loteria. Alguém tem de ganhar. Só o fato de essa bola específica ter altíssima improbabilidade não justificaria uma inferência ao projeto. Porém, o argumento é irrelevante, porque não estamos tentando explicar por que tal bola específica foi pega.

A observação relevante, pelo contrário, é que qualquer que seja a bola a rolar e cair na seletora, a maior probabilidade, avassaladora e incompreensível, é que ela será branca, e não laranja. Obter a bola laranja não é mais improvável do que obter qualquer bola branca específica, mas a probabilidade maior e incompreensível é que qualquer que seja a bola a se obter, ela será branca, e não laranja. Assim, se cair a bola laranja na seletora, permitindo que você viva, sem dúvida, você deverá suspeitar que a loteria foi manipulada para deixá-lo viver.

Se você não enxerga a força desta analogia, imagine, então, que uma bola laranja tenha de ser pega cinco vezes seguidas, aleatoriamente, para que você viva. Se as chances de que a bola laranja seja pega sequer uma vez são minúsculas, ver o evento acontecer cinco vezes seguidas não vai afetar, materialmente, as probabilidades. Porém, obviamente, se algo assim acontecesse — se a bola laranja caísse na seletora cinco vezes seguidas —, todo mundo reconheceria que não se deu por acaso. De algum modo, houve manipulação e fraude.

Assim, na analogia correta, o interesse não está no porquê de se ter obtido a bola específica que se pegou; antes, ficamos perplexos com o fato de que, contra chances avassaladoras, pegou-se uma bola propícia à vida, em vez de uma bola impeditiva à vida. A questão, simplesmente, não é tratada dizendo-se só: “alguma bola tinha de ser pega, e qualquer bola específica tem igual improbabilidade”. Exatamente da mesma maneira, algum universo tem de existir, mas qualquer que seja o universo a existir, é de probabilidade maior e incompreensível que ele será um universo impeditivo à vida, e não propício à vida. Ainda precisaremos de alguma explicação para o motivo de existir um universo propício à vida.[2]

 

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Para comentar mais sobre a analogia do objetor de que algo tinha de ser escolhido, seria possível dizer que, sim, alguém tem de ser escolhido, mas e se houvesse as condições de que a pessoa escolhida para ganhar na loteria também tivesse de ser um homem de 46 anos, com 1,80 m, 90 kg e assim por diante?

Dr. Craig: Sim, eu uso “propício à vida”, mas acho que William Dembski usou este exemplo: e se, cada vez que se ganhou na loteria, o ganhador era alguém membro da máfia? Você não levantaria algumas suspeitas? É algo parecido, no caso. Por que é contra todas as chances que um universo propício à vida é o que existe?

Aluno: Pela analogia da loteria, você não acha que não é verdade que algum jogador de loteria tenha de ganhar? Penso, por exemplo, no bolão que vimos semana passada: pode acontecer que ninguém acerte todos os números, de modo que ninguém ganha, e o prêmio continua. Na discussão sobre o universo, podia acontecer que nenhum universo existisse. Não é que alguém tivesse de ganhar. Alguém tem de acertar todos os números para ganhar, e isso pode não acontecer de forma alguma.

Dr. Craig: Usei a analogia da loteria em que todos os bilhetes são vendidos, de modo que é garantido que alguém compre o bilhete vencedor e ganhe.

Aluno: Mas este é outro tipo de jogo.

Dr. Craig: A razão por que fiz isso é que, caso se diga não ser verdade que algum universo tenha de existir — poderia ter havido simplesmente nada —, parece que é como que se acabasse desembocando no argumento cosmológico leibniziano, com a pergunta: “por que existe algo, em vez de nada?”. É ótima pergunta: por que é que um universo contingente sequer existe? Será que não poderia ter havido nada? Mas, só a título argumentativo, para manter o argumento do ajuste fino o mais independente desses outros argumentos, quis conceder que algum universo tinha de existir. Porém, como você disse, não é verdade. Se o universo é um ser contingente, nenhum universo tinha de existir.

Aluno: Não é verdade que não existe mesmo nenhuma loteria aleatória e que se usa algum tipo de algoritmo matemático passível de ser resolvido? Não é verdade que se pode fazer a engenharia reversa de qualquer loteria? Acho que li algo neste sentido.

Dr. Craig: Nunca li sobre isso. Em certo sentido, quando estamos falando de ganhar por acaso, não queremos dizer que seja algo indeterminista. Obviamente, há fatores que causam qual bola será escolhida, em vez de outras. Está-se lidando com uma situação determinista, no caso. Acho que é verdade. A menos que se creia na indeterminação quântica e se tenha algum tipo de mecanismo de indeterminação quântica como responsáveis pela seleção da bola vencedora... Mas, caso se esteja lidando com a física clássica comum, você está bem correto em dizer que é só pelo acaso, no sentido de que linhas causais independentes se unem para produzir o efeito. Mas não é que seja algo incausado ou literalmente indeterminado.

DISCUSSÃO TERMINA

 

Há quem defenda que nenhuma explicação é necessária para o motivo de observamos um universo propício à vida, porque é o único tipo de universo que podemos observar. Se o universo não fosse propício à vida, não estaríamos aqui para perguntar ao seu respeito. É o chamado “princípio antrópico”, que diz ser possível observar apenas propriedades do universo compatíveis com a nossa existência. Obviamente nos seria impossível observar propriedades do universo incompatíveis com a nossa existência, porque não estaríamos presentes. Assim, o princípio antrópico diz que só podemos observar propriedades do universo compatíveis com a nossa existência e, portanto, uma vez que se observam tais propriedades, ninguém deve surpreender-se com este fato. Não há nenhuma explicação necessária.[3]

O raciocínio é falacioso. O fato de só podermos observar universos propícios à vida nada faz para explicar por que existe um universo propício à vida. O fato de ser o único tipo que podemos observar não remove a necessidade de uma explicação do motivo por que tal universo realmente existe.

Mais uma vez, uma ilustração pode ajudar, neste caso. Suponha que você esteja em viagem no exterior e seja preso por falsas acusações de posse de drogas, seja arrastado até um pelotão de fuzilamento de cem atiradores treinados, em distância à queima roupa, todos eles com fuzis apontados para o seu coração. Você ouve a ordem: “Preparar! Apontar! Fogo!”, e escuta o estrondo ensurdecedor das armas. E, então, você observa que ainda está vivo! Que todos os cem atiradores erraram! Ora, o que você concluiria? “Pois bem, acho que não devia ficar muito surpreso que todos tenha errado. Afinal, se não tivessem todos errado, cá não estaria eu surpreso com tudo isso. Já que estou aqui, deveria esperar que tenham errado”. É claro que não. É verdade que você não deveria ficar surpreso de que não observa estar morto, porque, se estivesse morto, não conseguiria observá-lo. Porém, ainda deveria surpreender-se que está observando estar bem vivo, à luz da enorme improbabilidade de cem atiradores errarem. De fato, você provavelmente concluiria que, se isto aconteceu, todos eles erraram de propósito, que tudo foi armado, elaborado por alguém por algum motivo.

Portanto, os teóricos vieram a reconhecer que o princípio antrópico não eliminará a necessidade de uma explicação do ajuste fino, a menos que seja associado à chamada hipótese do multiverso. De acordo com a hipótese do multiverso, o nosso universo é só um membro de um conjunto de mundos de universos paralelos ordenados aleatoriamente, de preferência de número infinito. Com frequência, tal conjunto é denominado de multiverso. Se todos esses universos realmente existirem e forem ordenados aleatoriamente, nas suas constantes e quantidades, mundos propícios à vida aparecerão no conjunto, somente pelo acaso. Uma vez que apenas universos com ajuste fino têm observadores, quaisquer observadores existentes no conjunto de mundos naturalmente olharão e observarão que os seus mundos têm ajuste fino. Assim, a afirmação é que nenhum apelo se faz necessário para explicar o ajuste fino.

Portanto, diz-se que a conjunção do princípio antrópico com a hipótese do multiverso elimina a surpresa que temos na observação de um universo com ajuste fino e qualquer necessidade de explicação, além do mero acaso. Dado que há um número infinito de universos paralelos, sendo eles ordenados aleatoriamente nas suas constantes e quantidades, mundos propícios à vida existirão no conjunto, e apenas tais mundos terão em si observadores. Assim, obviamente, os observadores vêm o seu mundo com ajuste fino.

Antes de comentar sobre a hipótese do conjunto de mundos, só tenhamos certeza de que todos o entendemos: como ele é uma tentativa de resgatar a alternativa do acaso e como ele explica o ajuste fino do universo que observamos.

Acho que vale pausar por um momento aqui para refletir sobre o que está acontecendo. O debate atual sobre o ajuste fino do universo tornou-se um debate sobre a hipótese do multiverso. Não estou exagerando. Esta hipótese está no cerne da discussão atual. A fim de explicar o ajuste fino, pedem-nos para crer não só que há outros universos inobserváveis, mas que há um número infinito desses universos e, ademais, que eles variam aleatoriamente nas suas constantes e quantidades.[4] Tudo isto é preciso para garantir que universos propícios à vida, como o nosso, aparecerão por acaso no conjunto. É algo realmente extraordinário, quando se pensa na questão. É como um elogio desleal, por assim dizer, à hipótese do projeto. Isto porque cientistas que, de outro modo, seriam sóbrios, não correriam para adotar uma visão tão especulativa e extravagante quanto a hipótese do multiverso, a menos que se sentissem absolutamente forçados a fazê-lo. O fato de que tantos teóricos estão voltando-se para a hipótese do multiverso a fim de resgatar a alternativa do acaso é, talvez, a melhor prova de que o apelo ao acaso está em apuros. A chance contra a existência de um universo propício à vida é grande demais para ser encarada, a menos que se aceite a hipótese de um conjunto de mundos.

De fato, quando estava dando o seminário sobre ajuste fino no verão passado, na Universidade de São Tomás, um dos outros professores no seminário era Neil Manson, professor de filosofia. Ele havia feito extraordinária sondagem sociológica de cosmólogos contemporâneos sobre questões como o ajuste fino. O que Manson perguntou aos cosmólogos foi: “Você acha que outros teóricos que adotam a hipótese do multiverso o fazem a fim de evitar a hipótese do projeto?”. Ele foi muito astuto em fazer a pergunta deste modo. Ele não perguntou: “Você a adota por tal razão?”. Isto os faria confessar: “Sim, como cientista, estou realmente tentando evitar o projeto, e é por isso que creio no conjunto de mundos”. Não; ele perguntou: “Você acha que os seus colegas que creem no multiverso são motivados pelo desejo de livrar-se do projeto?”. Ele não mencionou Deus; mencionou o projeto. O que ele descobriu foi que mais de 50% dos que responderam disseram que creem que, de fato, grande parte da motivação entre cosmólogos contemporâneos para a crença no conjunto de mundos ou na hipótese do multiverso é porque querem evitar a ideia de um projetista cósmico.

Da próxima vez que alguém lhe disser: “Ah, sim, poderia ter acontecido por acaso”, ou “O improvável acontece”, ou “Foi pura sorte!”, pergunte-lhe: “Se for assim mesmo, por que é que os detratores do projeto sentem-se forçados a adotar uma extravagância, como a hipótese do conjunto de mundos, para evitar o projeto?”. Penso que o fato de que recorram a tal hipótese metafísica, como disse, é a melhor prova de que a hipótese do acaso esteja em grandes apuros.

Como é que se responde à hipótese do multiverso? Em certo nível, pode-se pensar que é uma visão metafísica que, do contrário, não estaria suscetível a provas ou arbitragem científicas. Só se tem esse embate entre o projeto divino e o multiverso ou hipótese do conjunto de mundos. Porém, de fato, acho que há alguns problemas reais com a hipótese do conjunto de mundos que o tornam menos preferível à hipótese do projeto.

Um jeito de responder à hipótese do multiverso seria mostrar que ele em si também requer o ajuste fino. A fim de ser crível cientificamente, algum mecanismo plausível tem de ser sugerido para gerar os tantos mundos no conjunto. Porém, se for para a hipótese do multiverso ter sucesso na atribuição do ajuste fino somente ao acaso, é melhor que o mecanismo a gerar os tantos mundos tenha, ele próprio, ajuste fino. Do contrário, só se empurrou o problema para o andar de cima, e todo o debate surge novamente no nível do multiverso.[5]

Porém, os mecanismos propostos para gerar um conjunto de mundos são tão vagos que está longe do óbvio que a física a reger o multiverso ficará livre de qualquer ajuste fino. Por exemplo, se a Teoria-M ou teoria das supercordas, de que falamos brevemente outro dia, é a física a gerar o conjunto de mundos, permanece sem explicação, conforme vimos, por que exatamente existem 11 dimensões. O mecanismo que realiza todas as possibilidades na chamada paisagem cósmica talvez envolva o ajuste fino. Assim, só postular um conjunto de mundos não basta para livrar-se da alternativa do projeto. Seria preciso fornecer um modelo cientificamente crível do multiverso que não envolva o próprio ajuste fino. E ninguém conseguiu fazê-lo.

Uma segunda resposta à hipótese do multiverso é que muitos teóricos são céticos de que os tantos mundos sequer existam. Por que deveríamos pensar que um conjunto de mundos de outros universos invisíveis realmente exista? Não há bem nenhuma prova de que o tipo de conjunto de mundos exigido pela hipótese do multiverso seja mesmo real. Ainda que haja outros universos, não há razão para pensar que sejam ordenados de modo aleatório ou que sejam de número infinito. Assim, conforme enfatizou George Ellis, talvez o cosmólogo mais famoso no mundo hoje, a hipótese do multiverso do modo em que se apresenta atualmente, não se constitui hipótese capaz de prova científica. Em comparação, temos boas razões independentes para crer num projetista do universo, a saber, o argumento cosmológico de Leibniz e o argumento cosmológico kalam de Algazali. A hipótese do projeto goza de razões independentes para pensar que tal ser existe, ao passo que não há nenhuma razão independente para pensar que o conjunto de mundos exista. Ele é simplesmente postulado para explicar o ajuste fino, sem qualquer prova para pensar que haja algo assim.

Ademais, em terceiro lugar, a hipótese do multiverso encara o que pode ser uma objeção verdadeiramente devastadora. Vocês se lembram que, quando falamos das propriedades termodinâmicas do universo, discutimos a hipótese do multiverso de Boltzmann? Vocês devem recordar que o físico austríaco Ludwig Boltzmann tentou explicar o desequilíbrio atual do universo por uma espécie de hipótese do multiverso. Ele disse que o universo como um todo está, de fato, em estado de equilíbrio, mas há apenas pequenos retalhos de desequilíbrio por todo o universo, sendo eles diferentes mundos. Ele os denominou “mundos”, e somos um desses pequenos retalhos. Somos um desses mundos. Vocês vão se lembrar que o que afundou a hipótese de Boltzmann foi que, se o nosso mundo é só um membro aleatório de tal conjunto de mundos, é muitíssimo mais provável que devêssemos observar uma região muito menor de ordem do que o vasto universo que, de fato, observamos. Para existirmos, todo o necessário seria uma pequena flutuação do equilíbrio, por exemplo, em nível suficiente para produzir o nosso sistema solar, e não um universo inteiro que existe em al estado. Acontece que um problema paralelo enfrenta a hipótese do multiverso como explicação do ajuste fino cósmico.

Roger Penrose, físico da Universidade de Oxford, fez forte pressão com esta objeção. Ele aponta que a chance de que a condição de entropia baixa inicial do nosso universo exista somente pelo acaso está na ordem de algo como uma chance em 1010(123), um número verdadeiramente incompreensível.[6] Em comparação, a chance de que o nosso sistema solar se formasse apenas pela colisão aleatória de partículas, Penrose a calcula como se fosse uma chance em 1010(60), um número tão minúsculo em comparação com o número 1010(123), que Penrose denomina este número de “titica de galinha” — em contraste com 1010(123). O que isto implica é que é muito mais provável, incompreensivelmente mais provável, que deveríamos observar um universo ordeiro que não fosse maior do que o nosso sistema solar, uma vez que um mundo assim seria insondavelmente mais provável que um universo com ajuste fino, como o nosso.

De fato, acabamos com o mesmo tipo de ilusionismo que acompanhava a hipótese de Boltzmann. Um mundo pequeno com a ilusão de um universo mais amplo é mais provável do que um universo real com ajuste fino. Seria mais provável que realmente habitássemos um universo minúsculo, e que as estrelas e os planetas que observamos fossem só ilusões — imagens, por assim dizer — nos céus, e não corpos estrelares extranebulares reais a existirem lá longe no universo. Levado ao seu extremo lógico, isto conduziu ao que foi chamado entre os físicos de “a invasão dos cérebros de Boltzmann” — evocatória de um filme de terror de segunda categoria da década de 1950. Isto porque o universo mais provável que poderia existir consistiria em um único cérebro a flutuar para dentro da existência, a partir do vácuo quântico, por um processo quântico aleatório, com percepções ilusórias de um mundo externo ao seu redor! Assim, caso se aceite a hipótese do multiverso, seria obrigatório crer que você é a única coisa que existe e que esta sala, as pessoas ao seu redor, a sua família, o seu próprio corpo, todas estas coisas são, simplesmente, ilusões que você projeta. De fato, você é mesmo um cérebro de Boltzmann.

Nenhuma pessoa sã crê ser um cérebro de Boltzmann. Segundo o ateísmo, portanto, é muitíssimo improvável que exista um conjunto de mundos ordenado aleatoriamente. De fato, eis a ironia: a melhor esperança para o multiverso ou a hipótese do conjunto de mundos é o teísmo. A melhor esperança é dizer que Deus criou o conjunto de mundos, e ele ordenou os tais mundos, de modo que não são ordenados de forma aleatória. Deus poderia dar preferência a mundos observáveis com ajusto fino cósmico. Para ser racionalmente aceitável, a hipótese do multiverso realmente precisa de Deus, porque, se não há Deus, segundo somente o naturalismo, seria muitíssimo improvável que estivéssemos a observar este universo com ajuste fino. Seria ainda mais provável acreditar que você é um cérebro de Boltzmann.

 

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Acho que outra objeção física seria: se temos um universo em expansão e temos radiação de fundo cósmica em determinada temperatura advinda de todas as direções, haveria interferência com outros universos, especialmente se estivessem em expansão e fazendo coisas parecidas.

Dr. Craig: No caso, se eu puder interromper por questão de tempo, a ideia é que o nosso universo é como uma bolha num universo-mãe mais amplo que também está em expansão. Assim, as bolhas não se chocam umas com as outras, porque o universo-mãe está crescendo com tanta rapidez que as bolhas não entram em colisão uma com a outra.[7] Elas se separam. Não conseguem manter o ritmo. Mais uma vez, vê-se um pouco como a hipótese precisa ser refinada para evitar estes problemas.

Aluno: Só estava pensando: quando postulam o multiverso, falam de uma quantidade infinita de universos. Como é que sabem que a quantidade é infinita? Pondo de lado as questões que eu sei que o senhor tem com infinidades reais, como é que eles sabem? E se existirem só 100 universos? Ou talvez só 50 ou só 10 universos?

Dr. Craig: Ou mesmo um trilhão. Não bastará, dados os números com os quais estamos lidando. Acho que você tem toda a razão. É uma questão bastante contundente se o mecanismo que gera o universo e que faz estas bolhas tem se arrastado por uma quantidade infinita de tempo. Já vimos que as melhores provas da cosmologia contemporânea são que o universo começou a existir mais ou menos 13,7 bilhões de anos atrás. Assim, como é que sabemos, como você disse, que houve tempo suficiente para que tal conjunto de mundos fosse criado? É completamente ad hoc, ou seja, forçado.

DISCUSSÃO TERMINA

 

Com o fracasso da hipótese do multiverso, a última camada de defesa da alternativa do acaso desmorona. Parece que nem a necessidade física nem o acaso oferecem boa explicação para o ajuste fino do universo.

O que dizer, então, do projeto? Será que o projeto é explicação melhor do ajuste fino do universo? Ou será que é igualmente implausível? Esta será a questão que abordaremos semana que vem.[8]

 

 

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[6] 30:17

[7] 35:03

[8] Duração total: 37:27 (Copyright © 2016 William Lane Craig)