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Fundamentos da doutrina cristã (Parte 2): Por que estudar a apologética cristã

March 01, 2023

O que é apologética e por que estudá-la?

Nosso curso Defensores, que acabamos de começar em sua série 3, é um panorama de doutrina e apologética cristã. Domingo passado, vimos por que o estudo da doutrina é importante. Hoje, gostaria de dizer algo a respeito de por que o estudo de apologética também é importante para o cristão maduro.

O que é apologética? Todos sabemos que apologética não é aprender a ficar pedindo desculpas por ser cristão. Pelo contrário, apologética é aprender como fazer a outra pessoa se sentir mal por você ser cristão! [risos] Não, não é nada disso! Apologética é o ramo da teologia cristã que busca proporcionar justificação racional para as afirmações de verdade cristãs.

Essa definição é importante porque o que ela implica é que a apologética é essencialmente uma disciplina teórica. Sem dúvida, tem aplicação prática — por exemplo, no evangelismo. A apologética, porém, não é idêntica ao evangelismo. Não é a arte de compartilhar a fé. Não é um treinamento do tipo: “Se alguém disser isso, você responde aquilo”. Não se trata de fornecer táticas para compartilhar sua fé de modo eficaz com um descrente. Repetindo: apologética é o ramo da teologia cristã que busca responder à pergunta: “Qual é a justificação racional das afirmações de verdade cristãs?”. Embora ela tenha aplicação prática no evangelismo, na educação cristã e na sua vida devocional, não é idêntica a essas aplicações práticas, mas se trata de uma disciplina teórica que precisa ser estudada por conta própria.

Creio que a apologética executa um papel vital na concretização de ao menos três fins que são essenciais para a sobrevivência do cristianismo na cultura ocidental.

1. Moldar a cultura. A apologética serve para moldar a cultura. Apologética é vital e, na realidade, pode ser bastante necessária, a fim de que o evangelho cristão seja ouvido como opção legítima na sociedade ocidental atual. Em geral, a sociedade ocidental se tornou profundamente pós-cristã. É o produto do iluminismo, um movimento na Europa no século 18 que dominou a sociedade europeia. A característica central do iluminismo é o chamado livre pensamento, ou seja, a busca de conhecimento somente por meio da razão humana. Ele livrou-se da monarquia, livrou-se da revelação divina e também da igreja, em nome da razão humana. Embora não seja de modo algum inevitável que essa busca leve a conclusões não-cristãs e embora a maioria dos pensadores iluministas como Voltaire e Rousseau fossem, na realidade, teístas que criam em Deus, o impacto esmagador do iluminismo na cultura ocidental foi que os intelectuais ocidentais não consideram possível o conhecimento teológico. Teologia para eles não é uma fonte genuína de conhecimento. Portanto, teologia não é ciência, ou seja, em latim “scientia”, uma fonte de conhecimento. Razão e religião são vistas como se estivessem em conflito. É somente a deliberação das ciências físicas que é vista como guia autorizado para compreendermos o mundo. O firme pressuposto de pensadores seculares atuais é que o retrato do mundo que surgirá dessa busca será completamente naturalista.[i] Acreditam que a pessoa que seguir apenas os ditames da razão humana inflexivelmente até às suas conclusões lógicas será ateísta ou, no máximo, agnóstica.

Por que essas considerações culturais são importantes? Por que não apenas pregar o evangelho num mundo sombrio e moribundo? Por que precisamos nos preocupar com a cultura da sociedade ocidental? A resposta é simples: o evangelho nunca é ouvido isolado da cultura. Ele sempre é ouvido dentro do contexto ou ambiente cultural em que a pessoa vive. Alguém criado num ambiente cultural em que o cristianismo ainda é visto como opção intelectualmente viável exibirá uma abertura ao evangelho que alguém criado numa cultura totalmente secularizada não exibirá. Para a pessoa que foi completamente secularizada, pedir que ela creia em fadas ou em duendes é o mesmo que pedir para crer em Jesus. Soará absurdo para ela.

Dando uma ilustração mais realista da influência da cultura no nosso pensamento, apenas imagine como você se sentiria se num aeroporto ou rua um devoto do movimento Hare Krishna viesse e o convidasse a crer em Krishna. Um convite desses provavelmente lhe soaria bizarro, excêntrico, talvez até engraçado. No entanto, para alguém nas ruas de Bombaim, na Índia, um convite desses pode ser motivo sério para refletir. Meu receio é que os cristãos evangélicos pareçam tão estranhos para as pessoas nas ruas de Bonn, Estocolmo e Paris quanto os devotos do movimento Hare Krishna.

O que nos aguarda aqui na América do Norte, caso nossa derrapagem na direção do secularismo continue, já é evidente na Europa. Jan e eu passamos cerca de treze anos vivendo em quatro diferentes países europeus e, por isso, podemos testemunhar pessoalmente como o campo ali é árido. Embora a maioria dos europeus mantenha atualmente algum tipo de filiação nominal com o cristianismo, somente cerca de 10% são cristãos praticantes e menos de metade deles são evangélicos, teologicamente falando. A tendência mais significativa na filiação religiosa europeia é o crescimento de quem é classificado como arreligioso. Este grupo passou de efetivamente 0% da população em 1900 para mais de 22% na Europa hoje em dia. Por isso, o evangelismo é incomensuravelmente mais difícil na Europa do que nos Estados Unidos. Eu mesmo já palestrei em universidades europeias em diversos países pelo continente e posso testemunhar como os estudantes são resistentes. É difícil que o evangelho sequer seja ouvido. Por exemplo, lembro nitidamente que, quando falei na Universidade do Porto, em Portugal, os estudantes eram tão céticos que, mesmo tendo dois doutorados europeus, por eu ser cristão pensaram que, na verdade, eu era um impostor. Pensaram que eu fosse uma fraude. Telefonaram a Universidade de Lovaina, na Bélgica, para verificar se, realmente, eu era pesquisador visitante lá. Isso mostra como o ceticismo é profundo.

Acho que os Estados Unidos estão um pouco mais atrás nessa mesma direção, enquanto o Canadá fica em algum lugar no meio do caminho. A derrapagem do Canadá no secularismo foi acentuada. Em 1900, evangélicos representavam cerca de 25% da população canadense. Já em 1989, a percentagem de evangélicos canadenses tinha desabado para menos de 8%. Minha experiência ao palestrar em universidades por todo o Canadá me sugere que o Canadá tem um tipo de cultura meso-atlântica, em algum ponto entre a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.[ii] O pluralismo e o relativismo são a sabedoria convencional nas universidades canadenses atuais. O politicamente correto e leis reguladoras da expressão sufocam o debate em questões de relevância ética como o aborto ou a eutanásia. Podem servir de armas para oprimir instituições e ideias cristãs. Acho que o exemplo do Canadá mostra como é de importância vital preservar um ambiente cultural em que o cristianismo possa ser ouvido como opção intelectualmente viável.

Felizmente, na última década, os evangélicos canadenses começaram paulatinamente a reverter essa tendência. Porém, a subida de volta será muito, mas muito mais difícil do que a descida, porque encontrará a resistência de uma cultura que passou a se opor à cosmovisão cristã.

Por essa razão, acho que os cristãos que depreciam o valor da apologética porque “ninguém vem a Cristo por meio de argumentos” são tão míopes. O valor da apologética se estende muito além de seu contato evangelístico individual. É a tarefa mais ampla da apologética cristã ajudar a moldar e preservar um ambiente cultural em que o evangelho seja uma opção intelectualmente viável para homens e mulheres pensantes.

Em 1913, em seu artigo “Cristianismo e cultura”, J. Gresham Machen, o grande teólogo de Princeton, declarou com razão:

Ideias falsas são os maiores obstáculos à recepção do evangelho. Podemos pregar com todo o fervor de um reformador e, todavia, conseguir somente ganhar um gato pingado aqui e ali, se permitirmos que todo o pensamento coletivo da nação... seja controlado por ideias que... impedem que o cristianismo seja considerado algo mais do que uma ilusão inofensiva.[iii]

Infelizmente, a advertência de Machen passou despercebida, e o cristianismo bíblico nos Estados Unidos se escondeu nos armários do isolamento cultural. Foi só nas últimas décadas que começamos a sair desses armários intelectuais.

Creio que hoje enormes portas de oportunidade estão escancaradas diante de nós. Vivemos numa época na história em que a filosofia cristã passa por uma verdadeira renascença, revitalizando argumentos para a existência de Deus na teologia natural. Vivemos numa época em que a ciência contemporânea está aberta à existência de um criador e arquiteto do universo, mais do que em qualquer período recente. E vivemos numa época em que biblistas entraram numa busca do Jesus histórico que trata os evangelhos com seriedade como fontes históricas valiosas para a vida e ensinamentos de Jesus e que confirmou os contornos gerais do retrato de Jesus pintado nos evangelhos. Portanto, estamos vivendo, irmãos e irmãs, num momento incrivelmente empolgante na história, se nosso interesse é fazer apologética cristã. Estamos bem posicionados intelectualmente para ajudar a reformar nossa cultura de tal maneira que reivindiquemos o espaço perdido e, assim, o evangelho seja ouvido como opção intelectualmente viável para pessoas pensantes nos dias de hoje.

Posso imaginar que alguém esteja pensando: “Mas espere aí, Bill. Não vivemos numa cultura pós-moderna em que esses apelos a argumentos apologéticos tradicionais não têm mais efeito? Uma vez que os pós-modernos rejeitam os cânones tradicionais da lógica, da racionalidade e da verdade, argumentos racionais a favor do cristianismo não funcionam mais. Pelo contrário, na cultura pós-moderna atual, deveríamos simplesmente compartilhar nossa narrativa e convidar as pessoas a participar dela”.

Na minha opinião, esse tipo de pensamento é o mais equivocado possível. Na realidade, acho que se trata de um diagnóstico desastrosamente errado sobre a cultura americana.[iv] A ideia de que vivemos numa cultura pós-moderna é um mito propagado em nossas igrejas por pastores de jovens que estão equivocados. Na realidade, a ideia de uma cultura pós-moderna se trata de uma impossibilidade. Seria completamente invivível. Ninguém é pós-moderno quando lê os rótulos de um pote de aspirina e de uma caixa de veneno de rato. Se você tem uma dor de cabeça, é melhor acreditar que esses textos têm significado objetivo! Não é algo que está apenas na sua cabeça. Ao falar com as pessoas, você perceberá que não são relativistas quanto a ciência, tecnologia e medicina. Antes, são relativistas e pluralistas quando o assunto é religião e ética. Mas isso não é pós-modernismo, é modernismo! É justamente o verificacionismo e o positivismo clássicos que afirmam que, se você não consegue verificar algo por meio dos cinco sentidos, é apenas uma questão de opinião pessoal e expressão emocional. Vivemos num ambiente cultural que continua em seu âmago profundamente modernista.

Na verdade, acho que o pós-modernismo é um dos enganos mais astutos que Satanás já inventou. “O modernismo está morto!”, ele nos diz. “Não é preciso mais temê-lo. Esqueça. Ele já está morto e sepultado.” Enquanto isso, o modernismo, fingindo-se de morto, reaparece no atraente novo disfarce do pós-modernismo. E nos dizem: “Seus velhos argumentos e provas apologéticos não têm mais efeito contra esse novo adversário! Coloque-os de lado. Simplesmente compartilhe sua narrativa!” Assim, somos induzidos a voluntariamente deixar de lado nossas melhores armas de argumento, prova e lógica e, na realidade, aceitamos o triunfo do modernismo sobre nós. Se adotarmos essa atitude suicida, as consequências para a igreja na próxima geração serão catastróficas. O cristianismo será reduzido a apenas uma voz numa cacofonia de vozes conflitantes, com cada uma delas compartilhando sua narrativa e nenhuma delas se projetando como a verdade objetiva sobre a realidade, enquanto o naturalismo científico continua a moldar a visão popular do modo como a realidade realmente é.

Obviamente, não preciso nem dizer que, ao fazer apologética, devemos ser relacionais, humildes e convidativos. E isso não é nem de longe uma ideia original do pós-modernismo. Desde o começo, os apologistas cristãos sabem que devemos apresentar as razões para a nossa esperança com mansidão e respeito. 1 Pedro 3.15. Não precisamos abandonar os cânones da lógica, racionalidade e verdade para exemplificar essas virtudes bíblicas.

Quanto à ideia de que as pessoas na nossa cultura não estejam mais interessadas em argumentos e provas racionais a favor do cristianismo, nada está mais longe da verdade. Na minha experiência de mais de trinta anos palestrando em universidades nos Estados Unidos, Europa e ao redor do mundo, sempre encerro minhas palestras com um longo período de perguntas do público. Em todos esses anos, quase ninguém se levantou e disse: “Seus argumentos se baseiam em padrões ocidentais de lógica e racionalidade que são puramente subjetivos e, portanto, não precisamos prestar atenção neles”. Simplesmente, jamais expressam esse tipo de sentimento pós-moderno. Acho que, se abordarmos a questão racionalmente, as pessoas reagirão racionalmente. Se apresentarmos provas científicas e históricas a favor das afirmações de verdade cristãs, os estudantes descrentes discutirão as premissas de seu argumento ou debaterão sobre os fatos, e é exatamente assim que as discussões devem ser. Eles não atacam a objetividade da própria ciência ou história. Eles não questionam a validade do raciocínio lógico.[v]

Acho, sim, que estudantes podem ser muito céticos com um palestrante cristão e, portanto, querem ouvir os dois lados do argumento apresentado. Por isso, considero que debater é uma forma especialmente eficaz de evangelismo em universidades. Dá aos estudantes a chance de ouvir proponentes das duas visões em par de igualdade e, então, de decidir por conta própria. A abordagem nesses debates é sempre expor argumentos e provas racionais para a cosmovisão cristã. Centenas, até milhares de estudantes virão ver esses debates, e centenas de milhares de estudantes os verão depois no YouTube por muitos e muitos anos. Por isso, não seja iludido a pensar que ninguém está interessado nos argumentos e provas racionais a favor do cristianismo. Pelo contrário, existe muito interesse em ouvir uma discussão equilibrada dos argumentos a favor e contra a fé cristã. É de importância vital que preservemos uma cultura neste país em que o cristianismo ainda possa ser ouvido como opção intelectualmente viável para pessoas pensantes. Talvez elas não venham a Cristo por meio de argumentos, mas os argumentos acabam por moldar um ambiente cultural em que é razoável responder ao evangelho quando seus corações forem tocados. Os argumentos e provas lhes dão, por assim dizer, a permissão de seguir seus corações quando o Espírito Santo os tocar com o evangelho.

Em primeiro lugar, e mais importante do que tudo: moldar a cultura.

2. Fortalecer os crentes. O segundo propósito servido pela apologética é fortalecer os cristãos. A apologética não é apenas vital para moldar nossa cultura, mas também vital nas vidas dos cristãos individualmente.

Em 1982, quando eu estava me preparando para minhas provas do doutorado em teologia na Universidade de Munique, Jan e eu passamos um verão morando em Berlim. Já estava me preparando para essas provas havia mais de um ano. Eu tinha uma pilha de anotações de uns trinta centímetros que eu revisava e memorizava todos os dias antes da prova. Enquanto estávamos em Berlim, tivemos o privilégio de ser visitados por Ann Kiemel e seu marido, Will, com quem ela tinha casado recentemente, que estavam de passagem em Berlim. Ann Kiemel era, naquela época, uma das palestrantes cristãs mais populares nos Estados Unidos. Ela era muito peculiar. Ela encontrava estranhos e cantava para eles músicas improvisadas para encorajá-los ou levá-los a Cristo. Ela nunca compartilhava sua fé. Era extremamente sentimental e emotiva. Ela contava histórias, algumas fictícias e outras verdadeiras, que levavam às lágrimas um público feminino inteiro em poucos minutos.

Pois bem, estávamos sentados à mesa um dia em Berlim, e pensei que poderia aprender algumas lições da experiência dela. Eu lhe disse: “Ann, como você prepara suas mensagens?”

Ela disse: “Ah, eu não preparo”.

Fiquei de queixo caído. Respondi: “Você não prepara?!”

E ela disse: “Não”.

Fiquei embasbacado e disse: “O que você faz, então?”

Ela disse: “Ah, eu só compartilho minhas lutas”.

Não dava para acreditar. Lá estava eu me matando em anos de preparação ministerial, e ela não se prepara! Não há como negar que o ministério dela tenha efeito. Ela levou milhares de pessoas a Cristo. Na realidade, ela contava histórias de como até acadêmicos durões vinham a Cristo com suas musiquinhas e historinhas improvisadas. Pensei comigo: “Por que estou fazendo o que estou fazendo? Por que estou me matando e tendo todo esse trabalho? Não é uma enorme perda de tempo? Por que estou fazendo isso quando tudo o que preciso fazer é apenas compartilhar minhas lutas?”

Voltamos aos Estados Unidos no outono para um período de licença na Universidade de Arizona, em Tucson, onde um antigo colega meu morava. Um dia lhe contei sobre minha conversa com Ann. Eu lhe disse que tinha sido um balde de água fria.[vi] Ele me disse algo que foi muito tranquilizador: “Bill, um dia aquelas pessoas que Ann Kiemel levou ao Senhor precisarão do que você tem a oferecer”. Acho que ele estava certo. As emoções têm limite, e você precisará de algo mais substancial. A apologética ajuda a fornecer parte dessa substância.

Quando falo em igrejas por todo o país, constantemente encontro pais cristãos depois do culto que vêm até mim e dizem algo assim: “Se você tivesse vindo aqui dois ou três anos atrás! Nosso filho (ou filha) tinha perguntas que ninguém na igreja podia responder. E agora ele está afastado do Senhor”. Fico com o coração partido ao encontrar pais nessa situação, porque ela é tão desnecessária. Existem bons argumentos e provas para a verdade da fé cristã. É só uma questão de se familiarizarem com eles. Infelizmente, os pais costumam não ser instruídos na defesa da fé e, por isso, seus filhos também são criados sem saber essas coisas. No colegial e faculdade, os adolescentes cristãos são atacados intelectualmente com todo tipo de filosofia não-cristã, aliada a um relativismo esmagador. Se os pais não se envolverem intelectualmente com sua fé e não tiverem argumentos sólidos para o teísmo cristão e boas respostas às perguntas de seus filhos, acho que corremos um risco real de perder nossa juventude. Não é mais suficiente ensinar aos seus filhos histórias bíblicas. Eles precisam de doutrina e apologética. Acho que quem quiser ter filhos e for criá-los na cultura ocidental precisará pelo menos de um pouco de instrução em apologética cristã.

Infelizmente, acho que a igreja como um todo deixou a peteca cair nessa área. Em ministérios de jovens, frequentemente nos concentramos em entretenimento e necessidades aparentes, mas não instruímos nossas crianças para os desafios intelectuais que elas enfrentarão. Acho que nós, por amor de nossa juventude, temos de nos educar e nos instruir na defesa da fé.

A apologética cristã faz muito mais para o crente individualmente do que apenas guardá-lo de se desviar. Os positivos efeitos edificantes da apologética são ainda mais evidentes. Mais uma vez, vejo isso o tempo todo em universidades onde debato. John Stackhouse é um teólogo canadense, e ele certa vez comentou comigo que esses debates são, na realidade, versões ocidentalizadas do que missionários chamam de “confronto de poder”, quando o Deus do cristianismo proclamado pelo missionário tem uma espécie de confronto de poder em que ele triunfa sobre os deuses locais do grupo étnico ao qual eles estão trazendo o evangelho. Achei essa análise muito perspicaz. Quando o cristianismo é defendido nesses confrontos, os estudantes cristãos saem dos debates com uma confiança renovada na verdade da fé cristã. Saem de cabeça erguida. Têm orgulho de ser cristãos. Ficam ansiosos para compartilhar sua fé. Eu me lembro de um estudante canadense que me disse após um debate: “Mal posso esperar para compartilhar minha fé em Cristo!”. Acho que muitos cristãos têm medo de compartilhar sua fé porque têm medo de que o descrente lhes faça uma pergunta ou objeção que não saibam responder. Mas, se você tiver boas respostas às objeções do descrente e souber como responder a suas perguntas, não precisará ter medo. Penso que instrução em apologética é uma das chaves para o evangelismo destemido.

Portanto, dessa e de muitas outras formas, a apologética pode ajudar a edificar o corpo de Cristo ao fortalecer os cristãos individualmente.

3. Evangelizar os descrentes. Penso que a apologética seja útil não apenas para fortalecer os cristãos, mas também para evangelizar os descrentes. Muitos lhe dirão: “Ninguém vem a Cristo com argumentos!” Não sei quantas vezes ouvi isso. Meu colega J. P. Moreland começou a responder a essas pessoas dizendo que não é verdade. Comecei a fazer o mesmo.[vii] Posso dizer pessoalmente que, se você acessar a seção de depoimentos no site do Reasonable Faith,[viii] poderá ler testemunhos que recebemos de pessoas que vieram a Cristo ao assistir a um vídeo ou ler um livro. São histórias emocionantes e maravilhosas de pessoas que tinham se desviado da fé cristã e se afastado dela por anos ou de pessoas que nunca tinham sido cristãs e vieram a Cristo por terem ouvido argumentos e provas favoráveis à fé cristã.

Lee Strobel recentemente comentou comigo que ele perdeu a conta do número de pessoas que vieram a Cristo por meio de seus livros Em defesa de Cristo e Em defesa da fé. Esta é nossa experiência ministerial também. Existe um grupo de pessoas que responderá a argumentos e provas quando forem apresentados em espírito de oração, aliados ao testemunho pessoal e à ação do Espírito Santo.

Não significa que a apologética seja necessária para o evangelismo ou será eficaz com todo mundo. Acho que existe, porém, uma minoria de pessoas com as quais esse tipo de abordagem será valiosa. Assim como um missionário talvez se sinta chamado para alcançar algum povo desconhecido que não é muito grande, também penso que devemos levar o fardo de alcançar aquela minoria de pessoas que responderá a argumentos e provas apologéticos. Paulo disse sobre seu ministério: “Tornei-me tudo para com todos, para de todos os meios vir a salvar alguns” (1 Coríntios 9.22).

Além disso, e nesse caso acho que as pessoas que respondem à apologética diferem significativamente do povo desconhecido, quem responde a argumentos e provas apologéticas costuma ter influência incrível na cultura. Percebo que quem mais se identifica com nosso ministério são engenheiros, advogados e médicos. Muitos de vocês se enquadram nessa descrição. São algumas das pessoas mais influentes na sociedade americana. Uma pessoa desse tipo, por exemplo, foi C. S. Lewis. Pense no impacto incrível que a conversão desse homem tem há décadas, desde que ele morreu. Assim, penso que alcançar essa minoria de pessoas trará benefícios tremendos para o reino de Deus.

Por isso, acho que a instrução em apologética é parte vital do discipulado cristão. Executa um papel vital e talvez até necessário de moldar a cultura, além de fortalecer os crentes e evangelizar os descrentes. Por todas estas razões, não preciso nem defender meu entusiasmo pela apologética!

Aqui chegamos ao fim de nossa aula de hoje. No próximo encontro, entraremos no estudo da primeira área da doutrina cristã, que é a doutrina da revelação.[ix]

 

[i] 5:08

[ii] 9:59

[iii] J. Gresham Machen, “Christianity and Culture”, Princeton Theological Review 11 (1913): p. 7.

[iv] 15:02

[v] 20:04

[vi] 25:01

[vii] 29:58

[viii] Ver http://www.reasonablefaith.org/testimonials (acesso em 29 de outubro de 2014).

[ix] Duração total: 33:50 (Copyright © 2014 William Lane Craig)