#44 O dilema de Êutifron
July 12, 2012Obrigado por tudo que o senhor faz a serviço do Senhor e da Igreja de Deus. É de valor imenso para nós, por isso tenho certeza em afirmar que seu trabalho também é de grande valor para Deus.
Se possível, gostaria de que o senhor tirasse algum tempo para me ajudar com alguns problemas que estou tendo ao lidar com o dilema de Êutifron. Como o senhor sabe, o dilema de Êutifron pergunta algo nos seguintes termos:
O bem é bom porque Deus o aprova, ou Deus o aprova porque o bem é bom?
Ora, o teísta não pretende afirmar que o Bem é bom só pelo fato de Deus aprová-lo, já que isso torna a moralidade arbitrária (vamos chamar essa parte do dilema de Chifre A). O teísta também não quer dizer que Deus aprova o Bem pelo fato de o Bem ser, de fato, bom, o que parece implicar que existem padrões de bondade alheios a Deus (chamemos isso de Chifre B).
O teísta, portanto, procura dividir os chifres do dilema com a afirmação de que Deus é necessariamente bom, e que a fonte e padrão do Bem é a própria natureza de Deus. Por um lado, tal afirmação evita o Chifre B, uma vez que a bondade, em vez de existir à parte de Deus, integra a própria natureza divina (e, na verdade, depende dele para existir). E, por outro lado, ela evita o Chifre A, uma vez que a vontade de Deus não é arbitrária, mas opera em conformidade com um padrão moral definido (ou seja, a natureza necessariamente boa de Deus).
Entretanto, parece-me que o ateu agora pode reformular a pergunta do dilema:
A natureza de Deus é boa em razão de Deus ser o que é, ou é boa porque atende a algum padrão externo de bondade?
Parece-me que a resposta ao dilema reformulado deve envolver algo como a reivindicação de que a natureza de Deus não poderia ser senão boa — i.e., que a natureza de Deus não é “o que é” meramente por acaso. Mas não tenho certeza de o quê tal solução quer dizer, já que, a menos que tenhamos um conceito de um Bem fora de Deus, isso não parece ser grande coisa, no sentido de que não parece opor nenhuma restrição à natureza de Deus. Suspeito que o conceito de mundos possíveis pode ser de alguma utilidade nesse caso. Mas não estou certo de como ou por quê. A minha sugestão em prol de um argumento seria algo assim:
(1) Deus é, por definição, um ser maximamente grande.
(2) Isso implica que ele é metafisicamente necessário e moralmente perfeito.
(3) Logo, com base em (2), Deus existe em todos os mundos possíveis.
(4) Mas, se os valores morais forem objetivos, a perfeição moral representa (ou ao menos tende a) um conjunto singular máximo de valores morais.
(5) Portanto, com base em (1), (3) & (4), conclui-se que Deus tem o mesmo caráter moral em todos os mundos possíveis.
(6) Assim, a natureza de Deus não é boa por causa da maneira como ele é, nem por causa da sua adequação com referência a algum padrão externo de bondade.
— o que responde ao dilema reformulado.
Essa argumentação parece-me certa, mas não estou convencido a respeito de (4). Preocupo-me também porque, depois de pensar sobre isso intensamente, posso ter começado a dizer besteira nesse ponto. Na minha cabeça, parece que tenho andado em círculos. Se puder esclarecer melhor os argumentos e simplificá-los para mim, ficaria extremamente grato ao senhor.
James
United States
Dr. Craig responde
A
Acho que suas intuições acertam o alvo em cheio, James! O argumento apresentado por você precisa só de alguns ajustes.
Quando o ateu indaga: “A natureza de Deus é boa em razão de Deus ser o que é, ou é boa porque atende a algum padrão externo de bondade?”, o segundo chifre do dilema não apresenta nada de novo — é o mesmo que o segundo chifre no dilema original, ou seja, que Deus aprova algo porque esse algo é bom, e nós sempre rejeitamos isso. Portanto, a questão é se estamos ou não empancados no primeiro chifre do dilema. Bem, se com “ser o que é” o ateu quer dizer que o caráter moral de Deus é uma propriedade contingente de Deus, isto é, uma propriedade que poderia faltar a ele, então a resposta óbvia é “Não”. O caráter moral de Deus é essencial para ele; é por isso que dissemos que era parte da sua natureza. Afirmar que certa propriedade é essencial a Deus é o mesmo que dizer que não existe nenhum mundo possível no qual Deus poderia existir e lhe faltar essa propriedade. Não é por mero acaso que Deus é amoroso, bondoso, justo e assim por diante. Ele é assim essencialmente.
Você não precisa se preocupar sobre “o que tal solução quer dizer, visto que, a menos que tenhamos um conceito do Bem fora de Deus, isso não parece ser grande coisa”. Afinal, isso seria o mesmo que confundir ontologia moral com semântica moral. Nosso interesse é a ontologia moral, ou seja, o fundamento dos valores morais na realidade. Nossa preocupação não é com a semântica moral, quer dizer, com o significado de termos morais. O teísta quase sempre está pronto para dizer que temos um entendimento claro do vocabulário moral, termos como “bem”, “mal”, “certo” e assim por diante, sem referência a Deus. Assim, é informativo saber que “Deus é essencialmente bom”. Muitíssimas vezes os oponentes do argumento moral atacam-no de forma errônea confundindo ontologia moral com semântica moral ou, com mais frequência ainda, confundem-no com epistemologia moral (como tomamos conhecimento do Bem).
Caso fosse questionada a razão por que Deus é o paradigma e o padrão para a bondade moral, então, acho que a premissa (1) do seu argumento apresenta a resposta: Deus é o maior de todos os seres concebíveis e o maior para ser o paradigma de bondade do que se conformar a ela. A sua premissa (2) também é verdadeira, ela é a razão por que Deus pode servir como o fundamento das verdades morais necessárias, i.e., verdades morais válidas em todo mundo possível. Não tenho certeza do que você quer dizer com a premissa (4); mas acho que seja dispensável. Tudo que você precisa dizer, é que os valores morais (ou pelo menos muitos deles) não são contingentes, mas válidos em cada mundo possível. Assim, Deus será o fundamento para esses valores em cada mundo possível. Isso me parece definir a questão. Portanto, longe de falar tolices, entendo que você nos colocou no rumo da resposta certa!
- William Lane Craig