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#45 Sobre o argumento do túmulo vazio

July 12, 2012
Q

Minha pergunta foi retirada de um Website que refuta suas declarações. Fora do Novo Testamento, há alguma evidência dada antes dos 50 dias depois do Pentecostes? Considerando que, nos dias de Jesus, as pessoas não dispunham dos equipamentos médicos que hoje dispomos, a declaração a seguir se sustentaria? Por exemplo, o autor declara:

Primeiro, valendo-se da ideia de uma sepultura conhecida que deveria estar ocupada, mas não estava, Craig saca o velho argumento de que, se fosse possível comprovar que a sepultura não estava vazia, as autoridades teriam silenciado a pregação dos apóstolos com o simples expediente de apresentar o corpo: “Olha aqui o salvador ressurreto de vocês! Vejam-no!”. Mas isso é absurdo. A única estimativa que o Novo Testamento dá de quanto tempo após a morte de Jesus os discípulos apareceram pregando publicamente foram cinquenta dias exatos, no Pentecostes! Depois de sete semanas, digo que teria sido controvertido apresentar os restos mortais de Jesus. Acaso Craig imagina o sinédrio usando técnicas da perícia forense moderna? Na verdade, pode-se até mesmo entender que o intervalo de sete semanas signifique que os discípulos foram bastante astutos para esperar até que se tornasse impossível desmentir a história.

Perdoe-me a extensão do texto.

Kristina

United States

Dr. Craig responde


A

Segundo entendo, essa é uma resposta bem fraquinha a um dos argumentos mais comuns favorável ao túmulo vazio, a saber, que a fidedignidade histórica do relato do sepultamento de Jesus por José de Arimateia dá sustentação ao fato do túmulo vazio.

A força do argumento é: se a essência do relato do sepultamento for precisa, então a localização do túmulo de Jesus era conhecida em Jerusalém por judeus e cristãos, já que os dois lados estavam presentes quando Jesus foi posto na sepultura. Mas, nesse caso, o túmulo teria de estar vazio quando os discípulos começaram a pregar que Jesus ressuscitou.

Por quê? Primeiro, os discípulos não teriam acreditado na ressurreição de Jesus se o cadáver dele ainda estivesse na sepultura. Teria sido totalmente não judaico, para não dizer estúpido, acreditar que um homem havia ressurgido dos mortos quando o seu corpo ainda estava na cova. Segundo, mesmo que os discípulos tivessem anunciado a ressurreição de Jesus apesar de seu túmulo estar ocupado, dificilmente alguém acreditaria neles. Um dos fatos mais notáveis a respeito da fé dos cristãos primitivos na ressurreição de Jesus é que ela floresceu na mesmíssima cidade em que Jesus havia sido crucificado publicamente. Enquanto o povo de Jerusalém entendesse que o corpo de Jesus estava no túmulo, poucos estariam dispostos a crer em tal disparate: que Jesus havia ressuscitado dos mortos. E terceiro, ainda que eles cressem dessa maneira, as autoridades judaicas teriam desmascarado o caso inteiro apenas apontando o túmulo de Jesus ou talvez até mesmo exumando o cadáver como prova decisiva de que Jesus não havia ressurgido.

A esse argumento, nosso crítico cético replica que, quando os discípulos começaram a anunciar a ressurreição em Jerusalém 50 dias depois, o cadáver de Jesus estaria tão decomposto que não seria possível identificá-lo. Ora, isso não é bem verdade. Não é necessário registro dentário nem perícia forense moderna para identificar os restos mortais de uma vítima crucificada, sepultada no túmulo de um honorável membro do sinédrio! Mas, na verdade, essa réplica deixa de enxergar a parte mais fundamental da questão, ou seja, mesmo que não fosse possível reconhecer os despojos na sepultura de José, o ônus da prova caberia a quem afirmasse que esses restos mortais não eram os de Jesus, uma vez que fora ali o lugar onde José depositara o cadáver. Como afirmei acima, enquanto o povo de Jerusalém pensasse que o corpo de Jesus estava na sepultura, poucos estariam dispostos a crer que Jesus havia ressurgido dos mortos. A fim de sustentar que aqueles restos mortais não eram os de Jesus, as autoridades judaicas teriam de inventar alguma história extraordinária sobre a maneira como o cadáver de outra pessoa foi aparecer exatamente no lugar onde um companheiro do sinédrio havia depositado o corpo de Jesus.

Contudo, parece que jamais houve qualquer controvérsia sobre a identificação dos restos mortais de Jesus. Antes, a discussão entre judeus não cristãos e judeus cristãos em Jerusalém dizia respeito a como o túmulo tinha ficado vazio (Mt 28.11-15). Caso no túmulo de José houvesse um cadáver, mesmo não identificável, a polêmica judaica contra a proclamação da ressurreição de Jesus teria tomado rumo muito diferente. É impressionante o fato de as autoridades judaicas não terem negado o túmulo vazio, em vez disso, porém, se emaranharam numa série de absurdos vãos tentando explicar a coisa dessa maneira.

É significativo que o nosso crítico caia finalmente nas teorias de conspiração do Deísmo do século 18 para defender a sua posição, caminho que nenhum historiador contemporâneo ou nenhum erudito bíblico contemplaria.

Acho que é possível perceber que à luz da exigência de fontes extrabíblicas para a data da proclamação da ressurreição levada a efeito pelos discípulos não tem mesmo nenhuma relação com a questão. Na verdade, uma das outras linhas de evidência favorável ao túmulo vazio é que esse fato está atestado, de múltiplas e independentes formas, em fontes muito recentes. A narrativa do sepultamento de Jesus por José de Arimateia e a das mulheres descobrindo o túmulo vazio fazem parte do material das fontes do relato da Paixão (a história do sofrimento e morte de Jesus) no Evangelho de Marcos. Ele é o mais antigo dos quatro Evangelhos, portanto, esse relato pré-marcano da Paixão baseia-se provavelmente em testemunhos oculares. Além disso, em 1Coríntios 15.3-5, Paulo cita uma antiga tradição cristã que recebera dos discípulos mais antigos. Provavelmente, ele a recebeu não muito depois de sua viagem a Jerusalém em 36 d.C. (Gl 1.18), se é que não a recebeu antes, ainda em Damasco. Ela remonta aos primeiros cinco anos depois da morte de Jesus em 30 d.C. Embora a tradição não mencione o túmulo vazio de modo explícito, a comparação da fórmula de quatro versos com os Evangelhos, por um lado, e com os sermões em Atos, por outro, revela que o terceiro verso é, de fato, um resumo do relato do túmulo vazio.

E não somente isso, mas há razões suficientes para distinguir outras fontes independentes para a narrativa do túmulo vazio em outros Evangelhos e Atos. Mateus trabalha claramente com uma fonte independente, pois inclui o relato da guarda posta junto à sepultura, fato particular ao seu Evangelho. Ademais, seu comentário sobre o boato de como os discípulos haviam roubado o corpo de Jesus — “essa história tem sido divulgada entre os judeus até o dia de hoje” (Mt 28.15) — mostra que Mateus está interagindo com uma tradição anterior. Lucas tem também uma fonte independente, pois relata a história, não encontrada em Marcos, da visita de dois discípulos ao túmulo para confirmarem o relato das mulheres, de que o túmulo estava vazio. A história não pode ser considerada como uma criação de Lucas, já que o incidente está registrado de modo independente em João. E, considerando-se a independência de João dos outros três Evangelhos, temos nele mais um registro independente do túmulo vazio. Por fim, nos sermões registrados no livro de Atos, temos novamente mais uma referência indireta ao túmulo vazio. Por exemplo, Pedro traça o agudo contraste: “Davi morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está até hoje entre nós”, mas “Foi a este Jesus que Deus ressuscitou” (At 2.29-32; compare 13.36-37).

Os historiadores consideram ter feito uma descoberta grandiosa quando há dois relatos independentes de um mesmo evento. Mas no caso do túmulo vazio temos não menos do que seis relatos, estando alguns deles entre os materiais mais antigos encontrados no Novo Testamento. Portanto, temos argumentos históricos fortíssimos para afirmar que os discípulos já tinham conhecimento de que o túmulo de Jesus estava vazio, mesmo antes de eles deixarem Jerusalém para irem à Galileia.

- William Lane Craig