#749 A atitude dos autores do NT quanto à história primeva
November 10, 2021Olá, Dr. Craig.
Quando compartilho a visão da mito-história com os meus amigos, uma das questões comuns que se levanta é que o Novo Testamento parece estar comprometido com a historicidade de Noé. Gostaria de resumir os pontos abaixo, comumente mencionados na discussão... para obter a sua crítica, opinião e entendimento sobre como lidar com estes pontos.
Passagens para discussão:
2 Pedro 2.4-10, O autor usa a trajetória de Deus ao longo da história como prova de por que a audiência deve ser persuadida a seguir o caminho justo, em contraste com os falsos profetas.
Observação: A força da persuasão de Pedro seria solapada severamente, caso a história não fosse real. A passagem usa Noé, bem como Ló. A história de Ló não é mito-história. Não há nenhuma indicação de que Pedro esteja se referindo a um mito numa ilustração e a um evento histórico no outro. Os exemplos se encaixam sem defeito (e de modo cronológico), sendo usados para ilustrar o mesmo ponto.
Mateus 24.37-39, Nesta passagem, Jesus usa a história de Noé como ponto de referência para fazer uma afirmação de verdade sobre o modo como o mundo se parecerá quando Jesus voltar.
Observação: Jesus parece estar se referindo à história de Noé como história passada, mediante o seu uso da frase “como nos dias de...”. Se Jesus cria num Noé histórico, penso que deveríamos estar compromissados com a mesma posição, mesmo que não fosse parte das asserções da Bíblia.
Hebreus 11.7, Nota-se Noé como exemplo de fé que devemos imitar em nossas próprias vidas.
Observação: Não há nada para sugerir que algumas pessoas na lista sejam históricas, enquanto outras não. Hebreus 12 agrega Noé com os outros que são históricos, quando se refere à “grande nuvem de testemunhas”. A força de Hebreus 12.1 diminui enormemente, caso as testemunhas não estejam, de fato, conectadas ao passado de Israel. É a realidade delas que torna o seu exemplo de vida bem vivida algo a ser imitado.
Aaron
Canadá
Canada
Dr. Craig responde
A
Aaron, este se trata do problema mais difícil para a minha visão, e enfrento-a extensamente no livro, especialmente no capítulo 7, “Adão no Novo Testamento”. O problema é que, embora se possa argumentar de modo muito plausível a favor do gênero ou função mito-históricos da história primeva de Gênesis 1—11, parece que não era assim que os escritores do Novo Testamento a entendiam. Parece que a entendiam como história pura e simples. Isto leva alguns estudiosos a concluir que os autores do Novo Testamento simplesmente não entendiam este tipo de literatura. Era como alguém que interpreta, por exemplo, as fábulas de Esopo, de modo literal. Esta conclusão, porém, ocasiona questões difíceis para o cristão que crê na inspiração bíblica. As Escrituras, por serem inspiradas por Deus, são verdadeiras em tudo que ensinam. Assim, como é que os escritores do NT ensinaram incorretamente coisas como um dilúvio global que exterminou toda a vida terrestre?
O adepto da inspiração divina deve, portanto, manter que os autores do Novo Testamento, quaisquer que tenham sido as suas crenças pessoais, não ensinavam que Gênesis 1—11 é história literal. Esta distinção entre as crenças e os ensinamentos é perfeitamente plausível e comumente aceita. Por exemplo, os autores do Novo Testamento provavelmente criam na cosmologia geocêntrica, mas não ensinaram tal doutrina.
Assim, como se pode tornar plausível o fato de que os autores do Novo Testamento, ao referir-se a eventos e pessoas da história primeva, não ensinavam a historicidade dela? No caso, pode-se distinguir entre o uso ilustrativo de um texto e o uso assertivo do texto. Pode-se usar textos míticos e ficcionais de maneira ilustrativa a fim de ensinar algumas verdades teológicas importantes, sem asseverar a verdade histórica de tais textos. Agimos assim a todo instante com a mitologia grega e romana. Poderíamos dizer, por exemplo: “Um Trump desbocado foi o calcanhar de Aquiles do seu governo”, ou “A retirada desastrada do Afeganistão liderada por Biden abriu uma caixa de Pandora para os Estados Unidos”, sem estarmos compromissados com a verdade histórica dos respectivos mitos.
Uma das contribuições originais do meu livro é mostrar que os escritores do Novo Testamento fazem precisamente isto com as histórias retiradas do folclore, lendas e mitologia judaicos. Se insistirmos que todo uso ilustrativo de tal literatura nos compromete com a historicidade das pessoas e eventos envolvidos, devemos nos ver compromissados com a historicidade de contos como o de Janes e Jambres, a disputa de Miguel com Satanás pelo corpo de Moisés e a fonte móvel que acompanhou os israelitas pelo deserto, suprindo-lhes com água durante aquela peregrinação, e assim por diante, algo que ninguém deseja fazer! Se meramente permitirmos o uso ilustrativo de tais textos, devemos, pela mesma razão, permitir o uso ilustrativo de textos do Antigo Testamento.
Considere os exemplos que você apresenta:
2 Pedro 2.4-10: Esta é uma das passagens exemplares em apoio a minha afirmação. No caso, vemos Pedro a lançar mão não do Antigo Testamento, mas da mitologia grega para o Tártaro e do folclore judaico para Noé como arauto da justiça e Ló como o justo. Não devemos nos considerar compromissados com tais coisas por causa do uso ilustrativo que Pedro fez destes exemplos.
Mateus 24.37-39: Mais uma vez, temos aqui Jesus a usar uma história do Antigo Testamento de modo ilustrativo, a fim de ensinar uma lição sobre a sua segunda vinda em juízo. Concordo que Noé era pessoa histórica, mas não devemos nos considerar compromissados com a historicidade dos detalhes da história do dilúvio só porque Jesus cita a história de modo ilustrativo.
Hebreus 11.7: Esta passagem é, penso eu, significativamente distinta. Embora uma personagem ficcional numa história pudesse ser usada de modo ilustrativo como exemplo de fé, o que difere aqui é que o autor passa a asseverar a historicidade destas pessoas (Hebreus 11.39—12.1). No entanto, não é nenhum problema para a minha proposta, pois concordo que essas pessoas do Antigo Testamento realmente viveram; apenas proponho que as suas histórias foram escritas na linguagem figurativa do mito.
- William Lane Craig