#753 Uma nova desculpa ateísta?
November 10, 2021Dr. Craig,
Ao longo dos anos, descobri que, quando os teístas perguntam a ateístas: “O que será preciso para convencê-lo de que Deus existe?”, a resposta que dão costuma ser muito insatisfatória. Normalmente, oferecem algum milagre elaborado e exagerado que reflete uma epistemologia seriamente falha e a falta de abertura intelectual para a questão. Certa resposta a esta pergunta, porém, tem ganhado força na comunidade ateísta e infiel na internet, e gostaria de ouvir o que pensa a este respeito. “Não sei o que seria preciso para convencer-me que Deus existe. Se Deus existe mesmo, porém, Ele deveria saber o que é preciso para convencer-me da Sua existência (e também deveria ser capaz de realizar esta tarefa). E o fato de que ele não consegue fazê-lo neste momento significa apenas uma destas duas coisas: Ele verdadeiramente não existe, ou Ele não quer que eu saiba que Ele existe (ou simplesmente não se importa)”.
Encaro esta pergunta como uma desculpa retórica barata que evita de forma desesperada carregar qualquer ônus da prova quando se discute a filosofia da religião, mas é só a minha opinião. Adoraria ouvir o que o senhor tem a dizer!
Atenciosamente,
Christian
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Concordo com você, Christian, que a resposta que você descreve é uma desculpa — de fato, é como se estivessem passando adiante a batata quente. “Não tenho nenhuma culpa por minha descrença! É culpa de Deus!”. Ninguém que estava a buscar a Deus com sinceridade culparia a Deus deste modo, pois encerra a possibilidade de encontrar a Deus.
Tal pretexto é apenas uma nova versão elaborada da velha questão da culpabilidade da descrença, que abordamos outras vezes (perguntas 191; 735). Ao contrário das afirmações daquele que quer passar a batata quente, penso que a pessoa é culpável pela própria descrença.
A nova versão que você descreve é, no entanto, interessante, por causa da sua natureza contraditória. Observe que o objetor pressupõe que Deus tem conhecimento médio: “Se Deus existe mesmo, Ele deveria saber o que é preciso para convencer-me da Sua existência”. A objeção, porém, desfaz-se por tal conhecimento: pois, no caso, Deus podia saber que, não importa quais provas Ele oferecesse, o coração endurecido de quem dá as desculpas teria resistido, não chegando a amar e servir a Deus. Lembre-se que Deus não está interessado em meramente convencer as pessoas a acrescentar outro item (Deus) ao seu inventário ontológico. Antes, Ele quer que cada pessoa chegue a uma relação amorosa de adoração e conhecimento de Deus.
Mesmo que Ele providenciasse provas coercivas da Sua existência, não há nenhuma garantia de que quem dá as desculpas viesse livremente a amar e adorar o ser cuja existência ele foi forçado a reconhecer. Portanto, Deus não está sob nenhuma obrigação de oferecer mais provas do que já o fez, uma vez que Ele sabia que isto não traria nenhuma vantagem.
A conclusão da objeção: “O fato de que ele não consegue fazê-lo neste momento significa apenas uma destas duas coisas: Ele verdadeiramente não existe, ou Ele não quer que eu saiba que Ele existe (ou simplesmente não se importa)” é non sequitur. Isto porque outra explicação é que Deus sabia que oferecer mais provas não traria nenhuma vantagem. Outra explicação, porém, é que Deus providenciará no futuro tais provas para nosso amigo que passa a batata quente, assim que o seu coração amolecer e estiver mais aberto às ações de Deus. Seja como for, a culpa, por ora, recai sobre o próprio descrente, e não sobre Deus.
- William Lane Craig