#184 A Causa do Universo Deve Ser Pessoal, Revisitado
October 28, 2014Dr. Craig,
Tem havido muita discussão em seu fórum sobre a sua resposta para a Pergunta #182. Particularmente, eu tenho algumas preocupações com a sua resposta que se centralizam principalmente em torno de seu uso do princípio islâmico de determinação. Eu estou perguntando em nome de Cyrus, com algumas das minhas próprias perguntas acrescentadas.
Nossa primeira pergunta é: o que exatamente você quer dizer com "eterno" no argumento do princípio da determinação e no contexto geral do argumento cosmológico Kalam? No livro “The Blackwell Companion to Natural Theology” [Companion Blackwell à Teologia Natural], você escreve:
"A causa [do universo] é em certo sentido eterna, porém o efeito que ele produziu não é eterno, mas começou a existir um tempo finito atrás. Como pode ser isso? Se as condições necessárias e suficientes para a produção do efeito são eternas, então por que o efeito não é eterno?"
Como Cyrus destacou, se “eterno” é definido como "existente em todos os momentos do tempo" e interpreta a questão perguntando: "Se a causa do universo é existente em todos os momentos do tempo, então por que o universo veio à existência apenas um tempo finito atrás?," então esta pergunta não pode ser usada com o Argumento Cosmológico Kalam (ACK). Se a causa existisse "em todos os momentos do tempo,” então seria temporal, que implicaria uma visão newtoniana de tempo. No entanto, a segunda premissa do argumento garante que nenhum tempo existe antes do universo e que a causa deve ser atemporal. Você respondeu:
“Isso me surpreendeu, pois eu pensava que a minha posição sempre foi que essa pergunta não tem sentido, já que eu defendo uma visão relacional de tempo. Na passagem que você cita, o objetivo era provar justamente que o Big Bang não ocorreu em uma massa super densa existente desde a eternidade! Tempo (e espaço) surgiram com o Big Bang, e por isso é sem sentido perguntar por que isso não aconteceu antes.”
Mas note que, se isso está certo, então o princípio de determinação não funciona mais. De acordo com o princípio da determinação, a criação do universo requer uma “particularizador” (um ser com livre arbítrio que decide o curso de uma ação entre várias opções) para querer que o universo existisse em um determinado momento. Mas se você está certo que não há tempo antes do big bang, então não faz sentido para retoricamente perguntar por que a causa do universo, se for mecânico, não criou o universo um tempo infinito antes, porque não havia tempo antes. O princípio da determinação só funciona, então, dentro do tempo. Isso é mais evidente com os seus exemplos de água congelada e o homem sentado: ambos os casos não são atemporais como Deus, mas na verdade são temporais e tem existido sem começo durante um tempo infinito, (que o ACK diz ser impossível)! Somente num pano de fundo temporal é que o princípio da determinação é significativa. Para ilustrar, suponha que a causa do universo era de fato operado mecanicamente, com todas as condições necessárias e suficientes no lugar para criar o universo. Você diz que isso não iria funcionar porque esta causa mecânica teria criado o universo um tempo infinito antes, fazendo com que o universo também fosse eterna e sem princípio como a causa. Mas está claro agora onde está o erro? Para opor ao dizer que uma causa mecânica teria criado o universo um tempo infinito antes pressupõe que existia tempo antes do universo, que você discute ser impossível. Se você não quer dizer isso quando você menciona o princípio da determinação, então eu acho que você vai precisar esclarecer de uma forma que não sugere tempo antes do universo. Agora, se você definir "eterno" como "atemporal" não faz sentido nem perguntar por que o efeito não é eterno (atemporal), uma vez que o universo no ACK é, por definição, a totalidade de todo o espaço-tempo e é por definição temporal.
Nossa segunda pergunta é: por que a causa do universo não poderia ser indeterminada mas impessoal? Tal causa poderia escapar os alegados problemas com uma causa mecânica tão bem como poderia uma causa pessoal. A causa indeterminista e impessoal do universo poderia ter gerado um evento de criação produzido indeterminadamente que causou o universo e foi simultânea com ele também. Você afirma que porque Cyrus não deu uma explicação detalhada de que tipo de causa indeterminista e impessoal poderia ser, tal explicação não é válida ou não vale a pena considerar. Mas, em seu esboço do ACK, você explica no argumento 4.1 que:
4.11 O universo foi trazido à existência ou por um conjunto de condições necessárias e suficientes operando mecanicamente ou por um agente pessoal livre.
4.12 O universo não poderia ter sido trazido a existência por um conjunto de condições necessárias e suficientes operando mecanicamente.
4.13 Portanto, o universo foi trazido a existência por um agente pessoal livre.
Como este é um argumento dedutivo, a mera possibilidade de uma causa indeterminista e impessoal mostra que este argumento é um falso dilema, o que significa que você não pode nem usar o argumento para mostrar a pessoalidade da causa do universo, nem usá-lo como uma prova dedutiva contra a evidência indutiva contra a existência de uma mente incorpórea (sem corpo). Mas, além disso, uma singularidade inicial atemporal poderia ser um candidato plausível para esta causa, pois a singularidade é sem lei, indeterminista, e impessoal, e é atemporal, o que significa que ela não começou a existir. Porque a singularidade não começou a existir, ela não precisaria ter uma causa. Agora, eu vejo que você respondeu na Pergunta #131 dizendo que a singularidade, embora fora do tempo físico, passa a existir com o tempo e, portanto, precisa de uma causa. Mas isso parece contradizer a sua análise do que significa começar a existir. Uma das condições para X começar a existir é que não existe um estado das coisas no qual X existe eternamente. Mas, se a singularidade é atemporal, então existiria num estado atemporal das coisas e, portanto, não teria começado a existir sob sua análise. Estes, Cyrus e eu sintimos, são as maiores falhas no ACK que pensamos que você não os abordoou adequadamente, e que ficaríamos feliz em vê-los serem analisados justamente.
Shah
- país não especificado
United States
Dr. Craig responde
A
Estas são perguntas importantes, Shah, então eu vou tentar esclarecer minhas posições em resposta.
1. O que eu quero dizer com "eterno" no argumento do princípio da determinação? Em uma palavra, permanente. Algo é eterno se existe permanentemente, ou sem começo nem fim. Mas existência eterna pode assumir duas formas: atemporalidade ou existência infinita omnitemporal (às vezes chamado de sempiternidade). Deus é essencialmente eterno, mas na minha visão se Ele é atemporal ou omnitemporal é contingente, dependendo de Sua vontade.
Assim, a razão para meu comentário "em algum sentido eterno" é precisamente para indicar que o argumento a favor da causa ser pessoal funciona em qualquer interpretação de eternidade.
Lembre-se que por este ponto já provamos que a primeira causa existe sem começo e sem mudança sem criação. Essa é a chave para o argumento, não se esta causa é atemporal ou em uma espécie de tempo sem evento, indiferenciado antes da criação. (Você sabe que meu ponto de vista é o anterior, embora eu esteja preparado para voltar atrás para o último se a minha posição preferida for mostrada como sendo insustentável.) O ponto é que se as condições causais suficientes para o universo fossem permanentemente presente (seja atemporalmente ou sempiternamente), então o universo deve existir tão permanentemente como a causa. Aqui está como eu explico em Reasonable Faith:
Uma maneira de ver a dificuldade está em refletir sobre os diferentes tipos de relações causais. Na causação evento-evento, um evento causa outro. Por exemplo, o tijolo jogado no vidro da janela faz com que o painel quebre. Este tipo de relação causal envolve claramente um começo do efeito no tempo, uma vez que é uma relação entre eventos que ocorrem em momentos específicos. Na causação estado-estado, um estado de coisas faz com que outro estado de coisas exista. Por exemplo, a água ter uma certa densidade é a causa da madeira flutuando na água. Neste tipo de relação causal, o efeito não precisa ter um começo: a madeira poderia, teoricamente, estar eternamente flutuando na água. . . . Agora, a dificuldade que surge no caso da causa do início do universo é que parece que temos um caso peculiar de causação estado-evento: a causa é um estado atemporal, mas o efeito é um evento que ocorreu em um momento específico no passado finito. Tal causação estado-evento não parece fazer sentido, uma vez que um estado suficiente para a existência de seu efeito deveria ter um estado como o seu efeito.
Parece haver apenas uma maneira de sair deste dilema, e isso é dizer que a causa do começo do universo é um agente pessoal que livremente escolhe criar um universo no tempo. Os filósofos chamam esse tipo de causação de "agente causador", e porque o agente é livre, ele pode iniciar novos efeitos ao trazer livremente condições que não existiam anteriormente.
Agora você retruca que "dizer que uma causa mecânica teria criado o universo um tempo infinito antes pressupõe que o tempo existia antes do universo, que você diz ser impossível." Tenha cuidado aqui, Shah. A pergunta não é por que o universo não foi criado antes (independentemente de quanto antes). Concordo que não faz sentido perguntar por que o universo não começou em um ponto anterior do tempo. Mas não segue daí que não faz sentido perguntar por que um universo com um começo existe em vez de um universo eterno, sem começo. Também não é sem sentido perguntar como um efeito com um começo pode ser proveniente de uma causa sem mudança e permanente. Esse é o real problema! Acho que al-Ghazali e aqueles teólogos muçulmanos medievais acertaram em cheio a respeito deste argumento para um agente livre como a causa do universo.
2. Por que a causa do universo não poderia ser indeterminista mas impessoal? Mais uma vez, você preciso recordar o que já foi estabelecido antes desse ponto. Se o argumento até agora está correto, então temos provado que existe uma causa indeterminista para o universo sem causa, sem começo, sem mudança, imaterial, atemporal, sem (limite de) espaço e extremamente poderosa. Agora a questão é, o que é? Que entidade se encaixa nessa descrição? A resposta, parece-me, é clara: uma pessoa, uma mente incorpórea.
Podemos pensar nessa conclusão como uma inferência para a melhor explicação. Na inferência para a melhor explicação, nós nos perguntamos: qual hipótese, se verdadeira, daria a melhor explicação para os dados? A hipótese de que existe um Criador pessoal do universo explica maravilhosamente todos os dados. Por outro lado, como eu disse, não há nada como isso em uma cosmovisão naturalista. Mesmo com o indeterminismo quântico (ele mesmo sendo um ponto discutível), tal indeterminação é uma propriedade de sistemas físicos espaço-temporais em mudança. Eu não sei de qualquer explicação para competir, muito menos explicação melhor do que a hipótese de um Criador pessoal. Observe que não é legítimo oferecer como explicação uma hipótese que simplesmente repete os dados a serem explicados, por exemplo, explicando que o ópio induz o sono porque tem "poderes dormitivos." Dizer que a causa do universo é um ser sem causa,. . . , indeterminista, impessoal é assim. É não oferecer nenhuma explicação. Portanto, nunca poderia ser a melhor explicação. Da mesma forma, não é bom apelar a entidades desconhecidas. Isso é só admitir que não se tem nenhuma explicação, nenhuma hipótese alternativa para oferecer. Seria como dizer que os fósseis não são melhor explicados como os vestígios de organismos que já viveram na Terra, mas em vez disso o efeito de um poder formador de fósseis misterioso e desconhecido nas rochas. Mais uma vez, isso nunca poderia contar como a melhor explicação.
Há duas maneiras para derrotar tal inferência para a melhor explicação: (1) proporcionar uma explicação igualmente boa que não envolve a existência de um Criador pessoal; ou (2) fornecer razões imperiosas de pensar que um Criador pessoal não existe. Os argumentos contra a coerência de uma mente incorpórea seriam exemplos da estratégia (2), enquanto nossa discussão a respeito de uma explicação alternativa é um exemplo da estratégia (1). Permanece a dúvida se qualquer estratégia pode ser realizada com sucesso. Nós ainda não vimos qualquer evidência de que a noção de uma mente incorpórea é incoerente ou mesmo qualquer evidência contra o dualismo corpo-mente nos seres humanos. Pelo contrário, eu acho que temos boas razões para pensar que o dualismo antropológico é verdade; mas isso é outra história, já que é o ateu que tem o ônus da prova aqui.
Agora, quanto à formulação do meu dilema, lembre que para que uma disjunção seja verdade tudo o que é necessário é que uma das disjunções seja verdade. Enquanto a verdadeira disjunção esteja incluída, você não precisa incluir todas as outras possibilidades lógicas também. Assim, por exemplo, um observador político pode justificadamente racionalizar, "Ou Cuomo ou Paladino vai ganhar a eleição para governador de Nova York. Mas os negativos do Paladino são demasiado elevados. Portanto, Cuomo vai ganhar." O argumento é bom, apesar do fato de que a principal premissa ignora todos os outros candidatos marginais na cédula de votação em Nova York! A vitória deles é tão improvável que a premissa que o perito afirma é muito provavelmente verdade.
Da mesma forma, pense em (4.11) como sorteando do conjunto de opções explicativas viáveis dos candidatos para a melhor explicação para a causa do universo. Já que eu não estou ciente de qualquer candidato para uma causa impessoal, indeterminista do universo que se encaixe em todas as propriedades provadas até agora, eu simplesmente ignorei esta ideia. [1] Na verdade, a falta de qualquer candidato é o que levou a meu argumento abreviado que a causa do universo, ou é uma mente ou um objeto abstrato. Agora, é claro, se alguém adiciona ao conjunto de opções viáveis outra explicação (veja abaixo sobre a singularidade cosmológica inicial), então nós vamos ter que considerar isso.
Em qualquer caso, Shah, não fique preso sobre a mera forma do argumento. Pode-se sempre reformulá-lo indutivamente. Por exemplo, poderíamos dizer que a probabilidade que a causa do universo é pessoal (P) é muito maior dada a evidência (E) para a causa deduzida do universo do que é com nossa informação prévia ou informação de fundo (I) apenas, isto é , Pr (P|E & I) >> Pr (P|I), que não pode ser dito sobre a probabilidade de que a causa é impessoal (¬P). Isto é, em grande parte, porque a probabilidade de que deveria haver uma causa do universo tal como já descrevemos é muito maior devido à hipótese de que a causa é pessoal do que se a causa é impessoal, isto é, Pr (E|P & I) >> Pr E| (¬P & I).
Finalmente, quanto à sugestão de que a singularidade é a causa do universo, isso tem o mérito de pelo menos postular alguma entidade explicativa. Mas na Pergunta #182, eu expliquei por que a singularidade cosmológica inicial não pode ser a causa final do universo, uma vez que é irreal ou então parte do universo e, portanto, ela mesmo tendo a necessidade de explicação de ter vindo a existência. O sentido em que a singularidade é "atemporal", Shah, é um sentido altamente técnico em que na Teoria Geral da Relatividade ela não é um ponto dentro do espaço-tempo. Pelo contrário, é um ponto no limite do espaço-tempo. Mas não é eterna no sentido comum do termo, ou seja, não é permanente. Pelo contrário, é fugazmente evanescente. Por isso, é temporal e começou a existir e, portanto, requer uma causa.
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[1]
Eu tenho, por outro lado, discutido longamente a hipótese de que a causa do universo poderia ter sido uma causa física indeterminista, mecânica quântica. Ver, por exemplo, a minha contribuição para o volume Mere Creation (1998), pp. 332-359.
Eu tenho, por outro lado, discutido longamente a hipótese de que a causa do universo poderia ter sido uma causa física indeterminista, mecânica quântica. Ver, por exemplo, a minha contribuição para o volume Mere Creation (1998), pp. 332-359.
- William Lane Craig