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#206 Universo com Ajuste Fino

October 28, 2014
Q

Eu estava ouvindo o Dr. Craig falando sobre como alguns ateus estão muito impressionados com a Hipótese de Infinitos Universos (HIU) - ou seja, a ideia de que há um número infinito de universos, em que todas as combinações possíveis das constantes cosmológicas ocorreram ou estão ocorrendo, e concluem que, portanto, a quantidade de ajuste fino do nosso universo é inexpressiva.

Perdoe-me, mas não vejo como postular um número verdadeiramente infinito de universos os ajuda de qualquer forma, se as variáveis dentro desses possíveis universos também são infinitos. Nesse caso, eles têm uma possibilidade infinita que NENHUMA repetição das condições ideais para a vida terá lugar EM QUALQUER MOMENTO.

Parece-me que eles precisam de um número LIMITADO de variações das constantes, além de um número MUITO GRANDE de repetições das variáveis, em vez de como rolar um dado de seis lados muitas vezes aumenta a chance de que um quatro será lançado em algum momento. Por outro lado, se o próprio dado tiver lados infinitos, então ter um número infinito de lançamentos, parece-me, NÃO aumentaria a chance de lançar quatros; na verdade, haveria um número infinito de possibilidades de que NUNCA iria acontecer.

Se o número real de possibilidades é em si infinito, então como é que ter um número infinito de casos ajuda a aumentar as chances de "alcançar os números certos" para produzir um universo ordenado que sustente a vida? Está faltando alguma coisa, ou eles estão contando como certo um número limitado das constantes cosmológicas? Nesse caso, não surge a pergunta, "O que causa a gama específica de constantes cosmológicas limitadas?" E se é assim, como é que a HIU os ajuda a fugir do problema da Singularidade?

Sei que esta pergunta pode ser um pouco esotérica demais para postar, mas se o Dr. Craig se interessar em respondê-la, eu com certeza gostaria de saber qual é a resposta.

Stephen

Canada

Dr. Craig responde


A

O Ajuste Fino do Universo

Stephen, a sua pergunta é extraordinariamente provocativa sobre o problema de recorrer a um Conjunto de universos, ou multiverso, a fim de resgatar a hipótese do acaso como a melhor explicação para o ajuste fino do universo que observamos.

Os defensores da hipótese dos Muitos Mundos (ou Mundos Múltiplos) normalmente recorrerão a uma teoria física que sirva para gerar ou descrever o conjunto de mundos que existem. Por exemplo, a teoria-M, que unifica diversas teorias das cordas da física, permite uma paisagem cósmica de 10500 estados diferentes do vácuo quântico caracterizado por diferentes constantes fundamentais. Pode-se, então, unir a teoria-M com a cosmologia inflacionária para produzir diferentes universos bolhas no mar mais amplo de expansão de vácuo falso, para experimentar as várias combinações permitidas pela paisagem cósmica. Se assumirmos uma infinidade de mundos, cada combinação será repetida infinitas vezes.

Como você diz, esta jogada para restringir a natureza do multiverso levanta mais uma vez a questão de saber se as leis que o regem devem ser especiais de alguma forma. Se sim, então nada foi alcançado pelo apelo ao multiverso.

O Ajuste Fino do Universo- o multiverso não explica por que existem agentes que interagem

Mas uma falácia ainda mais fundamental assola tais apelos à hipótese dos Muitos Mundos. Ainda esta semana eu estive lendo uma peça muito perspicaz por Robin Collins neste assunto. [1] Collins ressalta que simplesmente postular um conjunto de mundos grande o suficiente e variado o suficiente para algum fenômeno aparecer em alguns mundos, não é suficiente para explicar esse fenômeno. Caso contrário, você pode explicar quase tudo (como eu receber quatro aces cada vez que eu dou as cartas), dizendo que em algum lugar do multiverso há mundos que exibem o fenômeno em questão. Ciência e o próprio comportamento racional seria impossível se praticamente tudo pode ser considerado como uma ocorrência aleatória em um multiverso.

Os defensores da explicação do multiverso do ajuste fino do universo, portanto, recorrem a um efeito de auto-seleção por parte dos observadores. Os observadores podem observar apenas os mundos que são caracterizados por parâmetros que permitem a vida. Obviamente, os observadores não existem em mundos que são incompatíveis com a existência de observadores! Assim, todos os mundos no conjunto que tem observadores dentro deles devem ser observados para permitir a vida. A suposição aqui é que os mundos observáveis devem ser caracterizados por ajuste fino. Isso permite o partidário do acaso dizer que observadores devem observar o seu mundo como um finamente ajustado, e então não há nada a ser explicado.

O que Collins ressalta é que essa suposição é falsa. Aqui ele apela para os famosos Cérebros de Boltzmann. É fisicamente possível ter um mundo observável em que um único cérebro se forma através de uma flutuação quântica no vácuo. Os Cérebros de Boltzmann podem flutuar para dentro da existência até mesmo em mundos que não são finamente ajustados por agentes corporais que interagem (por exemplo, um mundo em que a constante cosmológica é grande demais para as galáxias e as estrelas se formarem). Então mundos observáveis não precisam ser ajustados como o nosso. Nesse caso, postular Muitos Múltiplos ou multiverso, e apelar para um efeito de auto-seleção por observadores, não explicará por quê, se somos um mundo aleatório em tal conjunto, observamos um universo ajustado finamente.

Aqui está como Collins coloca:

A confiança no princípio da seleção do observador traz um enorme problema com as explicações do multiverso do ajuste fino: os dados do ajuste fino não é que vivemos em um "universo estruturado pelo observador", refiro-me com isso a um universo estruturado de tal maneira que irá surgir um grande número de observadores; em vez disso, os dados é que nós existimos em um universo que é definido justamente para que o tipo predominante de observadores que provavelmente surjam, serão agentes corpóreos conscientes que podem afetar significativamente o bem-estar um do outro, seja para o bem ou para o mal. . . . O problema do C[érebro] de B[oltzmann], portanto, mostra que as constantes não estão ajustada para os observadores, mas, sim, para os agentes que interagem e surgem através de um processo evolutivo padrão. No entanto, por causa de sua dependência no princípio da seleção do observador, a hipótese do multiverso poderia no melhor das hipóteses explicar o ajuste fino para a existência de observadores, não o ajuste fino para agentes que interagem.

A fim de salvar a apelação para os Muitos Mundos, o partidário do acaso deve fornecer alguma razão para pensar que a maioria, ou pelo menos uma proporção significativa, de mundos com observadores são mundos que estão ajustados para a existência de agentes corporais que interagem. Caso contrário, a explicação nem sequer sai do chão. Mas não há nenhuma maneira de fazer isso.

A análise de Collins sugere, assim, que o apelo aos Muitos Mundos ou multiverso é bastante equivocado. O problema não é que, se somos membros aleatórios de um multiverso deveríamos considerar-nos a nós mesmos como um Cérebro de Boltzmann com a ilusão de um universo mais amplo; é que, mais fundamentalmente, o que precisa ser explicado é, não que o universo permite um observador, mas que permite agentes corpóreos interativos. Como Collins explica,

Na literatura pressupõe-se que o multiverso explica o ajuste fino, com o problema do CB sendo visto como uma consequência indesejável de explicações do multiverso que precisa ser de alguma forma concertado. Meu argumento reformula o debate, argumentando que a existência de CB mostra que o universo não é finamente ajustado para observadores, mas sim para agentes de interação; assim, o multiverso nem começa a explicar o ajuste fino, uma vez que se baseia no princípio da seleção do observador, não em um princípio de seleção "agente-interativo" [grifo meu].

Já que o que clama por explicação não é o ajuste fino do universo apenas para os observadores, mas, sim, o ajuste fino para agentes corpóreos interativos, a Hipótese dos Muitos Mundos nem sai do lugar.

  • [1]

    “Modern Cosmology in Philosophical and Theological Perspective: Three methodological approaches” [Cosmologia Moderna numa Perspectiva Filosófica e Teológica: Três Abordagens Metodológicas" (pré-impressão).

- William Lane Craig