#195 A Crença em Deus
October 28, 2014Dr. Craig,
Eu tenho algumas perguntas sobre Epistemologia Reformada e sua visão sobre o testemunho do Espírito Santo, como explicado na Pergunta 68.
Seguindo o exemplo de Alvin Plantinga, você tenta argumentar que o fundamentalismo clássico é auto-refutável porque o critério utilizado pelo fundamentalismo clássico ("apenas proposições que são auto-evidentes ou incorrigíveis são propriamente básicas") para discernir crenças propriamente básicas e crenças derivadas de crenças propriamente básicas é, em si, nem propriamente básico nem derivado. Você diz que não é propriamente básico, pois, usando o próprio critério de fundamentalismo clássico, não é nem evidente nem incorrigível. Mas a sua afirmação de que o critério não pode ser demonstrado através de provas é um pouco precipitada. Afinal, você não demonstrou que o critério utilizado no fundamentalismo clássico é incoerente; tudo o que você mostrou é que nós simplesmente não temos qualquer evidência para isso no momento, mas como você sabe, a ausência de evidência não é evidência de ausência. E, ao contrário do critério de auto-refutação usado no positivismo lógico, aquele usado no fundamentalismo clássico pode, pelo menos, ser verificado em princípio. Além disso, apelar para a Epistemologia Reformada para escapar disso também não ajuda porque o critério utilizado pelos Epistemólogos Reformados ("apenas proposições que são auto-evidentes, incorrigíveis, ou apropriadamente fundamentadas são propriamente básicas") em si não é propriamente básica e, usando o raciocínio precipitado de Plantinga, também não é apoiado evidencialmente. Então a Epistemologia Reformada não faz nada para aliviar o problema. Diante disso, não se deve rejeitar a Epistemologia Reformada como auto-refutável também?
Em segundo lugar, há melhores critérios disponíveis do que os usados pelo fundamentalista clássico ou Epistemólogo Reformado, particularmente sanção universal. De acordo com a sanção universal, uma crença é propriamente básica se é pragmaticamente indispensável. A parte agradável deste critério é que ele permite um tipo de evidencialismo que evita todos os contra-exemplos de Plantinga. Por exemplo, sob a sanção universal, crenças de memória, crença na realidade do mundo externo, a crença em outras mentes, e assim por diante, são propriamente básicas porque duvidar ou negar-lhes faria viver uma vida humana normal impossível. Precisamos dessas crenças a fim de viver uma vida feliz e gratificante. Agora, curiosamente, a sanção universal efetivamente impede quaisquer crenças teístas de serem propriamente básicas, pois é pragmaticamente possível que se viva uma vida feliz sem a crença em Deus. Acho que Sennett acertou em sua análise aqui. A razão pela qual aceitamos a crença em outras mentes, o mundo externo, e nossas memórias não é porque de alguma forma "sabemos" que são verdadeiras; é tudo psicológico, pois nós queremos desesperadamente que essas crenças sejam verdade, pois sabemos que seria impossível viver uma vida plena sem elas. Agora, Plantinga provavelmente diria que sanção universal é auto-refutável, mas há problemas com essa estratégia, como foi mencionado anteriormente. Você concordaria que a sanção universal é superior ao critério de Plantinga?
Em terceiro lugar, no contexto da obra de Plantinga, uma crença propriamente básica é uma crença básica que não foi atacada com qualquer invalidador ou anulador (defeater); uma vez que um invalidador é dado, porém, a crença propriamente básica torna-se simplesmente uma crença básica. A este ponto, pode-se ou abandonar ou manter a crença básica, no caso de ela pode encontrar argumentos com que possa anular o invalidador (defeat) original, que então restauraria a própria basicidade da crença. Em sua opinião, no entanto, o testemunho do Espírito Santo é uma crença propriamente básica e um invalidador-invalidador intrínseco, por isso, se alguém fosse oferecer um invalidador ao cristianismo que não pudesse ser respondida, sua crença em Deus seria básica ou propriamente básica?
Em seguida, quando você diz que alguém é racional em acreditar em Deus com base no testemunho do Espírito Santo, você quer dizer racional no sentido referente à justificação ou garantia? Se por "racional", você quer dizer "justificado", então você não mostrou nada. Muçulmanos, hindus e ateus são racionais, segundo esta definição, uma vez que estão dentro de seus direitos epistêmicos. Nada foi feito para mostrar que o cristianismo é verdadeiro. Por outro lado, se por "racional", você quer dizer "garantido" no sentido Plantingiano, então você precisa explicar por que outras crenças propriamente básicas que são garantidas vem a ser falsas (como crenças de memória com defeito).
É interessante notar que a relação entre as crenças não-teístas propriamente básicas e seus fundamentos são muito diferentes da relação entre as crenças teístas supostamente propriamente básicas e seus fundamentos. Há sempre uma certa correspondência entre o conteúdo de uma experiência e o conteúdo de uma crença fundamentada por essa experiência. Por exemplo, o meu sentimento de dor sustenta a crença de que eu estou com dor, não uma crença relacionada como "a evolução é verdade" ou "a = a". No entanto, de acordo com Plantinga, experimentar culpa, felicidade e perigo lendo a Bíblia serve como base para a crença teísta propriamente básica. Mas, certamente, você percebe a disparidade aqui, Dr. Craig! O que Plantinga está nos pedindo para fazer é concluir, com base em algumas emoções, que uma mente necessária, eterna, auto-existente, onipotente, onisciente, toda-bondosa, onipresente, omnitemporal, incorpórea criou o universo do nada, interage regularmente com os seres humanos e se revelou ao homem na forma de Jesus de Nazaré, que nasceu de uma virgem, realizou numerosos milagres, foi crucificado, desceu ao inferno, ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, e agora está assentado à mão direita de Deus, existe! A crença é tão alheia a seus supostos fundamentos que só se pode imaginar como Plantinga se safou com esta! Certamente você não acredita que a crença em Deus acima mencionada é fundamentada apenas por uma mera experiência religiosa, certo?
Finalmente, o modelo de Plantinga pressupõe que o cristianismo é verdadeiro. Plantinga essencialmente está defendendo a proposição: Se o cristianismo é verdadeiro, então a fé cristã é garantida (como explicado pelo seu modelo). Mas Plantinga nunca dá nenhum suporte para o antecedente daquele material condicional; ele apenas diz que demonstrar o antecedente não é o seu projeto. Mas se é assim, então Plantinga realmente não demonstrou nada muito diferente que as objeções de jure ao cristianismo falham. Mas eu não consigo ver como seu modelo mostra como um cristão pode racionalmente acreditar que o cristianismo é verdadeiro. Você aceita este ponto de vista? Você parece argumentar na direção oposta de Plantinga: Se há um testemunho do Espírito Santo, então o cristianismo é verdadeiro. Você acredita que ESSA condicional é verdade?
Obrigado,
Timaeus
- país não especificado
United States
Dr. Craig responde
A
Crença em Deus
Ao avaliar a teoria do conhecimento religioso de Alvin Plantinga, é importante manter em mente quais são seus objetivos. Como ele descreve, seu projeto é duplo: Primeiro, um projeto público que visa mostrar que não há nenhuma objeção para a fé cristã, a menos que as crenças cristãs possam ser mostradas como falsas e, em segundo lugar, um projeto privado que visa oferecer à comunidade cristã uma explicação plausível de como a fé cristã é garantida.
No que diz respeito ao projeto público, Plantinga quer mostrar que não há nenhuma boa razão para pensar que a crença cristã é injustificada, irracional, ou não garantida, a menos que possa ser demonstrado que as crenças cristãs são falsas. Alguns leitores podem pensar: "Bem, é claro!"; mas eles precisam entender que, pelo menos até recentemente, tem-se argumentado que, mesmo se o cristianismo fosse verdade, não estaríamos justificados em acreditar. Geralmente isso ocorre porque se afirma que há uma falta de evidência para as crenças cristãs, como a crença de que Deus existe. Agora, Plantinga não concorda com essa afirmação; ele acha que os argumentos teístas tornam mais provável do que não que Deus existe. Mas ele quer defender a visão de que a fé cristã pode ser justificada, racional e garantida, mesmo na ausência de provas. Para mostrar isso, ele desenvolve um modelo de como se pode ser garantido na crença cristã, com base em uma faculdade cognitiva inata designada por Deus para produzir crença nEle em determinadas circunstâncias, e com base no testemunho do Espírito Santo para as grandes verdades do Evangelho contidas nas Escrituras.
Agora, Plantinga não tem a pretensão de mostrar que seu modelo é verdade, mas apenas que, pelo que sabemos, pode ser verdade, e, além disso, se o cristianismo é verdadeiro, então algo como o modelo é muito provável que seja verdade. Se ele tiver sucesso no estabelecimento destas reivindicações modestas, ele terá mostrado que não há nenhuma objeção para a fé cristã além de demonstrar que o cristianismo é falso, ou, como ele diz, não há objeção de jure para a crença cristã independente de uma objeção de fato.
Assim, na visão de Plantinga a crença em Deus pode ser (e ele acha que deveria ser) uma crença propriamente básica não inferida com base em evidências. Agora, como você nota, Timaeus, o fundamentalista clássico tradicionalmente considera que apenas as crenças auto-evidentes ou incorrigíveis são propriamente básicas. Plantinga não nega que tais crenças são propriamente básicas, mas ele apresenta duas considerações para provar que assim restringindo crenças propriamente básicas é insustentável: (1) Se apenas proposições auto-evidentes e incorrigíveis são propriamente básicas, então somos todos irracionais porque costumamos aceitar inúmeras crenças que não são baseadas em evidências e que não são nem auto-evidentes nem incorrigíveis. (2) A proposição “Somente crenças que são auto-evidentes ou incorrigíveis são propriamente básicas” não é em si propriamente básica porque não é nem auto-evidente nem incorrigível. Portanto, se quisermos acreditar nesta proposição, devemos ter evidências de que ela é verdadeira. Mas não existe tal evidência.
Crença em Deus - Respondendo três objeções à crença em Deus como propriamente básica
Agora sua primeira objeção é que talvez as evidências que justificam essa crença serão encontradas. É muito difícil ver como isso poderia acontecer, Timaeus. É difícil ver que tipo de evidência poderia justificar tal visão, especialmente à luz da (1). Se tomarmos uma pesquisa indutiva de crenças que pensamos ser propriamente básicas, não haverá nenhum acordo que elas sejam tão restritas. Mas o ponto mais importante é que, dada a ausência presente admitida de tal evidência, é atualmente irracional aceitar o fundamentalismo clássico. Portanto, é impotente como uma objeção à inclusão de crença em Deus como propriamente básica.
Você, então, afirma que o critério utilizado pelos Epistemólogos Reformados, em si, não é propriamente básico ou é baseado em evidências. Mas este é um mal-entendido. Os epistemólogos reformados, como Plantinga, não oferecem qualquer critério de basicidade própria. Plantinga evita qualquer busca por tal critério e sugere que se queremos ver quais as crenças propriamente básicas, o melhor que podemos fazer é uma pesquisa indutiva de nossas crenças, e ele insiste que o teísta vai incluir a crença em Deus entre tais crenças, mesmo que os incrédulos não o façam. Então a Epistemologia Reformada não é auto-refutável porque não oferece qualquer critério de quais crenças são propriamente básicas.
Sua segunda objeção é oferecer outro critério para as crenças propriamente básicas que excluiria a crença em Deus como propriamente básica, isto é, as crenças propriamente básicas devem ser universalmente sancionadas. Mas esse critério é preso às mesmas duas objeções levantadas por Plantinga. (1) Há uma infinidade de crenças que aceitamos de maneira propriamente básica que não são universalmente sancionadas. Por exemplo, a minha crença de que eu comi ovos mexidos no café da manhã não é pragmaticamente indispensável. Mesmo que fosse para mim (que não é), certamente não seria para alguém que não sou eu e que não comeu ovos mexidos no café da manhã. A maioria de nossas crenças propriamente básicas são altamente individualizadas e, portanto, não são universalmente sancionadas. (Se você relativiza o seu critério para pessoas individuais, então você vai ter que permitir que para algumas pessoas a crença em Deus pode ser pragmaticamente indispensável!). (2) A crença de que as só as crenças universalmente sancionadas são propriamente básicas não é, em si, universalmente sancionada. Mas também não há qualquer evidência de que apenas as crenças universalmente sancionadas são propriamente básicas. Então, essa objeção não exclui a basicidade própria da crença em Deus. Sanção Universal não é superior ao critério de Plantinga, primeiro, porque Plantinga não tem um critério, e segundo, porque sanção universal cai presa às objeções acima. (Para não mencionar o fato de que, em sua opinião, enquanto nossas crenças podem ser propriamente básicas, elas não parecem ser realmente garantidas, deixando-nos em ceticismo quase total!)
Em terceiro lugar, quanto ao papel dos invalidadores ou anuladores (defeaters) de crenças propriamente básicas, a noção de um invalidador intrínseco de invalidador (intrinsic defeater-defeater) não é minha, mas de Plantinga. Um invalidador intrínseco de invalidador é uma crença que é tão poderosamente garantida que isso invalida o invalidador putativo instaurado contra ela, sem necessidade de crenças adicionais para vir ao resgate. Plantinga dá a ilustração encantadora de alguém acusado de um crime que ele sabe que não cometeu, apesar de todas as provas contra ele. Ele é racional em acreditar em sua própria inocência, apesar das evidências que corretamente convenceriam alguém de que ele é culpado. Em aplicação ao testemunho do Espírito Santo, a minha alegação é que Deus pode, de maneira tão poderosa, garantir as crenças cristãs que elas se tornam invalidadoras intrínsecas dos invalidadores apresentados contra elas, de modo que, sim, elas continuam sendo propriamente básicas e garantidas.
Crença em Deus - A racionalidade da crença teísta
Quando eu digo que é racional acreditar em Deus com base no testemunho do Espírito Santo, eu quero dizer “racional” no sentido referente à justificação ou garantia? Leia o que Plantinga diz em resposta à objeção "Filho da Grande Abóbora" no Warranted Christian Belief. Ele é enfático que a justificação é fácil de conseguir (mesmo epistemólogos de Vudu podem ser justificados em suas crenças!) e que o que ele está falando é garantia, aquilo que torna uma crença verdadeira em conhecimento. Você reclama: "Nada foi feito para mostrar que o cristianismo é verdadeiro." Ah, mas Timaeus, isso não é parte do projeto de Plantinga! Seu alvo, lembre-se, é apenas mostrar que, pelo que sabemos, seu modelo pode ser verdade. Quando você afirma, "é preciso explicar por que outras crenças propriamente básicas que são garantidas vêm a ser falsas (como crenças de memória com defeito)," você erra em pensar que tais crenças são garantidas; elas não são. Elas podem ser justificadas no sentido de que a pessoa que a defende está dentro de seus direitos racionais ou não exibe nenhum defeito cognitivo, mas ela não está garantida.
Quanto à disparidade das condições de fundamentar corretamente crenças básicas, não há nenhuma razão para pensar que tem de haver uniformidade aqui. Em qualquer caso, você interpreta mal o modelo quando você diz que "com base em algumas emoções" Plantinga está nos pedindo "para concluir" que tal e tal ser existe. Você está tratando essas experiências como algo da qual uma crença é inferida, e esse não é o modelo. Antes, essas experiências servem como gatilhos para a operação desta faculdade inata, dada por Deus, que forma a crença em Deus (e mesmo assim não necessariamente incluindo todos os atributos teológicos superlativos que você menciona, de que poucas pessoas estão conscientes). Quanto ao conteúdo das crenças cristãs, você está esquecendo do papel das Escrituras no modelo de Plantinga: é através das Escrituras que aprendemos sobre as grandes verdades que você menciona, e então o Espírito Santo considera essas verdades para nós. Nós não apenas chegamos a elas do nada; lemos delas nas Escrituras. Então, eu e Plantinga não pensamos ou propomos que "a crença no Deus mencionado acima é apenas fundamentada por uma mera experiência religiosa."
Finalmente, você está correto ao dizer que Plantinga afirma "Se o cristianismo é verdadeiro, então a fé cristã é garantida." Você está igualmente correto quando afirma que ele "diz que demonstrar o antecedente não é o seu projeto." Você, então, se queixa: "Mas se é assim, então Plantinga realmente não demonstrou nada muito diferente que as objeções de jure ao cristianismo falham." Certo é admitir que o seu projeto público tem sido um sucesso retumbante! Não é mais possível que incrédulos reclamem que os cristãos são irracionais sem justificativa, ou sem garantia em acreditar como eles fazem na ausência de evidências. Os incrédulos terão que vir para cima com refutações de crenças cristãs a fim de mostrar que tais crenças são irracionais, sem justificativa, ou sem garantia. Portanto, o seu próximo comentário, Timaeus, simplesmente não faz sentido: "Eu não consigo ver como seu modelo mostra como um cristão pode racionalmente acreditar que o cristianismo é verdadeiro." Isso é exatamente o que você acabou de admitir que ele mostra, a menos que você tenha alguns argumentos, que você ainda não tenha compartilhado, para mostrar que o cristianismo é falso.
Se eu defendo a visão de Plantinga? Essa pergunta nos leva de seu projeto público para seu projeto particular. Devo eu como cristão adotar seu modelo como uma forma de entender como as crenças cristãs são garantidas? Aqui eu tenho algumas reservas. Veja minha avaliação no capítulo sobre Epistemologia da Religião em Philosophical Foundations for a Christian Worldview [Filosofia e Cosmovisão Cristã]. Estou inclinado a colocar mais ênfase no testemunho do Espírito Santo em vez de em alguma faculdade cognitiva inata. Ainda assim, no final do dia, eu acho que Plantinga está certo que se o cristianismo é verdadeiro, então algo como o modelo é muito provável que seja verdade. Eu também acho que "Se há um testemunho do Espírito Santo, então o cristianismo é verdadeiro." E eu acho que Plantinga concordaria.
- William Lane Craig