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#50 A crença na ressurreição de Jesus seria derivada do at?

July 12, 2012
Q

Dr. Craig, sou neozelandês, faço graduação em filosofia e tornei-me um ávido leitor de teologia desde o ano passado. Em um de seus debates, o senhor ataca a perspectiva bultmaniana sobre como os cristãos primitivos passaram a crer na ressurreição de Jesus, investigando as escrituras do Antigo Testamento.

O senhor declara: “Mas o problema com isso é que essas passagens do Antigo Testamento são obscuras demais, ambíguas demais, para eles inventarem o tipo de crença na ressurreição com base nisso.”

No entanto, muitos teólogos defendem essa perspectiva como uma provável visão de como os cristãos primitivos passaram a acreditar no Cristo ressurreto, inclusive especialistas no Antigo Testamento como Lloyd Geering (perdão por puxar a brasa para a Nova Zelândia).

Minha pergunta é: como o senhor responderia aos teólogos que sustentam essa crença?

Simon

New Zealand

Dr. Craig responde


A

A perspectiva mais antiga — que vê a origem da crença dos discípulos numa investigação realizada por eles na Escritura logo após a crucificação de Jesus; essa investigação os teria levado a descobrir na Escritura a ideia de um Messias morto e ressurreto, que eles então (sinceramente) aplicaram a Jesus — foi agora abandonada na erudição do Novo Testamento, embora ainda seja encontrada expressa por estudiosos mais antigos como Geering e até mesmo, para minha surpresa, nos lábios de Bart Ehrman (veja sua declaração final de nosso debate, em que ele revela finalmente o que pensa que realmente aconteceu).

Os cristãos primitivos estavam convencidos de que a ressurreição de Jesus, bem como a sua crucificação, ocorreu, nas palavras da antiga tradição citada por Paulo em 1Coríntios 15.3-5, “segundo as Escrituras”. No relato de Lucas sobre a aparição de Jesus no caminho de Emaús, o Jesus ressurreto censura os dois viajantes: “Acaso o Cristo não tinha de sofrer essas coisas e entrar na sua glória? E, começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a seu respeito em todas as Escrituras” (Lc 24.26-27). Assim também, em seu relato da inspeção da sepultura vazia feita por Pedro e o discípulo amado, João menciona que eles não acreditavam na ressurreição de Jesus até encontrarem o túmulo vazio, exceto pelos lençóis da mortalha abandonados na sepultura: “Porque ainda não entendiam a Escritura, segundo a qual era necessário que ele ressuscitasse dentre os mortos” (Jo 20.9).

A dificuldade é que, quando indagamos “Em que partes das Escrituras estão eles pensando?”, obtemos resultados ínfimos. Tem-se sugerido Oseias 6.2 — “Depois de dois dias, ele nos revivificará; no terceiro dia nos levantará, e viveremos diante dele” —, pois faz referência ao tema do “terceiro dia”, encontrado na antiga fórmula citada por Paulo. Todavia, Oseias 6.2 nunca é citado por nenhum dos escritores do Novo Testamento, e muito menos é relacionado à ressurreição de Jesus. Nos sermões apostólicos de Atos dos Apóstolos, achamos o Salmo 16.10 interpretado nos termos da ressurreição de Jesus: “Pois não deixarás a minha vida no túmulo, nem permitirás que teu santo sofra deterioração”. Mas, se examinarmos as principais passagens do Antigo Testamento citadas nos Evangelhos com respeito à ressurreição de Jesus, encontramos o relato de Jonas e o grande peixe: “pois, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra” (Mt 12.40).

Ora, o problema da teoria em questão é que ninguém, especialmente um judeu do primeiro século, ao ler o relato de Jonas e o grande peixe, imaginaria de alguma maneira que isso estaria relacionado com o sepultamento e a ressurreição de Jesus! De forma semelhante, o mesmo se aplica ao Salmo 16.10, que dizia respeito à confiança de Davi de que Deus não permitiria que ele visse a derrota e a morte. E quanto a Oseias 6.2, o trecho não tem nenhuma relação com a ressurreição dos mortos, mas com a restauração da sorte de Israel.

A realidade é que ninguém que já não acreditasse na ressurreição de Jesus acharia nessas Escrituras algum impulso para entender que ele tinha ressuscitado dos mortos. A isso devemos acrescentar o fato de que, na crença judaica, a ressurreição dos mortos era sempre um acontecimento esperado para o fim dos tempos e que envolveria todas as pessoas, evento que obviamente ainda não ocorrera. O problema de muita gente, inclusive de alguns eruditos, é não conseguir se colocar no lugar de um judeu do primeiro século confrontado com a crucificação de Jesus — eles tendem a olhar para a situação dos discípulos através do espelho retrovisor de 2000 anos de teologia cristã, parecendo-lhes por isso natural a ideia da sua ressurreição, quando de fato é um anacronismo.

Depois que passaram a crer na ressurreição de Jesus, os discípulos puderam, então, ir às Escrituras em busca de versículos que validassem a crença e a experiência deles, e passagens como a de Jonas e o grande peixe e a do Salmo 16.10 poderiam ser interpretadas novamente à luz da ressurreição de Jesus. Mas pensar que a crença na ressurreição de Jesus tenha derivado do Antigo Testamento é pôr o carro na frente dos bois; é entender a situação exatamente de trás para frente.

Em termos de ressurreição, acrescente-se o fator tempo à obscuridade e à leitura não judaica desses textos. John Dominic Crossan, ex-presidente do cético Jesus Seminar [Simpósio de Jesus], o qual acredita que o relato da paixão de Jesus foi também extraído das Escrituras do Antigo Testamento, estima que a igreja levaria cerca de cinco a dez anos até descobrir as Escrituras necessárias para construir a história da paixão. Mas a tradição citada por Paulo em 1Coríntios 15 precede até o baixo limite estabelecido por Crosan e inclui não apenas a morte e sepultamento de Jesus, mas também sua ressurreição e aparições! Além disso, Crossan admite que, quando se trata da ressurreição de Jesus, não se pode explicar de modo semelhante que essa crença se origina das Escrituras do Antigo Testamento, porque, simplesmente, não há quaisquer materiais no Antigo Testamento suficientes para gerá-la.

Ao contrário disso, a maioria dos eruditos contemporâneos entende que a crença dos discípulos na ressurreição de Jesus teve origem no que eles experimentaram ao verem as aparições post-mortem de Jesus, conforme atesta a antiga fórmula usada por Paulo. Surge, então, a pergunta sobre como explicar tais experiências e se são elas causa suficiente para os discípulos crerem que Deus havia ressuscitado Jesus dos mortos.

Talvez você queira assistir ao DVD do meu debate com J. S. Spong (“The Great Ressurrection Debate” [O grande debate sobre a ressurreição], que também apresenta uma defesa convincente de que algo realmente dramático deve ter acontecido aos discípulos para convencê-los de que Jesus havia ressurgido dos mortos. Faço uma crítica à simplória hipótese de Spong para explicar o que foi esse “algo”. O exame mais completo sobre a crença dos discípulos na ressurreição de Jesus encontra-se no volumoso livro de N. T. Wright, The Resurrection of the Son of God [A ressurreição do Filho de Deus] (Minneapolis: Fortress Press, 2003).

Já que você é da Nova Zelândia, informo-lhe que estarei aí em junho para falar numa conferência da Universidade de Vitória a respeito do conhecimento médio, palestrando em seguida em Auckland e em outras partes. Meus anfitriões estão tentando agendar um debate sobre a ressurreição com o próprio Geering. Verifique nosso calendário neste sítio com a aproximação da data!

- William Lane Craig