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#49 Sobre o argumento a favor do projeto a partir do ajuste fino

July 12, 2012
Q

Olá, Dr. Craig o senhor é meu filósofo cristão favorito. Pelo que ouvi de suas palestras e aulas em áudio, o senhor acredita com firmeza que o projeto é a explicação mais simples para o ajuste fino do universo. Topei com um artigo de Richard Carrier “desmerecendo” o argumento do ajuste fino. Na réplica a James Hannam (bede.org.uk), Richard responde assim:

Hannam não pôde provar aqui a possibilidade de que uma constante mude enquanto as outras continuam iguais. Afinal, a alteração de uma constante pode alterar outra de forma irrevogável, alterando em grande medida qualquer conclusão que possamos tirar da modelagem de universos possíveis. Portanto, assim como Hannam adverte contra argumentos fundamentados na improbabilidade de formação da vida de forma natural, na base de que a ciência deve descobrir os meios naturais de formação de vida, assim também ele precisa ser advertido por usar o argumento do ajuste fino baseado na suposição de constantes independentes, quando a ciência talvez logo descubra, por exemplo, uma grande teoria unificadora ou uma teoria do tudo que mostre como todas as constantes estão causalmente relacionadas umas com as outras.

Constantes na natureza e quantidades arbitrárias compreendem uma grande parte do argumento do ajuste fino, de que maneira nós, cristãos que usamos esse argumento, podemos responder a acusações desse tipo? No mesmo artigo, Richard descarta esse argumento a respeito de constantes:

No século 19 havia cerca de 20 a 40 “constantes físicas”, agora há somente mais ou menos seis. Ao longo do século interveniente, comprovou-se que todas as outras constantes eram determinadas causalmente por fatores mais fundamentais. Por exemplo, o ponto de ebulição da água já foi considerado uma constante física, mas sabe-se agora que é o resultado de leis da mecânica quântica, e isso não poderia ser diferente do que é sem que também as leis da mecânica quântica sejam modificadas. Uma vez que a tendência nesse rumo é firme, seria razoável predizer que todas as constantes acabarão sendo assim explicadas. Por exemplo, visto que a constante de Plank define a menor unidade possível de espaço e tempo, talvez seja o caso de a velocidade da luz estar amarrada de forma inexorável a tal constante, de sorte que uma não pode ser modificada sem que se altere a outra.

Seria possível explicar de forma convincente todas as constantes com alguma teoria científica? Além disso, como o senhor responderia a uma objeção ao teísmo cristão, usando-se universos múltiplos, como esta?

Uma vez mais, diferentemente do teísmo, os “múltiplos universos” têm outro mérito inerente que Hannam não leva em consideração: sabemos que existe um universo — e o próprio Hannam concorda que, a princípio, universos diferentes são possíveis — e assim temos uma explicação imediata para o que é desconhecido apelando-se a uma entidade conhecida: a de que universos existem. Por outro lado, o teísta procura explicar o mesmo desconhecido recorrendo a uma entidade totalmente desconhecida, ou seja, apela a uma entidade que jamais foi observada cientificamente e que é passível de não existir de maneira nenhuma. Como pode fazer mais sentido apelar a uma entidade tão estranha e não observada quando podemos explicar as mesmas coisas recorrendo a uma entidade cuja existência todos concordam? Visto que existe um universo, e que outros são possíveis, não é plausível que existam outros universos? Com certeza, não podemos saber que eles existem. Todavia, não podemos saber que não existem e, por isso, nenhum argumento a favor da existência de Deus que suponha a inexistência deles é argumento de ignorância. Uma vez mais, o agnosticismo é a única consequência justificável dessa linha de raciocínio.

O mero fato de o nosso universo existir torna a hipótese de múltiplos universos mais crível do que a hipótese de Deus, só porque, nas palavras de Richard, “Deus é uma entidade desconhecida, que não pode ser observada cientificamente”?

Seria proveitoso para mim, alguém que sempre recorre ao argumento do ajuste fino, bem como para outros cristãos, ter respostas para essas possíveis objeções que podem nos ajudar quando testemunhamos em nossa vida pessoal.

Que Deus o abençoe, Dr. Craig.

Christofer

United States

Dr. Craig responde


A

Chris, embora eu não esteja familiarizado com a troca de ideias entre Carrier e Hannam que você cita, permita-me comentar a respeito das questões levantas pela sua pergunta.

O fato de o ajuste fino do universo favorecer a existência de vida inteligente é algo bem definido e solidamente estabelecido e não deveria ser alvo de controvérsia. Por “ajuste fino” não se quer dizer “projeto”, mas simplesmente que as constantes e grandezas fundamentais da natureza se enquadram numa gama perfeita de valores que torna o nosso universo favorável à existência de vida. Caso tais constantes e grandezas fossem alteradas, mesmo que fosse só a espessura de um cabelinho, o delicadíssimo equilíbrio seria perturbado e não seria possível a existência de vida.

Carrier está equivocado ao afirmar que há somente cerca de seis constantes físicas na física contemporânea. Pelo contrário, o modelo padrão de física das partículas envolve algumas dúzias ou mais. O número seis pode ter sido derivado do livro de Sir Martin Rees, Just Six Numbers [Apenas seis números] (Nova Iorque: Basic Books, 2000), no qual o autor concentra a atenção em seis dessas constantes cujo ajuste fino delas é indispensável para que sejam favoráveis à nossa existência. Todavia, isso é apenas uma seleção das constantes que existem; e à medida que a física avança têm sido descobertas novas constantes, desconhecidas no século 19, como a denominada constante cosmológica, que deve estar ajustada exatamente em uma parte em 10120, para que possa existir vida.

Além dessas constantes, há também as grandezas arbitrárias que servem como as condições delimitadoras em que operam as leis da natureza, como o nível de entropia no universo primevo, cujo ajuste fino é favorável à existência de vida. Se fosse possível falar em um padrão, seria o de que o ajuste fino, como um calombo teimoso sob um tapete, simplesmente não vai desaparecer: quando é suprimido em um lugar, arrebenta em outro. Ademais, embora algumas constantes possam estar relacionadas a ponto de a mudança de grandeza em uma perturbar a grandeza de outra, outras constantes, para não mencionar as condições delimitadoras, não são interdependentes assim. Seja como for, não há nenhuma razão para suspeitar que seja uma felicíssima coincidência que essas mudanças se compensariam mutuamente com tanta exatidão que na esteira dessas alterações ainda seria possível a existência de vida. Parece que o ajuste fino veio para ficar.

Ora, há apenas três maneiras de explicar esse notável ajuste fino do cosmos favorável à existência de vida inteligente: necessidade física, acaso ou projeto. O debate moderno orbita em torno de qual dessas maneiras é a melhor explicação para o ajuste fino observado. Carrier parece preferir qualquer alternativa, menos a de projeto.

A necessidade física é a hipótese de que as constantes e as grandezas deveriam ter os valores que têm, para que o universo tivesse como necessidade física o favorecimento da vida. Ora, diante dessa hipótese, tal alternativa é extraordinariamente implausível. Ela exige que acreditemos que seja fisicamente impossível a existência de um universo não favorável à existência de vida. O que parece realmente possível. Se as proporções de matéria primordial e antimatéria fossem diferentes, se o universo tivesse se expandido só um pouco mais lentamente, se a entropia do universo fosse marginalmente maior, quaisquer desses ajustes e mais outros teriam impedido a existência de um universo favorável à vida, todavia tudo parece perfeitamente possível fisicamente. Ao afirmar que o universo deve ser favorável à vida, a pessoa adota uma linha radical que exige provas robustas. Mas não existe prova nenhuma; essa alternativa é meramente proposta como uma possibilidade pura e simples.

Às vezes, os físicos falam de uma teoria de tudo (TDT), que ainda está para ser descoberta. Mas essa nomenclatura, bem como muitos dos nomes coloridos dados às teorias científicas, é bastante desorientadora. Na verdade, a TDT tem o objetivo limitado de fornecer uma teoria unificada das quatro forças fundamentais da natureza, para reduzir a gravidade, o eletromagnetismo, a força forte e a força fraca a uma força fundamental transportada por uma partícula fundamental. Essa teoria, como esperamos, há de explicar por que essas quatro forças assumem as grandezas que têm, mas jamais procurará explicar literalmente tudo.

Por exemplo, na teoria das supercordas ou Teoria M, candidata mais promissora à TDT hoje, o universo físico deve ter 11 dimensões. Todavia, a razão para a existência dessa quantidade exata de dimensões não é tratada pela teoria. Além disso, a Teoria M não é capaz de predizer com exclusividade os valores das constantes da natureza. Acontece que a teoria das cordas permite um “cenário cósmico” com cerca de 10500 universos diferentes regidos pelas presentes leis da natureza, mas com outros valores para as constantes físicas. Além disso, embora possa haver no cenário cósmico um número imenso de universos possíveis na região favorável à existência de vida, nada obstante essa mesma região será inconcebivelmente minúsculo em comparação com o cenário inteiro, por isso a existência de um universo favorável à existência de vida é fabulosamente improvável. De fato, considerando-se o número de constantes que exigem ajuste fino, em nada é evidente que 10500 universos possíveis sejam suficientes para garantir que ao menos um mundo favorável à vida aparecerá por acaso no cenário!

Tudo o que foi dito tem a ver apenas com as constantes. Ainda não existe nada que explique as grandezas arbitrárias introduzidas como condições de limites. A condição de entropia extraordinariamente baixa do universo primitivo seria um bom exemplo de uma grandeza arbitrária que parece ter sido introduzida na criação como condição inicial. Não há razão para entender que mostrar que cada constante e grandeza são fisicamente necessárias seja nada mais que uma alucinação.

Assim, e que tal a alternativa do acaso? É essa a hipótese de “universos múltiplos” mencionada por Carrier. A hipótese dos universos múltiplos é em essência um esforço dos adeptos do acaso para multiplicar seus recursos probabilísticos a fim de reduzirem a improbabilidade de ocorrências de ajuste fino. (Quanto mais voltas der a roleta, maior é a possibilidade de dar o seu número!) O próprio fato de cientistas normalmente sensatos precisarem recorrer a uma hipótese tão incrível, é uma espécie de elogio ambíguo à hipótese do projeto. Mostra que o ajuste fino clama de fato por uma explicação. Mas a hipótese dos múltiplos universos seria tão plausível quanto a hipótese do projeto?

Não estou nada impressionado com o apelo de Carrier à familiaridade como um argumento para preferir a hipótese dos universos múltiplos. Já que não temos nenhuma experiência com outros universos — a hipótese de universos múltiplos é uma afoita especulação da cosmologia metafísica. A nossa familiaridade com o nosso universo não serve de nenhuma ajuda para garantir o apelo a outros universos como entidades familiares — ao menos não mais do que a hipótese do projeto. Afinal, embora não estejamos de igual modo familiarizados com projetistas de universos, é certo que estamos familiarizados com mentes e produtos de projeto inteligente, de modo que recorrer a um projetista como a melhor explicação para o ajuste fino é apelar a uma entidade explicativa familiar. Na verdade, quanto a isso, os teístas às vezes têm sido acusados de antropomorfismo!

Além disso, conquanto não tenhamos nenhuma evidência da existência de universos múltiplos, temos razões independentes para acreditar na existência de um projetista ultraterrestre do universo, a saber, os outros argumentos a favor da existência de Deus, que tenho defendido em outros lugares.

Finalmente, Carrier erra quando opina que não podemos saber que universos múltiplos não existem e, portanto, que o agnosticismo é a única conclusão justificável. (É interessante comparar essa conclusão com a frequente alegação ateísta de que, na falta de evidência favorável à existência de Deus, devemos concluir que Deus não existe! Percebe a inconsistência?) Ele não está ciente das objeções potencialmente letais à hipótese de universos múltiplos apresentadas por físicos como Roger Penrose, da Universidade de Oxford (The Road to Reality [A via para a realidade], Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 2005, p. 762-765). Em termos simples, se nosso universo for um mero membro de um conjunto de mundos de universos variáveis aleatoriamente, então é esmagadoramente mais provável que estivéssemos observando um universo muitíssimo diferente do que o que observamos de fato.

Penrose calcula que as probabilidades de a condição de baixa entropia do nosso universo ser obtida apenas por acaso são da ordem de 1:1010(123), um número inconcebível. As probabilidades de nosso sistema solar ser formado instantaneamente pela colisão aleatória de partículas é, por outro lado, cerca de 1:1010(60), um número imenso, mas inconcebivelmente menor do que 1010(123). Em comparação, Penrose chama-o de “ninharia”! Por isso, se nosso universo não fosse mais do que o membro de uma coleção de mundos ordenados aleatoriamente, então é bem mais provável que deveríamos estar observando um universo muito menor. Universos observáveis desse tipo são bem mais abundantes no conjunto de universos do que mundos como o nosso e, portanto, deveriam ser observados por nós se o universo fosse somente o membro aleatório de um conjunto de mundos.

Ou, ainda, se nosso universo for apenas algum membro aleatório de um conjunto de mundos, então deveríamos estar observando eventos altamente extraordinários, como o de cavalos passando a existir do nada de repente e desaparecendo de súbito no nada por causa de colisões aleatórias, ou o de máquinas de moto-perpétuo — já que essas coisas são bem mais prováveis do que todas as constantes e grandezas da natureza calharem de cair por acaso na gama infinitesimal de valores capaz de permitir a existência de vida. Uma vez que não dispomos de observações desse tipo, o fato desmente radicalmente a hipótese dos múltiplos universos. Penrose conclui que as explicações para os múltiplos universos são tão “impotentes” que apelar para elas para explicar as características especiais do universo é na verdade um “entendimento equivocado”.

Uma vez que a alternativa do acaso fica de pé ou cai com a hipótese dos universos múltiplos, vê-se que essa alternativa é por demais implausível. Parece, portanto, que o ajuste fino do universo é plausível não em razão de necessidade física ou de acaso. Logo, o ajuste fino deve-se então ao projeto, a não ser que seja possível mostrar que a hipótese de projeto é ainda mais implausível do que seus concorrentes. Quanto a essa questão, veja minha crítica à objeção de Dawkins à inferência do projeto na seção de Perguntas e Respostas.

- William Lane Craig