#839 A imagem de Deus
June 26, 2023Caro Dr. Craig,
Ao estudar a literatura sobre antropologia bíblica para a minha monografia de graduação, comecei recentemente a lidar com o seu trabalho sobre o Adão histórico, de que tenho gostado muito. Um aspecto que parece receber menos atenção dos críticos é o seu exame da imagem de Deus.
O senhor critica a visão funcionalista de Middleton, segundo a qual “o fato de algo ter um propósito necessário e inseparável, simplesmente, não é a mesma coisa que a definição de tal coisa”.
Não estou entendendo o que o senhor quis dizer com “coisa”, neste caso. Seria a “imagem”? Se sim, por que é que a definição da imagem não poderia justamente ser: a função de representar a Deus no papel de domínio terreno.
Agradeço os esclarecimentos.
Valeu,
Thomas
Reino Unido
Dr. Craig responde
A
Agradeço por chamar a atenção para esta seção do livro que costuma ser ignorada, Thomas! Estou usando a palavra “coisa” no sentido mais geral possível para referir-se a algo. Sinônimos poderiam ser “ente”, “ser” ou “entidade”. Não se pretende nenhuma sutileza aí. Só estou falando de algo.
Em Gênesis 1.26-27, o ser criado à imagem e semelhança de Deus serve para diferenciar o homem de todas as outras criaturas terrenas. Serve para dizer-nos o que é o homem. A questão, então, passa a ser: o que significa dizer que o homem é criado à imagem e semelhança de Deus? Middleton diz que significa que ao homem foi atribuída a função de servir como o representante real de Deus na terra. O meu argumento é que, embora todos concordemos que o homem tenha, sim, tal função, a especificação da função de algo não é o mesmo que dar a definição de tal coisa. Middleton reconhece o argumento, mas diz que, neste caso, a função é necessária e inseparável do homem e, portanto, serve para definir o que é o homem. A crítica que faço da réplica de Middleton é que o fato de algo ter um propósito necessário e inseparável não é o mesmo que dar uma definição de tal coisa. Por exemplo, um automóvel tem o propósito necessário e inseparável de transportar pessoas. Porém, esta é dificilmente a definição de “automóvel”! Uma carroça puxada por cavalos também satisfaz a tal definição. A especificação do propósito essencial de algo diz para o quê é a coisa, mas não diz o que é a coisa.
Assim, no caso da criação que Deus faz do homem, à sua imagem e semelhança, Middleton não consegue mostrar que o fato de o homem ter a função que o homem reconhecidamente tem, sirva para definir o que é o ser humano. Sim, é possível dizer: “a definição da imagem... poderia justamente ser: a função de representar a Deus no papel de domínio terreno”. No entanto, não nos foi dada nenhuma razão para pensar que é isto que significa “a imagem de Deus”, além da necessidade e inseparabilidade desta função em relação à humanidade. Algo mais é preciso. Felizmente, Middleton tem mais a dizer, com o que interajo no livro.
- William Lane Craig