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#838 “A Trindade viajante no tempo” segundo Leftow

June 26, 2023
Q

Olá, Dr. Craig.

Recentemente, estava lendo o artigo de Brian Leftow no livro Philosophical and Theological Essays on the Trinity [Ensaios filosóficos e teológicos sobre a Trindade] (no qual o senhor também publicou um texto fantástico) e fiquei curioso se pensa ser útil a proposta que ele faz da “analogia da viagem no tempo” para a Trindade (p. 174). Acho fascinante a ideia e gostaria de usá-la para ajudar outros crentes a entenderem este conceito, mas quero ter certeza de que não estaria causando problemas inesperados.

Muito obrigado por tudo que faz!

Nolan

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Caramba, não me provoque para falar do assunto, Nolan! Tenho uma discussão extensa, no meu projeto de teologia filosófica sistemática, da doutrina de Brian Leftow acerca da Trindade com o seu apelo à analogia da viagem no tempo. Na minha opinião, é o modelo mais cômico da Trindade proposto hoje em dia! Dificilmente o acharia digno de discussão, a não ser pelo fato de que oferece o modelo mais plausível para o modelo da trindade antissocial, da Trindade com um único ego. Permita-me resumir, de modo sucinto, o que penso.

Os dados bíblicos ligados às relações “Eu-Tu” nas quais se encontram as pessoas da Trindade, bem como as suas interações pessoais mútuas, constituem objeção esmagadora às teorias da Trindade de um só ego, de maneira geral. Mas Leftow explica estes dados com a analogia do modo em que um viajante no tempo pode, ao seguir até ao passado laços de tempo, encontrar-se e interagir consigo mesmo, até mesmo retornando ao mesmo ponto no tempo com frequência arbitrária, de maneira que, aparentemente, múltiplas pessoas estejam a interagir, quando, de fato, há apenas uma pessoa presente múltiplas vezes, interagindo consigo mesma. Leftow propõe que Deus, igualmente, vive a Sua vida em três distintas correntes de vida infinitas como Pai, Filho e Espírito Santo que se sobrepõem e, portanto, permitem a interação pessoal. Assim, quando lemos nos Evangelhos que, no batismo de Jesus, o Pai diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”, e o Espírito Santo desce sobre o Jesus, o que temos é Deus a falar e interagir consigo mesmo por três vezes. Como o viajante no tempo pode interagir consigo durante períodos de sobreposição, assim também Deus pode interagir consigo mesmo das formas descritas nos Evangelhos.

Ora, Leftow não acha que Deus, como o viajante no tempo, literalmente vá atrás de laços de tempo para encontrar-se consigo mesmo repetidas vezes. Não obstante, a analogia da viagem no tempo é crucial para a plausibilidade da explicação de um único ego segundo Leftow. Na ausência da analogia dada pela viagem através de laços de tempo, não resta nada para tornar plausível a explicação de Leftow. Assim, Leftow admite que ele deve defender a possibilidade metafísica da viagem no tempo.

Mas será que ele o faz com sucesso? Acho que não. Em defesa da possibilidade metafísica da viagem no tempo, Leftow responde brevemente a duas objeções convencionais à viagem no tempo. A primeira diz respeito aos famosos paradoxos da viagem no tempo. O mais conhecido deles é o chamado paradoxo do avô, segundo o qual o viajante no tempo ruma ao passado antes do próprio nascimento e mata o seu avô, prevenindo, pois, a sua própria existência e, consequentemente, a sua viagem ao passado. Leftow evitaria os paradoxos ao manter que é metafisicamente possível que o viajante no tempo não tenha liberdade libertária, não sendo, portanto, capaz de matar o seu avô.

A resposta de Leftow parece duplamente defeituosa. Primeiramente, a negação da liberdade libertária não basta para evitar o problema, porque os cenários paradoxais absolutamente não precisam envolver agentes libertários, mas, conforme mostra John Earman, podem ser gerados por máquinas de viagem no tempo. Talvez Leftow diga ser possível que Deus determine que tais máquinas jamais sejam construídas bem como que agentes pessoais jamais tentem envolver-se em atos autodestrutivos. Porém, isto leva ao próximo ponto.

Em segundo lugar, o que Leftow vislumbra é, sem dúvida, metafisicamente impossível. Ele nos está pedindo para supor que Deus possa criar criaturas que sejam, aparentemente, de qualidade semelhante às pessoas humanas, mas que são, na realidade, fantoches totalmente determinados por Ele. Parece algo moralmente inconcebível e, portanto, incompatível com o caráter moral de Deus.

A segunda objeção convencional, ainda mais vigorosa do que os paradoxos, é que a viagem no tempo pode levar a situações a envolverem circularidade explanatória viciosa. Considere um caso em que o viajante no tempo confronte o seu ego mais jovem no passado. Suponha ainda que o ego mais jovem receba do seu ego mais velho as informações sobre o modo de construir uma máquina do tempo, sendo esta a sua única fonte destas informações. Em tal caso, o ego mais jovem obtém as informações do seu ego mais velho, e o ego mais velho a obtém do ego mais jovem. Embora não haja nenhuma contradição lógica envolvida em tal situação, sem dúvida alguma, este tipo de causação circular é metafisicamente impossível. A resposta de Leftow é, simplesmente, aceitar que tais situações explanatórias circulares possam acontecer, a menos que algum Princípio de Razão Suficiente incrivelmente sólido seja verdade necessária. Leftow parece, porém, equivocado nesta afirmação. Não é preciso adotar versões patentemente sólidas do PRS para estimar, de modo plausível, que tais situações circulares viciosas sejam metafisicamente impossíveis.

Parece-me, portanto, que Leftow não consegue reverter a força das objeções convencionais a cenários de viagem no tempo. Porém, isto é, de fato, apenas parte da história — de fato, eu diria, uma parte menor. Há significativas razões independentes, nem sequer consideradas por Leftow, para rejeitar a viagem no tempo por ser impossibilidade metafísica.

Em primeiro lugar, a viagem no tempo se exclui pela objetividade do tempo e do devir temporal. Os defensores da viagem no tempo são explícitos na sua adoção do realismo de espaço-tempo ou do quadridimensionalismo, que acarreta a teoria aflexiva do tempo. Porém, o templo é, plausivelmente, flexivo, e o devir temporal é real; e, portanto, a viagem no tempo desde o futuro rumo ao passado é metafisicamente impossível.

Em segundo lugar, o cenário da viagem no tempo segundo Leftow vai de encontro ao princípio da indiscernibilidade dos idênticos, o princípio de que, se X e Y forem idênticos, eles partilham de todas as mesmas propriedades. O conflito surge em decorrência do chamado problema dos intrínsecos temporários. O problema dos intrínsecos temporários diz respeito à questão de como um objeto idêntico pode existir em dois tempos diferentes com diferentes propriedades. O teórico do tempo aflexivo já tem uma solução: o viajante no tempo é, realmente, um objeto quadridimensional, e duas partes temporais do viajante no tempo aparecem simultaneamente no tempo público e, em virtude da sua discernibilidade (por exemplo, diferentes memórias), não são idênticos. Assim, a indiscernibilidade de idênticos é preservada.

O próprio Leftow nega, contudo, que o viajante no tempo seja um objeto quadridimensional composto de partes temporais. Assim como o teórico do tempo flexivo, Leftow sustenta que o todo do viajante no tempo aparece em um momento, e não apenas uma parte temporal dele. Segundo esta explicação, a pessoa idêntica aparece duas vezes, no mesmo momento, com propriedades discerníveis. A situação se exclui pela indiscernibilidade de idênticos. É impossível que a mesma pessoa tenha diferentes propriedades ao mesmo tempo. Segue-se que cenários de viagem no tempo, tal qual o contemplados por Leftow, são impossibilidade metafísica. Leftow percebe que ele tem aí um problema e busca valentemente desembaraçar-se dele, mas, a meu ver, sem sucesso.

Tudo isto foi dito em relação à possibilidade metafísica da viagem no tempo rumo ao passado de alguém. Mas agora é preciso indagar se até mesmo aceitas as suposições dele o modelo de Leftow oferece uma explicação plausível dos dados bíblicos associados às relações de Pai, Filho e Espírito Santo. Encaro o modelo de Leftow seriamente, porque oferece a melhor chance de conciliar a visão da Trindade de um ego com os relatos bíblicos. Porém, embora seja a melhor das piores, a teoria de Leftow não faz jus às relações pessoais e às interações pessoais entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não é crível que a pessoa que morre na cruz seja a mesma pessoa que enviou o Filho ao mundo. William Hasker protestou corretamente:

Nos Evangelhos, temos o espetáculo de Deus-como-Filho a orar a si mesmo, a saber, Deus-como-Pai. Talvez o mais contundente de tudo (e não deveria ser nenhuma surpresa) sejam as palavras de abandono na cruz: “Deus meu, por que me desamparaste?”. Segundo a visão que estamos considerando, elas soam como: “por que Eu-como-Pai rejeitei a Mim-mesmo-como-Filho?”. Para alguns de nós, simplesmente não parece ser o que os Evangelhos estão a dizer. — Metaphysics and the Tri-Personal God [Metafísica e o Deus tripessoal] (Oxford University Press, 2013, p. 118).

Leftow responde que, caso se suponha a coerência dos cenários de viagem no tempo, a pessoa “não verá nada de tão ultrajante assim numa história de uma pessoa, em dado momento da sua vida, a implorar à mesma pessoa em outro momento”. Deixemos de lado o ponto discutível da coerência ou não dos cenários de viagem no tempo. Podemos, de fato, imaginar uma parte temporal de um viajante no tempo a implorar a uma parte temporal posterior que não atire nele, por exemplo; porém, só posso concordar com Hasker que isto não parece ser o que os Evangelhos estão a dizer sobre o Pai e o Filho. Será que devemos, realmente, entender estas narrativas como a conversa de Deus consigo mesmo? A resposta satírica de Tertuliano ao modalismo parece pertinente: “Se quer que eu creia ser Ele tanto Pai quanto Filho, mostre-me alguma outra passagem onde se declara: ‘O Senhor disse a Si mesmo: Eu sou meu próprio Filho, hoje me gerei”’.

Os Evangelhos, aparentemente, retratam o Pai, o Filho e o Espírito Santo em relações interpessoais. Não há nenhuma justificação para negar aparências e importas às narrativas análogos da viagem no tempo às três pessoas. Deveras, fazê-lo torna as narrativas do Evangelho acerca das interrelações do Pai, Filho e Espírito Santo um fingimento e engano indignos de Deus.

- William Lane Craig