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#118 A Necessidade de Deus

September 25, 2014
Q

Dr. Craig,

Eu realmente quero aprender mais sobre o teísmo. Entretanto, me deparei com um obstáculo intelectual no meio do caminho quando refletia sobre a existência necessária de Deus. Eu entendo o que significa uma entidade existir necessariamente em um sentido lógico. Porém, quando você atribui necessidade metafísica a Deus (necessidade de re), meu cérebro fica confuso.

Da forma como eu entendo, quando você diz que Deus existe necessariamente no sentido metafísico (de re), você quer dizer que em todos os mundos em que Deus existe, Deus tem que existir. Outros acadêmicos teístas reinterpretam esse mesmo ponto entendendo que o que ele quer dizer é que a existência de Deus é parte de Sua essência. Mas o que isso quer dizer afinal? Como eu devo contrastar isso com a existência necessária no sentido lógico? Além do mais, assumindo que existência é uma propriedade, não seria o caso que você, eu e todas as outras pessoas temos a existência como parte de nossa essência? Afinal de contas, parece plausível que não exista um mundo possível onde eu resido e não existo. Portanto, a propriedade da existência é parte da minha essência.

Finalmente, você acredita que é logicamente possível que Deus não exista? Por favor, explique sua resposta.

Mikhal

United States

Dr. Craig responde


A

Entender a necessidade de Deus é fundamental para entendermos quem Deus é; portanto, sua pergunta é vital, Mikhal. Acho que parte da sua confusão pode ser simplesmente devido a imprecisões terminológicas, então vamos tentar esclarecê-las.

Quando filósofos falam de necessidade/possibilidade metafísica, eles estão pensando em termos de uma modalidade que fica em algum lugar entre a modalidade lógica estrita que caracteriza as leis da lógica e a modalidade física mais abrangente que caracteriza o que é permitido pelas leis da natureza e por seus limites. Possibilidade metafísica tem a ver com o que é atualizável ou realizável, o que realmente pode ser. Assim, por exemplo, eu diria que é metafisicamente possível que eu pudesse ter tido um corpo de jacaré, mesmo que tal coisa não seja fisicamente possível. Mas é metafisicamente impossível que eu pudesse realmente ter sido um jacaré em vez de um ser humano. Necessidade metafísica tem a ver com como as coisas/circunstâncias/situações devem ser, embora sua negação não envolva uma contradição. Por exemplo, eu acho que é metafisicamente necessário que tudo que começa a existir tem uma causa, embora não haja inconsistência lógica em dizer que certa coisa veio à existência sem uma causa. Se esta modalidade metafísica lhe parece um tanto quanto vaga, você está certo! O que nós tomamos como metafisicamente necessário/possível depende de nossas intuições sobre esses assuntos.

Já a modalidade de re (do latim, que quer dizer pertencente a algo) tem a ver com as propriedades essenciais de algo. Quando se diz que uma propriedade pertence à essência de algo ou é essencial a essa coisa, isto significa que a coisa não poderia deixar de ter aquela propriedade e ainda permanecer sendo a mesma coisa. Se algo perde uma de suas propriedades essenciais, então essa coisa deixa de existir. Uma vaca, por exemplo, tem a propriedade essencial de ser um animal. Se ela fosse abatida e moída para ser transformada em hambúrguer, então ela deixaria de ser uma vaca. Propriedades que uma coisa tem e que não são essenciais a ela são chamadas de propriedades contingentes.

Deste modo, necessidade metafísica e necessidade de re não são a mesma coisa. Quando dizemos que Deus é metafisicamente necessário queremos dizer que é impossível que Ele falhe em existir. Esta é uma afirmação com implicações muito maiores do que “em todos os mundos em que Deus existe, Deus tem que existir”. Quando você pára para pensar, tudo que existe deve ter a propriedade de existir em todos os mundos nos quais ele existe! Então você está certo quando diz que você, eu, e todas as outras pessoas temos existência como parte da essência nesse sentido. Mas a afirmação aqui é que Deus existe em todos os mundos possíveis. O que Deus tem que nós não temos, portanto, é a propriedade da existência necessária. E Ele tem esta propriedade de re, como parte de Sua essência. Deus não pode não ter a propriedade de existência necessária e ser Deus. Claro que, se algo tem a propriedade de existência necessária, ele não pode perder esta propriedade, já que, se ele perdesse, haveria um mundo possível no qual ele não teria existência necessária, o que significa que, na verdade, ele nunca foi necessariamente existente!

(Fique atento, porém, para o fato de que quando teólogos medievais falavam de existência como parte da essência de Deus apenas, eles estavam usando a palavra “essência” de uma forma diferente. Para eles a essência de algo definia o que essa coisa era. Na visão deles apenas Deus tem existência essencialmente, já que todos os outros seres são contingentes e, portanto, não são definidos como algo existente).

Assim, respondendo sua pergunta, é logicamente possível que Deus não exista? Não no sentido de possibilidade metafísica! Não existe uma contradição lógica estrita na declaração “Deus não existe”, assim como não existe uma contradição lógica estrita ao dizer “Jones é um solteiro casado”, mas as duas situações são irrealizáveis. Assim, é uma necessidade metafísica que Deus exista.

Nós temos aqui a semente do argumento ontológico em favor da existência de Deus. Pois se é possível que Deus exista, existe um mundo possível em que Deus tem existência necessária. Mas então Ele existe em todos os mundos, incluindo este. Dessa forma, o ateu é levado à incômoda posição de ter que dizer que a existência de Deus é impossível. Não é suficiente dizer que, de fato, Deus não existe; o ateu precisa defender que é impossível que Deus exista - uma afirmação bem mais radical!

- William Lane Craig