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#17 A objeção de Barker ao argumento kalam

July 11, 2012
Q

Caro Dr. Craig,

Tenho grande apreço pela maior parte do seu trabalho e acho o argumento kalam muito persuasivo. Todavia, conforme sugere o ateu Dan Barker, há uma dificuldade ligada à ideia de uma falácia circular nesse argumento.

Ele afirma que o argumento se torna circular se entendermos a primeira premissa da seguinte maneira:

Há duas categorias de seres: a que tem um começo, e a que não tem.

Baker comenta que, se na última categoria existe apenas um único membro, ela torna-se, portanto, um sinônimo de Deus e exigiria mais um membro nessa classe para escapar à conclusão circular.

Sinceramente,

Dave

United States

Dr. Craig responde


A

Se esse for realmente o argumento de Barker, então ele precisa voltar à estaca zero. A primeira premissa do argumento cosmológico kalam é:

1. Tudo o que passa a existir tem uma causa.

A declaração que você cita nada diz sobre a exigência de que aquilo que passa a existir precisa ter uma causa. Portanto, as declarações não são sinônimas. Se você substituir (1) pela (alegada) premissa de Barker, então o argumento cosmológico kalam torna-se patentemente inválido. Afinal, a premissa de Barker e

2. O universo passou a existir.

não levaria à conclusão

3. Logo, o universo tem uma causa.

Assim, é evidente que a substituição sugerida tem significado diferente de (1).

Na verdade, a (alegada) premissa de Barker é só uma aplicação da lei do terceiro excluído: (A ou não A). Todas as coisas têm um começo ou não têm começo nenhum. Como poderia essa questão logicamente necessária ser uma petição de princípio? Suponho que seria se você estivesse procurando provar a lei em si, mas é evidente que esse não é o objetivo.

Ora, em relação à alegação de que, se Deus é o único membro da classe de coisas que não passaram a existir, então “tudo que não passou a existir” se torna sinônimo de “Deus”, não é de outro modo uma confusão entre sentido e referência. Se Deus for o único membro da classe das coisas sem começo, então as duas expressões têm o mesmo referente, ou seja, elas tratam do mesmo objeto. Contudo, isso não mostra jamais que as duas expressões têm o mesmo significado. Se tivessem, então, ao se saber que uma declaração é verdadeira, se saberia que a outra também o seria, o que, obviamente, não é o caso.

Finalmente, parece-me que o (pseudo-)Barker considera a sua premissa substituta com uma declaração existencial. Ele parece pensar que a sua premissa torna obrigatória para nós a existência de seres que passam a existir e a existência de Deus, o que, imagina ele, é uma petição de princípio para a existência de Deus. Barker não consegue compreender a própria premissa. Esse “existir”, no máximo, nos compromete com a existência de classes (ou, como diz ele, categorias). Mas a classe de coisas que não têm começo poderia estar vazia. Portanto, não há a obrigatoriedade da existência de Deus. Em qualquer caso, se houvesse tal obrigatoriedade, acrescentar outro membro a tal classe em nada tornaria a premissa uma petição de princípio, uma vez que a existência de Deus seria pressuposta.

Acho que o termo “existe” na premissa dele é apenas um recurso retórico. A premissa deveria ser entendida como a defesa de que “Tudo ou tem ou não tem um começo”. É o que se denomina de declaração quantificada universalmente e, como tal, não cria nenhuma obrigatoriedade existencial.

Essa objeção é tão ruim que não posso deixar de pensar que você não entendeu Barker corretamente.

- William Lane Craig