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#286 A Resposta de Sean Carroll para o Podcast do RF

May 16, 2015
Q

Oi, eu vi este site enquanto navegava na internet que pretende refutar os podcasts de William Lane Craig sobre Sean Carroll. Você pode, por favor, me responder de volta e me mostrar se este site pode ser refutado?

Deixe o Universo Ser o Universo

por Sean Carroll

Meu artigo no Blackwell Companion to Science and Christianity [Compêndio

Blackwell para Ciência e Cristianismo], que pergunta: "Será que o Universo precisa de Deus?" (e responde "Não"), recebeu um pouco atenção na semana passada, graças a um artigo de Natalie Wolchover que foi escolhido pelo Yahoo , MSNBC, HuffPo, e outros lugares. Como resultado, pontos de vista que são bastante comuns por aqui atingiram um público um pouco diferente. Eu comecei a receber mais e-mails do que o habitual, assim como um par de telefonemas, e algumas respostas on-line. Uma amostra representativa:

• "Sean Carroll, servo de Satanás [...]"

• "Deus tem uma maneira de trazer Seu julgamento para aqueles que zombam Dele ... John Lennon declarou: "O cristianismo vai se acabar, vai desaparecer." Lennon foi baleado seis vezes depois de dizer isso [...] Marilyn Monroe disse a Billy Graham depois de Graham dizer que o Espírito de Deus o havia enviado para pregar a ela: "eu não preciso do seu Jesus". Uma semana depois, ela foi encontrada morta em seu apartamento".

• "Vejo você no inferno".

• "Talvez DEUS é apenas um CÃO que você vai encontrar quando você está andando na praia tentando descobrir como tirar a areia de sua bunda".

Admito que o último é um pouco difícil de interpretar. Os outros eu acho que são bastante simples.

A resposta mais temperado veio do teólogo William Lane Craig (um colega contribuinte do Blackwell Compêndio) em seu podcast do Reasonable Faith. Mencionei Craig uma vez antes, e aqui podemos vê-lo em ação. Eu não irei tentar uma refutação ponto por ponto dos seus comentários, mas eu queria destacar os dois pontos que eu acho que são mais centrais para o que ele está dizendo.

Um ponto que ele faz repetidamente - na verdade a ideia fundamental de onde tudo mais que ele tem a dizer flui - é que o relato naturalista da forma que eu defendo simplesmente não explica por que o universo existe, e que em meu ensaio eu nem sequer tento. O nosso velho amigo, a Pergunta Existencial Primordial, ou Por que existe algo em vez de nada?

Eu tenho que admitir que estou um pouco perplexo aqui. Acho que é literalmente verdade que eu não ofereço uma razão do porquê existe algo em vez de nada, mas é completamente falso que eu ignoro a questão. Há uma seção inteira do meu artigo, intitulada "Justificando o mundo", que aborda precisamente este ponto. É mais de mil palavras longo. Até mesmo menciono o Craig pelo nome! E ele parece não ter notado que esta seção estava lá. (Entre meus pecados menores, eu estou feliz em confessar que eu sempre ia ver primeiro para ver se meu nome iria aparecer no artigo de outra pessoa. Aparentemente nem todos trabalham dessa forma.) Tudo estaria bem - talvez até interessante - se ele tivesse discordado do argumento e dirigindo-se a ele, mas fingir que ele não está lá é intrigante. (O podcast é anunciado como "Part One", então talvez esta questão será abordada na segunda parte, mas eu ainda não entenderia a afirmação na primeira parte que eu ignorei a pergunta.)

A ideia é simples, se podemos reduzi-la à essência: algumas coisas acontecem por "razões", e outras não, e você não começa a exigir que esta ou aquela coisa tenha uma razão. Algumas coisas simplesmente são. Alegações do contrário são apenas afirmações, e nós somos tão livres para ignorá-las como você é para afirmá-las. O segundo ponto importante que Craig faz é uma reivindicação que eu ignorei algo importante: a saber, o teorema da singularidade Borde-Guth-Vilenkin. Este é o pedacinho favorito de Craig da cosmologia, porque ele pode ser usado para argumentar que o universo teve um começo (em vez de esticar infinitamente longe para trás no tempo), e Craig é realmente dedicado à ideia de que o universo teve um começo. Como cientista, eu não sou realmente dedicado a qualquer cenário cosmológico em especial, então no meu artigo eu tentei falar bastante tanto sobre as "cosmologias do começo" quanto as "cosmologias eternas." Craig cita (erroneamente) um artigo recente de Audrey Mithani e Alex Vilenkin, que conclui dizendo: "O universo teve um começo? Neste momento, parece que a resposta a esta pergunta é provavelmente sim." Mithani e Vilenkin também são cientistas, e estão correspondentemente dispostos a serem honestos sobre o nosso estado de ignorância: por isso, "provavelmente" sim. Eu, pessoalmente, acho que a resposta é "provavelmente não", mas nenhum de nós realmente sabe. A diferença é que os cientistas estão dispostos a admitir que eles realmente não sabem.

Os teoremas em questão fazem um ponto simples e interessante. Comece com um espaço-tempo clássico - "clássico" no sentido de que é um colector Lorentziano quadridimensional definitivo, não necessariamente um que obedece a equação da relatividade geral de Einstein. (É como dizer "comece com uma trajetória de uma partícula, mas não necessariamente aquele que obedece as Leis de Newton"). O teorema diz que tal espaço-tempo, se tem expandido suficientemente rápido para sempre, deve ter uma singularidade no passado. Isso é uma boa coisa de saber, se você está pensando sobre que tipos de espaços-tempos existem.

A razão pela qual eu não mencionei explicitamente este resultado técnico em meu artigo é que eu não acho que é extremamente relevante para a questão. Como muitos resultados técnicos, as suas conclusões seguem rigorosamente seus pressupostos, mas ambos os pressupostos e as conclusões devem ser tratados com cuidado. É fácil, por exemplo, encontrar exemplos de cosmologias eternamente-existentes que simplesmente não se expandem o tempo todo. (Podemos argumentar sobre se são modelos realistas do mundo, mas isso é uma conversa longa e inconclusiva) A definição de "singularidade no passado" não é realmente a mesma que "teve um começo" - significa que algumas geodésicas devem finalmente chegar ao fim. (Outras podem não chegar.) Mais importante, eu não acho que qualquer resultado lidando com espaços-tempos clássicos podem nos ensinar algo definitivo sobre o início do universo. O momento do Big Bang é, se alguma coisa é, um lugar onde a gravidade quântica é extremamente importante. Os resultados Borde-Guth-Vilenkin não são simplesmente sobre a gravidade quântica. É extremamente fácil de imaginar cosmologias eternas baseadas na mecânica quântica que não correspondem a espaços-tempos clássicos simples ao longo de sua história. É um resultado interessante para se manter em mente, mas nem de longe o fim de nossas investigações sobre possíveis histórias do universo.

Nada disso importa para Craig. Ele sabe qual resposta ele quer chegar - o universo teve um começo - e ele vai vasculhar a literatura da cosmologia tentando escolher citações que reforçam essa conclusão. Ele não entende a literatura a nível técnico e é por isso que ele está sempre citando (necessariamente impreciso) de livros populares por Hawking e outros, em vez de os artigos originais. Tudo bem; nós não podemos todos ser especialistas em tudo. Mas quando nós não somos especialistas, não é intelectualmente honesto distorcer as palavras de especialistas para fazê-los soar como encaixando-se em nossa narrativa pré-concebida. É por isso que as conversas com pessoas como Craig são fundamentalmente menos interessante do que conversas com pessoas de mente aberta, que estão dispostas a assumir o que o universo tem para oferecer, ao invés de forçá-lo em suas caixas favoritas.

http://blogs.discovermagazine.com/cosmicvariance/2012/09/25/let-the-universe-be-the-universe/

Shane

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Eu normalmente não escolho perguntas me pedindo para responder a algum link, Shane, mas a oportunidade de interagir com Sean Carroll sobre estas perguntas importantes é uma que eu não quero perder. Vou abordar ambos os seus pontos principais.

Com relação à sua primeira reclamação, deixe-me esclarecer a confusão do Prof. Carroll. A razão pela qual eu não me dirigi a sua resposta ao que ele chama de Pergunta Existencial Primordial é que nós gravamos, não um, mas três podcasts sobre o artigo do Prof. Carroll, o primeiro lidando com o argumento cosmológico kalam, o segundo com o argumento teleológico do ajuste fino e o terceiro com o argumento cosmológico de Leibniz. A Pergunta Existencial Primordial "Por que existe algo em vez de nada?" surge no terceiro segmento. Então segure-se, ela virá!

O argumento cosmológico kalam diz respeito a pergunta diferente de o que trouxe o universo à existência. Como expliquei no podcast, Carroll evita esta pergunta ao apenas gratuitamente ler uma teoria aflexiva ou atemporal (tenseless) do tempo em certos modelos cosmológicos.

Com relação ao seu segundo ponto, Carroll tenta minimizar a importância do Teorema BGV (e, portanto, justificar tê-lo ignorado em seu artigo). Aqui eu é que tenho que admitir a minha surpresa, de fato, perplexidade. Isto é o que Carroll diz sobre o Teorema BGV:

O teorema diz que tal espaço-tempo, se tem expandido suficientemente rápido para sempre, deve ter uma singularidade no passado [...]A definição de "singularidade no passado" não é realmente a mesma que "teve um começo" - significa que algumas geodésicas devem finalmente chegar ao fim. (Outras podem não chegar.)

Quando li pela primeira vez essa caracterização, pensei que Carroll estava apenas sendo enganoso ao dizer que a assunção do Teorema BGV é que um espaço-tempo "tem expandido suficientemente rápido para sempre." Pois as palavras "para sempre" conotam um passado sem começo ou infinito; mas a exigência do Teorema BGV é apenas que a taxa de expansão média é superior a zero sobre a história passada do universo, que o teorema, então, provará ser finito, não infinito. Tal universo pode-se dizer que têm expandido "para sempre" apenas no sentido Pickwickiano que vem se expandindo por todo o tempo passado (que o teorema irá provar ser finito).

Agora, como eu disse, eu estava inclinado a ignorar essa caracterização como meramente enganosa, até eu chegar a segunda frase acima. Aqui Carroll afirma que ter uma singularidade no passado não significa ter um começo; significa apenas que ALGUMAS [dirigidas ao passado] geodésicas chegam a um fim. Ele diz que outros podem não chegar. Nesta interpretação, o Teorema BGV é consistente com algumas geodésicas serem infinitamente estendidas para o passado. Mas isso é precisamente o que o teorema prova ser impossível. O teorema requer que TODAS as geodésicas reais dirigidas ao passado, eventualmente, chegam a um fim. Para que o universo seja sem começo, devem haver geodésicas infinitas dirigidas ao passado. É por isso que Borde, Guth, e Vilenkin tomam o seu teorema como prova que qualquer universo que tem, em média, tido um estado de expansão cósmica ao longo de sua história não pode ser eterno no passado, mas deve ter um começo.

Então, se "ter uma singularidade no passado" é considerado, com Carroll, como dizendo simplesmente que algumas geodésicas chegam a um fim, então Carroll tem seriamente afirmado errado o Teorema BGV. Em um espaço-tempo em que apenas algumas geodésicas chegam a um fim, haverá singularidades locais (buracos negros), mas tal universo poderia ser eterno no passado. Em outras palavras, poderia estar expandido desde sempre, que é exatamente o que Carroll disse. Esta não é a importação do Teorema BGV. A importação desse teorema não é a trivialidade que existem singularidades locais no passado; é, antes, que existe uma singularidade cósmica.

Carroll também minimiza as conclusões que Vilenkin extrai do Teorema BGV em seu recente artigo que citei. Em resposta à pergunta "O universo teve um começo?," Vilenkin conclui que "parece que a resposta a esta pergunta é provavelmente sim" (arXiv: 1204.4658v1 [hep-th] 20 de abril de 2012, p. 5). Nunca teria se imaginado isso a partir da leitura do artigo de Carroll no Blackwell Companion. Da minha parte, eu nunca reivindiquei mais do que isso em minha defesa da segunda premissa do argumento cosmológico kalam: à luz da evidência a premissa que o universo começou a existir é mais plausível do que não.

Em sua apresentação oral de seu artigo na conferência em Cambridge, Vilenkin foi claro: "Não há modelos nessa época que fornecem um modelo satisfatório para um universo sem um começo" (https://www.youtube.com/watch? v = NXCQelhKJ7A). Curiosamente, se você olhar mais atentamente os slides do PowerPoint de Vilenkin para esta apresentação, você vai encontrar o próprio modelo do Prof. Carroll listado entre as supostas "cosmologias eternas" que na verdade não conseguem evitar o início do universo. As "cosmologias eternas baseadas na mecânica quântica" tão facilmente imaginadas pelo Prof. Carroll não são, de fato, sustentáveis; mas seus leitores desavisados não saberiam disso.

Para aqueles que gostariam de uma discussão mais ampla de "cosmologias eternas", incluindo modelos que tentam evitar a força do Teorema BGV, eu recomendo os artigos de James Sinclair e meus "O argumento Cosmológico Kalam", em The Blackwell Companion to Natural Theology[O Compêndio Blackwell à Teologia Natural], ed . Wm. L. Craig e J.P. Moreland (Oxford: Wiley-Blackwell, 2009), pp 101-201; "Sobre Espaços-tempos Não Singulares e o Início do Universo", em Scientific Approaches to the Philosophy of Religion [Abordagens Científicas para a Filosofia da Religião], ed. Yujin Nagasawa, Palgrave Frontiers in Philosophy of Religion (London: Macmillan, 2012), pp 95-142.

Finalmente, estou desapontado que Carroll não consegue ter uma discussão colegial destas questões importantes, mas sente a necessidade de recorrer a ataques pessoais sarcásticos em seu parágrafo de fechamento. Sua falta de familiaridade com o meu trabalho é evidente em sua observação de que eu não cito os artigos científicos relevantes originais (apesar de eu citar o artigo Vilenkin-Mithani no próprio podcast para o qual ele está respondendo), bem como as obras populares de físicos (onde muitas vezes se sentem mais livres para expressar o que consideram ser as implicações filosóficas e teológicas do seu trabalho). Sua condescendência é especialmente estranha à luz de seus próprios erros na caracterização correta do Teorema BGV. Carroll vai perdoar, eu espero, o nosso ceticismo nele contando-se entre as fileiras dos mente-aberta.

- William Lane Craig