#164 A Trindade e os Atributos “Onis” de Deus
October 28, 2014Caro Dr. Craig,
Eu tenho escutado diligentemente seus podcasts. Você está fazendo um trabalho incrível para o reino. Estou mantendo você em minhas orações por sabedoria, pureza e força.
Você mencionou que a Trindade pode ser explicada por três personalidades em um só ser, como uma espécie de distúrbio de personalidade múltipla, mas, neste caso, seria muito ordenado. Eu achei isso muito útil.
A pergunta é se cada personalidade é onisciente, onipresente e onipotente. Isso significaria que três pessoas diferentes teriam essas propriedades. Mas essas propriedades são coisas que só uma pessoa pode ter, necessariamente. Esse é um dos argumentos dados do porquê só pode haver um Deus.
Estou ansioso para ler, ou ouvir sua resposta.
Sob Sua misericórdia,
Khaldoun
United States
Dr. Craig responde
A
É muito bom ouvir de um colega filosófico, Khaldoun! Obrigado por suas orações! Eu confio que você esteja bem.
Não me parece que ou onipresença ou onisciência apresentem mesmo um problema, prima facie, para uma pluralidade de pessoas na Divindade. Onipresença é, no caso de Deus, a propriedade de transcender o espaço (ou seja, existindo, mas não existindo no espaço), mas estar ciente e causalmente ativo em cada ponto do espaço. Simplesmente não há razão aparente do porquê várias pessoas não poderiam ser onipresentes neste sentido. Então, eu não vejo nenhum argumento para o monoteísmo com base no atributo da onipresença (bem como por atemporalidade).
A propriedade da onisciência é a propriedade de saber que p, para qualquer proposição verdadeira p, e não acreditando que não-p, ou, em outras palavras, a propriedade de saber somente e todas as proposições verdadeiras. Mais uma vez, esta definição parece não apresentar dificuldade para uma pluralidade de pessoas oniscientes. Ocasionaria dificuldade somente se você os considerasse como puramente proposições particulares, como "Eu sou J.P. Moreland," que não poderia ser verdadeiramente acreditado por alguém além de J.P. Moreland. Se você defendesse isso, você teria que defender não apenas que só pode haver uma pessoa onisciente, mas que, se tal pessoa existe, não há outras pessoas! Pois se Jones, por exemplo, existisse, Deus mesmo não poderia saber "Eu sou Jones" (somente Jones sabe disso!) e assim Ele não seria onisciente, afinal. Mas praticamente todos os filósofos sustentam que o conteúdo proposicional de frases contendo o que são chamados de termos indiciais pessoais (como "eu", "você", "nós", etc. é universalmente acessível). Quando eu digo: "Estou com fome" e você me diz: "Você está com fome," nós expressamos a mesma proposição, viz., que Bill Craig está com fome, dos nossos pontos de vista diferentes. Se isto estiver correto, então não há dificuldade com as três pessoas trinitárias cada um tendo completo conhecimento proposicional.
Pelo contrário, a única dificuldade possível é ocasionada pela onipotência. Filósofos como Richard Swinburne tem, de fato, defendido o monoteísmo, alegando que não pode haver uma pluralidade de seres onipotentes porque eles poderiam entrar em conflito um com o outro e isso iria limitar o poder do outro. Mas suponha que é logicamente impossível para as pessoas entrarem em conflito, porque eles são essencialmente harmoniosos, e assim sempre querem a mesma coisa. Então o argumento cairia por terra. E é parte da doutrina clássica da Trindade que as pessoas da Divindade todas compartilham o mesmo conhecimento, amor e vontade, tornando impossível o conflito.
Um argumento melhor para a existência de, no máximo, um Deus onipotente é que qualquer outro ser que existe deve estar dentro do poder de Deus para criar ou não. Mas, então, a existência deste ser depende assimetricamente de Deus. Assim, Deus tem poder sobre ele, enquanto ele não tem esse poder sobre Deus. Assim, pode haver no máximo um Deus onipotente.
Esta conclusão será, no entanto, bem recebida pelo teísta Trinitariano, já que ele acredita que há, de fato, um só Deus! Talvez devêssemos dizer que a onipotência é, como necessidade e atemporalidade, primariamente uma propriedade da Divindade e só derivadamente de seus membros. Assim, enquanto pode haver no máximo um Deus onipotente, não há problema se este Deus é tri-pessoal.
- William Lane Craig