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#158 Material do Reasonable Faith e o Retorno de Cristo

October 28, 2014
Q

Pergunta 1:

Olá Dr. Craig,

Só uma pergunta rápida e trivial - será que alguém realmente compra as roupas da marca e mercadoria que você vende através de seu site? Eu amo o seu trabalho e este é um dos meus sites favoritos, mas parece engraçado, para mim, pensar em comprar um avental em apoio ao meu apologeta favorito. Seria como ter uma toalha de praia com o rosto de Alvin Plantinga nela!

Talvez como prova de que as pessoas realmente fazem compras você poderia pedir a seus leitores para enviar fotos de si mesmos usando itens da loja.

Deus o abençoe em tudo o que você faz,

Philip

Pergunta 2:

Caro Dr. Craig,

Eu tenho uma pergunta sobre o retorno de Cristo e cosmologia. Acho que muitos ministros e teólogos evitam falar sobre a segunda vinda de Cristo, presumivelmente porque temem que isso entre em conflito com as previsões cosmológicas modernas. Alguns, como John Polkinghorne, afirmam claramente o retorno, mas parecem muito incertos sobre o que vai acontecer no tempo e no espaço. Mas toda a questão não poderia ser resolvida por um apelo à ceteris paribus?

Por exemplo, suponha que a seguinte previsão seja verdade: o universo vai continuar a se expandir por bilhões de anos para um estado de máxima entropia. Por acaso isso, a rigor, não seria entendido da seguinte forma: Dado o conhecimento atual, o universo está previsto para se expandir, desde que todas as outras coisas permaneçam iguais? Mas se isto é verdade, o suposto conflito não desapareceria? Quero dizer, se Cristo um dia retorna no palco da história humana (como acreditamos), e os eventos cosmológicos previstos não aconteçam de fato, certamente isso não significaria que a previsão estava errada? Não seria simplesmente o caso de que o envio de Cristo da parte de Deus foi uma daquelas coisas que não permaneceu igual, e que a previsão ainda era verdade, porque previu corretamente o que teria acontecido se Deus não tivesse escolhido agir deste modo? Então, minhas perguntas são: 1) Você acha que esse tipo de raciocínio é útil, e 2) Você sabe de alguém que argumenta ao longo destas linhas?

Muito obrigado.

Seu em Cristo Jesus,

Julian

United States

Dr. Craig responde


A

OK, você está se perguntando o que o material do RF tem a ver com escatologia! A resposta é: nada! A pergunta do Philip só me dá a chance de promover descaradamente esta característica do nosso site. Se você clicar no botão "Materiais", você vai achar que você pode obter quase tudo impresso com um logotipo do Reasonable Faith. Em nossos jantares de apreciação aos doadores, temos dado camisetas e bonés (eu recomendo o cáqui com costura vermelha!) com o logotipo do Reasonable Faith. Eu uso diferentes camisas pólo coloridas com o logotipo bordado em cores contrastantes. Uma vez que muitas pessoas pensam que o "Reasonable Faith" é um oxímoro, camisetas e bonés como estes lhe dão a oportunidade de compartilhar sobre sua fé quando as pessoas perguntam. E as roupas desenvolvidas por nosso fornecedor incluem marcas de qualidade alta, por isso elas são muito boas.

Em resposta à sua pergunta, Philip, muitas pessoas não têm utilizado esse recurso do site ainda. Não pense nisso como um apoio ao seu apologeta favorito (embora eu tenha que confessar que eu realmente gostaria de uma toalha de praia com o rosto de Alvin Plantinga!). Ela promove o Reasonable Faith, não eu - meu nome não está em nada. Eu acho que esses artigos servem para promover o site e o ministério, iniciar conversas, e promover um senso de comunidade entre os membros do Reasonable Faith locais - além de ficar bonito!

Tudo bem; agora vamos à questão séria: dê uma olhada, Julian, no meu artigo "Time, Eternity, and Eschatology" [Tempo, Eternidade, e Escatologia] sob os artigos acadêmicos: na seção Doutrinas Cristãs deste site. Como eu explico lá, a escatologia não é mais exclusivamente assunto da teologia, mas no último quarto de século, mais ou menos, tem surgido como um novo ramo da cosmologia (estudo da estrutura e história em larga escala do universo), sendo uma espécie de imagem de espelho da cosmogonia, o ramo da cosmologia que estuda a origem do universo. Assim como cosmogonia física olha para trás no tempo para retrodizer a história do cosmos com base em vestígios do passado e as leis da natureza, assim a escatologia física olha para frente no tempo para prever o futuro do cosmos com base em condições presentes e as leis da natureza.

Como você notou, a escatologia física pinta um quadro muito sombrio e muito diferente do futuro do que a escatologia teológica. O cenário mais provável baseado nas evidências científicas atuais é que o universo vai continuar a expandir para sempre. Ao fazer isso, as estrelas eventualmente queimarão e as galáxias ficarão escuras. Cerca de 1015 anos depois do Big Bang a maior parte da massa bariônica do universo será composto de objetos estelares degenerados como anãs marrons, anãs brancas, estrelas de nêutrons e buracos negros. A física de partículas elementares sugere que cerca de 1037 anos depois os prótons irão decair para elétrons e pósitrons, preenchendo o espaço com um gás rarefeito tão fino que a distância entre duas partículas será aproximadamente o tamanho da presente galáxia. Depois de cerca de 10100 anos, no início da chamada era escura, os próprios buracos negros podem ter evaporado. A massa do universo será nada além de um gás frio e fino de partículas elementares e radiação, ficando cada vez mais diluídos à medida que se expande para a escuridão infinita, um universo em ruínas.

Este é um quadro desolador, mas como Freeman Dyson nos lembra, as previsões da escatologia física estão sujeitas à condição de que agentes inteligentes não interfiram com o processes naturais imaginados. [1] Se os seres inteligentes forem capazes de manipular de forma significativa os processos naturais, então o real futuro do cosmos pode parecer muito diferente do que a trajetória prevista com base em leis e condições atuais. A própria tentativa de Dyson de criar um cenário em que os agentes imanentes possam impedir a extinção, é, sem dúvida, desesperado e inverossímil. [2] Mas por que deveríamos restringir a nossa atenção para os agentes imanentes? Os teístas acreditam na existência de um ser inteligente que é o Criador do universo espaço-tempo e que transcende as leis que regem a criação física. Na visão cristã, Deus vai trazer à tona o fim da história humana e o cosmo atual no momento em que Ele julgar conveniente (Mc 14:32; Mt. 24:43; 1 Ts 5:2; Heb 1:10-12; 2 Pe 3:10; Apo. 3:3). Ele não permitirá que eventos previstos com base nas tendências atuais, nem mesmo em um futuro relativamente próximo, como a extinção da raça humana, ocorram, muito menos eventos no futuro muito distante, como a extinção estelar ou decaimento do próton. Antes desses eventos ocorrerem Deus vai agir para encerrar a história humana e inaugurar um novo céu e uma nova terra (1 Cor 15:51-52; 1Ts 4:15-17; Apo 21:1).

O que isto significa é que os resultados da escatologia física são, na melhor das hipóteses, projeções do futuro curso de eventos, em vez de descrições reais. Eles nos dizem com precisão aproximada o que aconteceria se agentes inteligentes não interviessem. Assim, os achados da escatologia física não são incompatíveis com a escatologia cristã, uma vez que essas conclusões envolvem condições ceteris paribus implícitas no que diz respeito às ações de agentes inteligentes, incluindo Deus. Por isso, eu concordo com você que não há conflito entre a escatologia física e a escatologia teológica porque as previsões da física são simplesmente projeções que têm ressalvas implícitas "todas as coisas sendo iguais."

Há outro aspecto da cosmologia física que eu gostaria de destacar que pode lançar luz na escatologia teológica. Sem dúvida, uma das principais dificuldades apresentadas pela escatologia cristã é que simplesmente parece incrível que, no ano que vem, por exemplo, ou na próxima terça-feira o universo pode ser obliterado pelo retorno de Cristo e o Dia do Juízo Final. Os próprios cristãos do Novo Testamento já enfrentavam tais expressões de incredulidade. Na segunda epístola de Pedro lemos que escarnecedores estavam dizendo: "Onde está a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação!" (II Pedro 3.4). O que esses escarnecedores não perceberam e, é claro, não poderiam perceber, é que a própria escatologia física contém seu próprio cenário apocalíptico da iminente destruição mundial.

Se o universo encontra-se suspenso em um estado de vácuo meta-estável falso, como alguns físicos conjecturam, então em algum momento no futuro irá inevitavelmente transformar-se em um estado de energia mais baixo, trazendo consigo uma metamorfose completa da natureza. Porque esta transformação é uma transição de fase quântica indeterminada, é imprevisível e pode acontecer, nas palavras de Adams e Laughlin, "a praticamente qualquer hora, tão logo quanto amanhã." [3] Tais regiões de transição de verdadeiro vácuo irão começar a formar em locais por todo o universo, como a formação de gelo sobre a superfície de um lago, só que neste caso, as regiões de verdadeiro vácuo irão impulsionar-se pelo universo com uma velocidade fantástica, aproximando-se da velocidade da luz. Adams e Laughlin descrevem tal apocalipse cósmico com as seguintes palavras:

Silenciosamente, e sem aviso de qualquer tipo, ele veio. Toda estrutura cósmica pela qual passou ficou sem corpo e desfigurado em sua esteira. A destruição foi assustadora tanto em sua terrível rapidez quanto sua completude devastadora.

A onda de choque começou em um ponto do espaço-tempo em particular, mas não distinto e, então viajou para fora em uma velocidade estonteante, rapidamente se aproximando da velocidade da luz. A bolha em expansão então envolveu uma porção cada vez maior do universo. Por causa de sua velocidade fenomenal, a onda de choque invadiu regiões do espaço sem aviso prévio. Sem sinais de luz, ondas de rádio ou comunicação causal de qualquer tipo não poderia fugir na frente e advertir do perigo iminente. Preparação era tão impossível quanto inútil.

Dentro da bolha, as leis da física e, portanto, a própria natureza do universo foram completamente alteradas. Os valores das constantes físicas, a potência das forças fundamentais e as massas das partículas elementares estavam todos diferentes. Novas leis físicas reinavam nestas condições Alice-no-país-das-maravilhas. O velho universo, com a sua antiga versão das leis da física, simplesmente deixou de existir.

Podia-se visualizar esta morte e destruição do antigo universo como um motivo de preocupação. Como alternativa, este curso natural dos acontecimentos poderia ser encarado como um motivo de comemoração. Dentro da bolha, com suas novas leis físicas e as novas possibilidades de complexidade e estrutura que acompanham, o universo atingiu um novo começo. [4]

Quando li pela primeira vez esta passagem escrita por estes dois cientistas físicos relativo ao apocalipse iminente da escatologia física, eu não podia deixar de lembrar a advertência escrita pelo autor de II Pedro sobre os escarnecedores de sua época:

Mas vós, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. Virá, pois, como ladrão o dia do Senhor, no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se dissolverão, e a terra, e as obras que nela há, serão descobertas.

Ora, uma vez que todas estas coisas hão de ser assim dissolvidas, que pessoas não deveis ser em santidade e piedade, aguardando, e desejando ardentemente a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se dissolverão, e os elementos, ardendo, se fundirão? Nós, porém, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça (II Pedro 3:8-13).

Os paralelos entre os apocalipses escatológicos, teológicos e físicos são marcantes e inconfundíveis: uma metamorfose completa e em todo o mundo da natureza, súbita, sem aviso, como um ladrão na noite, inevitável, emitindo de um novo céu e uma nova terra, um universo renovado. Ao contrário de Adams e Laughlin, no entanto, o autor de II Pedro sugere que façamos algo em preparação para a transformação cósmica que varrerá a velha ordem: já que aqueles que pertencem ao Senhor devem fazer parte do mundo vindouro, este futuro em perspectiva deve afetar a forma como vivemos no presente.

Agora, não me entenda mal: não estou de forma alguma sugerindo que o que lemos em II Pedro é uma descrição poética de uma transição de fase quântica iminente do universo. Antes, eu estou fazendo a colocação mais modesta de que, se a escatologia física envolve previsões apocalípticas catastróficas que poderiam ser realizadas amanhã, então não devemos hesitar em previsões semelhantes de destruição escatológica iminente feita pela teologia, simplesmente em razão de sua imprevisibilidade e alternativa incompreensível.

A plausibilidade da escatologia cristã face às projeções da escatologia física está intrinsecamente ligada com a própria ontologia de alguém. Se, como a própria cosmologia física sugere, existe um agente transcendente pessoal que criou o universo com todas as suas leis naturais e limites, e se, como a evidência histórica sugere, esse agente levantou dos mortos Jesus de Nazaré, que prometeu seu retorno escatológico, então é eminentemente racional entreter "a bendita esperança" da escatologia cristã, ao aceitar as conclusões da escatologia física como projeções mais ou menos precisas com base nas atuais condições.

  • [1]

    Freeman J. Dyson, "Time without End: Physics and Biology in an Open Universe," Reviews of Modern Physics 51 (1979): 447.

  • [2]

    Veja Lawrence M. Krauss e Glenn D. Starkman, "Life, the Universe, and Nothing: Life and Death in an Ever-Expanding Universe," Astrophysical Journal 531 (2000): 220-30.

  • [3]

    Fred C. Adams e Gregory Laughlin, "A Dying Universe: the Long-Term Fate and Evolution of Astrophysical Objects," Reviews of Modern Physics 69:2 (1997): 364.

  • [4]

    Fred Adams e Greg Laughlin, The Five Ages of the Universe (New York: Free Press, 1999), p. 154.

- William Lane Craig