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#61 Aborto e Política Presidencial

January 14, 2015
Q

Já que as eleições se aproximam - tenho uma pergunta a respeito do aborto - a maioria da minha família é católica - todos sabemos da posição da igreja sobre aborto assim como a da Bíblia para os protestantes - como alguém pode defender os candidatos que são pró-escolha? Isso me deixa maluco quando analiso esta situação! Eu sei que esta é apenas uma das questões que devem ser levadas em consideração na hora de escolher o candidato, mas, ao mesmo tempo, é uma questão extremamente importante! Apreciaria seus comentários, pois valorizo muito o seu julgamento.

Garry

United States

Dr. Craig responde


A

Para responder sua pergunta, Garry, primeiro precisamos determinar nossa visão sobre a ética do aborto. Parece-me que entre todos os argumentos a favor e contra a questão do aborto, existem duas perguntas centrais que são decisivas:

(1) Seres humanos possuem valor moral intrínseco?

(2) O feto em desenvolvimento é um ser humano?

Pense a respeito da primeira pergunta: seres humanos possuem valor moral intrínseco? Algo possui valor intrínseco se é um fim em si mesmo e não um meio para algum fim. Coisas que são valiosas somente como meios para algum fim tem apenas valor extrínseco. Por exemplo, dinheiro não tem valor intrínseco, em si mesmo. Ele tem, na realidade, valor extrínseco enquanto for um meio útil de comércio para seres humanos e, portanto, é valioso para nós pelo fim que nos ajuda a realizar. Mas por si mesmo é intrinsecamente sem valor. É somente papel.

Agora a pergunta é, seres humanos são assim? Ou são intrinsecamente valiosos? Estou certo de que a maioria das pessoas, ao pensarem a respeito disso, reconhece que seres humanos têm valor intrínseco. Pessoas não têm valor apenas como meios para um fim; pessoas são um fim em si mesmas. É por isso, como falou Agostinho, que nós devemos amar pessoas e usar coisas, e não o contrário. Aqueles que usam as pessoas e amam coisas estão fazendo algo profundamente imoral porque não estão reconhecendo o valor e a dignidade que são inerentes às outras pessoas, que não são meramente coisas para serem usadas.

A comunidade internacional reconhece o valor moral intrínseco de seres humanos em sua declaração dos direitos humanos. A noção que pessoas têm direitos intrínsecos apenas pelo fato de que elas são seres humanos, independente de raça, classe social, religião, casta ou posição é baseada no valor moral inerente aos seres humanos. Esta verdade é reconhecida também em nossa Declaração de Independência, na parte que afirma que todos os homens possuem certos direitos inalienáveis, como o direito a vida, a liberdade e a busca da felicidade. A maioria de nós, quando reflete sobre a questão, chegaria a uma conclusão parecida: Sim, seres humanos possuem, de fato, valor moral intrínseco.

Agora, o que isso implica é que se o feto em desenvolvimento é um ser humano, então ele ou ela possui valor moral intrínseco e, portanto, possui direitos humanos inerentes, incluindo o direito a vida. Aborto seria uma forma de homicídio, e contra tais ataques o feto inocente e indefeso teria todos os direitos à proteção da lei.

Assim, chegamos a segunda pergunta que devemos abordar: O feto em desenvolvimento é um ser humano? Aqui me parece que é virtualmente inegável cientificamente e medicamente que o feto é, em cada estágio de seu desenvolvimento, um ser humano. Afinal, o feto não é canino, ou felino, ou bovino; é um feto humano. Do momento de concepção em diante, existe um organismo vivo que é um ser humano completo geneticamente e que, se deixado para desenvolver-se naturalmente, crescerá para ser um membro adulto de sua espécie.

Compare um embrião humano completo com um espermatozóide ou um óvulo não fertilizado. Nem o espermatozóide nem o óvulo sozinhos constituem um ser humano: cada um é geneticamente incompleto, tendo apenas metade dos cromossomos necessários para fazer um ser humano completo. Se deixados sozinhos, eles não irão desenvolver-se: o esperma morre em alguns dias, e o óvulo não fertilizado é expelido pelo ciclo mensal da mulher. Mas se eles se unirem, formam uma célula viva para constituir um indivíduo único, o qual nunca existiu antes.

Já naquele momento de concepção, aquele indivíduo é ou macho ou fêmea, dependendo se ele ou ela recebeu um cromossomo X ou Y do esperma. O desenvolvimento posterior de órgãos sexuais e outras características sexuais secundárias são apenas evidência de uma diferença na sexualidade que estava lá desde o início. Além disso, todos os traços individuais como tipo de corpo, cor dos olhos e cabelo, características faciais e assim por diante são todos determinados no momento da concepção e estão apenas esperando para aparecer. Desde o momento da concepção temos um ser humano geneticamente completo e único; na realidade, você começou no momento da sua concepção.

Além do mais, o desenvolvimento desse indivíduo é um contínuo suave e ininterrupto. Não existe nenhum ponto não arbitrário que te permita dizer que, antes dele, o feto não é humano, mas depois dele ele ou ela são humanos. A divisão tradicional da gravidez em três trimestres não tem base científica ou médica; é um dispositivo puramente arbitrário utilizado por mera conveniência. É provavelmente devido ao fato que a gravidez dura nove meses. Se o ser humano tivesse uma gestação de oito meses, ninguém falaria de trimestres. Provavelmente dividiríamos a gravidez em quatro partes. O fato é que qualquer tentativa de fazer uma divisão e dizer “não humano antes deste ponto, mas humano depois” é completamente arbitrária e sem fundamento biológico.

Portanto, como eu disse, parece-me virtualmente inegável que o feto - que é somente latim para “pequeno” - é um ser humano nos estágios iniciais de seu desenvolvimento. Quer alguém seja um “pequeno,” um recém-nascido, um adolescente, ou um adulto, ele é em cada ponto um ser humano em diferentes fases de seu desenvolvimento. Aqueles que negam que o pequeno ser no útero é um ser humano tipicamente confundem ser humano com ser em um estágio posterior de desenvolvimento. Por exemplo, alguns que advogam pelos direitos de aborto dizem que, como um embrião não é um bebê, não é ser humano, e, portanto, o aborto é moralmente aceitável.

Este argumento me parece completamente falacioso. Neste raciocínio, poderíamos com igual justiça dizer que porque uma criança não é um adulto, ela não é ser humano; ou porque um bebê não é uma criança, ele não é ser humano. Claro, um embrião não é um bebê, mas isso não quer dizer que um embrião não é um ser humano. Todos estes são diversos estágios no desenvolvimento do ser humano, e é arbitrário cortar um estágio e dizer que, por não ser um estágio posterior, não é um ser humano.

Além disso, é simplesmente falso que a maioria dos abortos são feitos em embriões. Quando a mulher percebe que está grávida (aproximadamente dois meses após a concepção), o embrião já se tornou um feto, um “pequeno”. Não estamos lidando nesse ponto com um aglomerado de células, mas com - a palavra é inevitável - um bebê, um bebê pequenino com rosto e características, com pequenos braços e pernas, com pequenos pés e mãos. Todos os órgãos do corpo já estão presentes, e os sistemas muscular e circulatório estão completos. Até mesmo atividade cerebral está presente. Quando chega na décima segunda semana, seus dedos da mão e do pé estão totalmente desenvolvidos, completos, com delicadas digitais e com pequenas unhas da mão e do pé formando-se. O bebê já é bastante móvel, chutando e movendo-se, abrindo e fechando seu pequeno punho e enrolando seus dedos do pé. Atrás de suas pálpebras fechadas seus olhos estão quase inteiramente desenvolvidos. Inacreditavelmente, já nesse ponto, as características faciais começam a assemelhar-se àquelas de seus pais!

Fotos intrauterinas desses pequenos nos revelaram quão lindas e delicadas maravilhas da criação eles são. Um médico descreve sua experiência ao ver em primeira mão um desses pequenos de oito semanas de idade:

Anos atrás, ao anestesiar uma gestação tubária rota (aos dois meses), eu me vi diante do que acreditei ser o menor ser humano já visto. O saco gestacional estava intacto e transparente. Dentro dele estava um pequeno ser humano do sexo masculino nadando vigorosamente dentro do líquido amniótico, enquanto preso à parede pelo cordão umbilical. Este pequeno ser humano estava perfeitamente desenvolvido, tinha pés com todos os dedos e longos e finos dedos nas mãos. Tinha pele praticamente transparente e as delicadas artérias e veias eram proeminentes até a ponta dos dedos. O bebê estava extremamente vivo e não parecia nenhum pouco com as fotos e desenhos dos 'embriões' que eu havia visto. Quando o saco foi aberto, o pequeno ser humano imediatamente perdeu sua vida e tomou a aparência do que é tido como a aparência de um embrião neste estágio, extremidades disformes, etc.

Ninguém que já viu fotos de bebês no ventre entre 8-12 semanas pode honestamente negar que ali temos um ser humano.

A vasta maioria dos abortos ocorre nesta época, entre a décima e a décima segunda semana de gravidez e, portanto, estão claramente destruindo um bebê humano. Nem mesmo vou falar do horror de abortos no segundo e terceiro trimestres, 150,000 dos quais ocorrem anualmente nos EUA apenas, ou de abortos de nascimento parcial em que o bebê é parcialmente retirado antes de ser brutalmente morto. Não se engane: aborto é matar bebês. O único motivo pelo qual isso continua é que esses pequenos sem sorte normalmente não podem ser vistos. Como meu antigo pastor disse uma vez: “Se ventres tivessem janelas, não existiriam abortos”.

O fato é que desde a concepção até a velhice nós temos diversos estágios de desenvolvimento na vida de um ser humano. Parece-me, portanto, que os fatos científicos e médicos fazem com que seja virtualmente inegável que um feto em desenvolvimento é um ser humano.

Portanto, se respondermos “sim” para ambas as perguntas que nos fizemos, segue-se que aborto voluntário é um ultraje moral, a destruição de uma vida humana inocente e indefesa. Agora você irá notar que eu não apelei em nenhum momento para a Bíblia. Isso porque, contrário a impressão popular, aborto não é, em si, uma questão religiosa. A primeira pergunta que fizemos é filosófica: seres humanos possuem valor moral intrínseco? A segunda pergunta é científica e médica: o feto em desenvolvimento é um ser humano? Nenhuma destas perguntas são questões religiosas.

Dadas as nossas respostas para as duas perguntas acima, o que se segue é que aborto voluntário é a questão moral transcendente dos nossos tempos. Desde a legislação do aborto voluntário em 1973, temos testemunhado um Holocausto Americano que tem ceifado a vida de milhões de seres humanos inocentes. Outras questões ficam pequenas em comparação a esta. Certamente devemos nos importar com a posição de candidatos sobre outras políticas domésticas e externas. Ainda assim, onde existem candidatos pró-vida, a condição necessária para votarmos em qualquer candidato deve ser a disposição dele em defender a reversão da decisão Roe vs. Wade que legalizou o aborto voluntário.

- William Lane Craig