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#188 Argumento da Lei Moral

October 28, 2014
Q

Prezado Dr. Craig,

Eu tenho outra pergunta sobre fundamentos objetivos para a moralidade. Minha questão agora é sobre o "véu da ignorância", uma ideia originalmente apresentada (no meu entender) por John Rawls. Eu sei que você já abordou este tema na Pergunta da Semana #116, mas (por razões que explicarei abaixo) eu não estou totalmente satisfeito com as suas posições naquela resposta.

Minha compreensão do argumento que se desenvolveu a partir de Rawls (e, por favor, me corrija se eu estiver enganado) é que os acordos racionais em conceitos como o véu da ignorância resultam de propriedades metafísicas fundamentais inerentes à lógica e à própria racionalidade. O fato de que essas propriedades são fundamentais e inerentes estabelece sua existência objetiva independentemente de quaisquer crenças subjetivas. O fato de que a racionalidade é essencial e parte integral de certas formas de interação e comunicação humanas essenciais para a existência social determina que elas "devem" ser seguidas. Assim, você tem as duas condições essenciais para um padrão moral objetivo.

Sua resposta à pergunta da semana #116 parece seguir duas linhas. Primeiro, você afirma que indivíduos completamente racionais não existem e que, mesmo que existissem, não há garantia de que eles concordariam. Mas certamente, como você costuma salientar, estas considerações lidam com epistemologia moral, não ontologia. Pode ser difícil, ou mesmo impossível identificar e chegar a um acordo sobre quais são essas propriedades fundamentais da razão, mas isso não tem qualquer influência sobre a existência delas.

Certamente, mostrar que tais conclusões particulares estão corretas envolve demonstrar que as conclusões de outros (como niilistas, egoístas e libertários) são irracionais, mas, para mim, isso parece ser um problema com qualquer tipo de epistemologia moral, seja ela baseada no teísmo ou não. Admito que uma moralidade teísta tem a vantagem de ser capaz de apelar à verdade revelada, mas acho que um ateu provavelmente afirmaria que isso, na verdade, é uma desvantagem, especialmente porque você usa um argumento baseado na existência de valores morais absolutos como parte de seu caso cumulativo em defesa da existência de Deus.

A outra posição em sua resposta é que nenhum argumento ateísta pode ser elaborado estabelecendo por que "devemos" seguir esses princípios fundamentais da racionalidade, e eu não tenho certeza de que esse argumento é totalmente convincente de uma perspectiva puramente objetiva também. Parece-me que, se é verdade que tais princípios objetivos sobre algo que é essencial para uma das coisas que nos definem como uma espécie existem, então não é injustificado dizer que "devemos" viver em harmonia com esses princípios, assim como a existência de gravidade como um princípio fundamental do mundo físico significa que não "devemos" sair por aí saltando de precipícios.

É verdade que em ambos os casos o "dever" apela, em última instância, ao interesse próprio, e eu tenho um senso intuitivo de que nenhum valor moral objetivo pode ser baseado apenas nisso. Mas também reconheço que esta é uma conclusão puramente subjetiva da minha parte, talvez relacionada ao fato de que eu sou um teísta. Um ateu diria que, porque esta vida e as nossas experiências coletivas nela são tudo o que temos, viver em harmonia com os princípios fundamentais que sustentam essas coisas tem força moral.

Eu suspeito que você não quer abandonar a noção de que princípios metafísicos fundamentais inerentes a coisas como, por exemplo, a lógica, existem, pois me parece que eles são uma das maneiras que você usa para obter suas premissas quando está defendendo alguns de seus argumentos como, por exemplo, o argumento cosmológico. Assim, à luz das considerações que eu levantei, o que, considerando uma perspectiva puramente filosófica (em oposição à teológica), você acha que falta em argumentos que defendem uma base não-teísta para a moralidade objetiva em conceitos como o "véu da ignorância"?

Christopher

- país não especificado

United States

Dr. Craig responde


A

O argumento da lei moral

Eu não vejo como o conceito do "véu da ignorância" é relevante para a pergunta meta-ética sobre a existência de valores e deveres morais objetivos. Na verdade, esse conceito parece ser um dispositivo para, dado que deveres morais objetivos existem, determinar qual o conteúdo desses deveres. Por exemplo, se você estivesse atrás de um véu de ignorância de forma que você não soubesse se era ou não era um judeu vivendo na Alemanha nacional socialista, você acharia moralmente permissível encarcerar e exterminar os judeus? Por mais útil que possa ser assumir tal perspectiva para determinar o conteúdo de nossos deveres morais, esse exercício não contribui em absolutamente nada para provar que temos tais deveres.

Parece-me que no naturalismo, alguém atrás de um véu de ignorância, que não sabe se é um ser humano (em vez de, digamos, algum extraterrestre), deve concluir que a moralidade humana é apenas um resultado do processo evolutivo sócio-biológico, uma extensão do mesmo tipo de comportamento que é encontrado entre animais sociais -- desde porcos até elefantes e babuínos -- porque é útil na luta pela sobrevivência. Quando se permanece atrás do véu da ignorância, torna-se mais fácil enfrentar essa verdade que seria tão desconcertante para alguém consciente de que ele mesmo é um ser humano e, portanto, intrinsecamente sem valor algum.

Assim, vamos retornar aos meus dois pontos de crítica da visão que diz que a coisa moralmente correta a ser feita em qualquer situação é aquilo que pessoas idealmente racionais concordariam que se deve fazer. Vamos considerar os pontos na ordem original em que eu os apresentei.

Primeiro, por que achar que se você pudesse montar um comitê de seres humanos perfeitamente racionais e todos eles concordassem que você deve fazer alguma ação A, isso constitui uma obrigação moral para você fazer A?

Você responde: "se é verdade que tais princípios objetivos sobre algo que é essencial para uma das coisas que nos definem como uma espécie existem, então não é injustificado dizer que "devemos" viver em harmonia com esses princípios, assim como a existência de gravidade como um princípio fundamental do mundo físico significa que não "devemos" sair por aí saltando de precipícios".

O argumento da lei moral - leis como, por exemplo, a lei da gravidade não implicam em nenhuma obrigação.

Sua própria ilustração e seu uso das aspas em torno da palavra "dever" traem sua posição, Christopher. A lei da gravidade é puramente descritiva, não prescritiva. Ela não traz quaisquer obrigações incondicionais para mim com relação aos locais nos quais eu ando. O que é verdade, nesse caso, é uma espécie de declaração condicional, por exemplo: "Se você quiser sobreviver, então você não deve saltar de um precipício". Mas eu não tenho nenhuma obrigação de sobreviver, nem de ficar longe de precipícios. Da mesma forma, podemos concordar: "Se queremos promover o florescimento humano, então devemos viver em cooperação uns com os outros". Isso não estabelece mais obrigação moral sobre nós do que a seguinte verdade: "Se você quer que este fungo floresça, então você deve manter a temperatura e a umidade moderada".

Ressaltar que esses "deveres" são puramente condicionais não tem nada a ver com o teísmo; um bom número de ateus concorda com este julgamento. E isso também não é apenas uma opinião subjetiva: é um fato objetivo que esses tipos de obrigações não fazem nenhuma reivindicação incondicional sobre nós. Eles são meramente condicionais.

Portanto, a primeira coisa que falta ao realismo moral ateísta é uma base explanatória adequada e não arbitrária para os valores e deveres morais objetivos.

O segundo ponto que eu fiz foi o seguinte: A posição incorre em petição de princípio porque ela simplesmente assume que todas as pessoas perfeitamente racionais concordariam sobre quais são nossas obrigações morais.

Você responde a essa crítica da seguinte forma: "estas considerações lidam com epistemologia moral, não ontologia. Pode ser difícil, ou mesmo impossível identificar e chegar a um acordo sobre quais são essas propriedades fundamentais da razão, mas isso não tem qualquer influência sobre a existência delas".

Você não entendeu a crítica, Christopher - ou, talvez, a posição a qual ela é dirigida. A posição em questão diz que nossas obrigações morais são realmente constituídas pelo que pessoas idealmente racionais diriam que devemos fazer em uma situação particular. Isso não está relacionado à epistemologia (descobrir quais são nossos deveres). O ponto de vista é que aquilo que pessoas idealmente racionais diriam que devemos fazer realmente constitui um dever para nós. Assim, se não houver nenhum curso de ação sobre o qual as pessoas idealmente racionais concordariam em uma determinada situação, não temos obrigação moral em tal situação.

O argumento da lei moral - Por que achar que todos os agentes racionais concordariam sobre o que é o Bem?

Dizer que as pessoas idealmente racionais concordariam em qualquer situação que devemos fazer A é, como eu disse, assumir que minimalistas morais como niilistas, egoístas e libertários são todos irracionais. Se for possível que eles sejam idealmente racionais, então não temos obrigações morais em nenhuma situação, já que agentes idealmente racionais não iriam entrar em acordo sobre qual curso de ação devemos tomar. Você responde: "isso parece ser um problema com qualquer tipo de epistemologia moral, seja ela baseada no teísmo ou não". Isso não é verdade. Esse é um problema apenas para uma visão que vê o consenso racional como parte constituinte do dever moral. O teísta fundamenta o dever moral em Deus e não exige consenso. De fato, eu, por exemplo, nunca -- até onde eu me lembre -- aleguei que aqueles que discordam de mim por razões argumentativas são irracionais. Acho que niilistas ateus são perfeitamente racionais, dadas as suas pressuposições. Eu acho que eles estão errados com relação aos argumentos deles, mas de forma alguma penso que eles são irracionais.

Assim, o segundo problema com o ponto de vista em questão é que ele incorre em uma grande petição de princípio porque assume, sem justificativa, que, em qualquer situação moral dada, agentes idealmente racionais concordariam sobre o que devemos fazer, ou seja, ele apenas assume que o niilismo é falso, que é o que deveria ser provado.

- William Lane Craig