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#226 As Objeções Curiosas de Hawking para a Criação Divina

October 28, 2014
Q

Pergunta #1:

Na noite passada, eu assisti mais de 2 horas do novo show do Discovery Channel "Curiosidade" - eles começam com um estrondo, o primeiro episódio assume o maior tópico de todos os tempos! "Deus criou o Universo?"

Foi basicamente "tudo Stephen Hawking, o tempo todo" - essencialmente, o programa concluiu que "Deus não criou o universo e a ciência respondeu a esta pergunta".

Eu tenho que dizer que se eu tivesse visto isso há alguns anos, eu teria ficado deprimido, "WOW! Stephen Hawking diz que a ciência já respondeu à pergunta e que Deus não existe. Agora, o que o cristão deve fazer?".

Mas, graças a trabalhos como o seu e de outros, eu assisti esse show praticamente gritando para a tela "isso não é verdade! A física quântica NÃO lhe dá algo a partir do nada! O VÁCUO QUÂNTICO NÃO É NADA!". Ele nunca mencionou seu próprio modelo Hartle/Hawking, que envolve "tempo imaginário"—o programa sempre falou sobre um "ponto infinito"—a singularidade. Ele falou sobre isso como se fosse um fato—tudo bem pra mim. Nada sobre multiversos também—o que foi surpreendente, mas que me disseram que a Hipótese de Muitos Mundos é realmente uma teoria radical que não é suportada por quaisquer dados. Uma vez que nem estava no show (aquele cujo principal objetivo é refutar a Deus como o criador do universo), me diz que o multiverso não é a teoria do "assassino de Deus" que alguns gostariam de fazê-lo ser. E nada sobre o ajuste fino da gravidade (a gravidade foi altamente elogiada por Hawking no programa como um jogador importante na cosmologia, que de fato é—mas ele nunca mencionou sequer a própria observação de Hawking que se a gravidade tivesse sido um pouquinho diferente no exterior, o Big Bang teria entrado em colapso sobre si mesmo e não estaríamos aqui).

Eu ri quando ouvi Hawking dizer que a questão "Deus criou o universo" nem faz muito sentido, porque não havia nada antes do Big Bang—e uma vez que não havia tempo, não poderia haver um Deus para criar o Big Bang. Parece que ele é ignorante, ou mal-informado, sobre o conceito de Deus e como Deus é visto como atemporal (pelo menos antes da criação). Acho triste que um cientista tão brilhante pode ser tão ignorante sobre algo tão básico quanto ao conceito da atemporalidade de Deus—especialmente quando todo o seu argumento parece ser "porque não havia tempo antes do Big Bang, Deus também não podia ter existido".

Eles tiveram uma discussão de meia-hora em mesa redonda após o segmento inicial de uma hora que eu achei boa. Eles tinham um teólogo cristão, um físico ateu e um físico deísta (o deísta foi Paul Davies—que realmente chamou a atenção de Hawking por sua incompreensão do conceito de Deus e como Deus é atemporal, ao contrário do que Hawking pensa—e foi aqui, por cerca de 5 minutos, que os multiversos foram brevemente discutidos e Davies diz que não ajuda o ateu também). Eu achei que a discussão foi ótima—o ateu ficou preso a suas armas do cientificismo (que é quando, é claro, pensei em suas razões para a falsidade do cientificismo em sua discussão pós-debate com Peter Atkins de 1998), enquanto eu achei que o teólogo e o deísta tinham observações muito boas. Eu queria que você estivesse no painel para ir mais fundo na discussão.

De qualquer forma, este é o meu comentário. Aqui está uma pergunta sobre isso. Este programa inteiro dependia da verdade do cientificismo—assumiu que tudo o que sabemos (ou podemos saber) pode ser encontrado cientificamente. Uma de suas refutações ao cientificismo é "você não pode provar a estética, assim o cientificismo é falso". Por exemplo, você não pode provar que algo é belo ou feio por meio de um método científico.

No entanto, esta pergunta sobre a estética não é subjetiva e, portanto, não tem um valor de verdade de qualquer maneira mas a ciência nem sequer pretende dar-lhe uma resposta? (Pode ser objetivamente verdadeiro ou falso que alguma coisa é feia?). E assim, se algo não tem um valor de verdade objetiva, não há nada para a ciência dizer aqui. Isto é diferente de verificacionismo (onde, como eu entendo, não faz sentido mesmo fazer a pergunta se não é verificável ou falsificável de alguma forma. Cientificismo aqui pode ser, “você pode fazer a pergunta, mas a ciência não reivindica poder lhe fornecer a resposta").

É significativo perguntar "isso é feio?" mas a ciência não precisa provar isso e a ciência nunca afirma ser capaz de provar isso. A ciência não precisa tentar provar isso, pois é opinião, não verdade objetiva. Eu acredito que alguma coisa é feia, você acredita que é bonita. Isso é opinião, não verdade objetiva—assim, o cientista diz, "tudo bem—a ciência não deve provar opiniões, ela só está tentando descobrir verdades objetivas".

Por isso, dizer "a ciência não pode provar a estética" não refuta cientificismo porque cientificismo só quer afirmar que VERDADES OBJETIVAS podem ser conhecidas por meio da ciência, e não opiniões subjetivas - como gostos.

Onde estou errando em minha linha de raciocínio?

Obrigado,

John

- país não especificado

Pergunta #2:

Caro Dr. Craig,

Fiquei me perguntando se talvez você tivesse visto o programa de televisão intitulado, "Deus criou o Universo?", com Stephen Hawking, que foi ao ar na série "Curiosidade" do Discovery Channel no último domingo à noite (7/8/11), e o debate que se seguiu. Hawking concluiu que o universo não foi criado por Deus, com base nos seguintes três pontos:

1. O UNIVERSO NÃO É NADA, ENTÃO DEUS CRIOU NADA: No universo há uma quantidade igual de energia positiva e energia negativa. Do ponto de vista matemático, essas energias se somam a zero, portanto, se o universo não é nada, então Deus não criou nada. Este ponto é ilustrado com a seguinte analogia: Um homem com uma pá está em terreno plano e começa a construir um monte de terra. Ao ele acumular a terra, ele também cava um buraco. O monte e o buraco são iguais um ao outro, e se anulam mutuamente, em última análise, igualando zero.

2. HÁ CASOS DE ALGO SER CRIADO DO NADA OBSERVADOS NA NATUREZA, PORTANTO, É POSSÍVEL QUE O UNIVERSO TENHA SIDO CRIADO A PARTIR E POR NADA: Os cientistas tem observado que as partículas subatômicas, às vezes, sem explicação, aparecem e desaparecem por conta própria. Portanto, a criação de algo (a partir) do nada segue as leis da natureza, e a ideia do Big Bang ter começado do nada é plausível.

3. ANTES DO BIG BANG, O UNIVERSO ERA UM BURACO NEGRO. TEMPO NÃO EXISTE EM UM BURACO NEGRO, PORTANTO, NÃO HOUVE TEMPO PARA UM DEUS CRIAR O UNIVERSO.

Agora, eu sou um músico, e não possuo uma licenciatura em qualquer área da ciência. No entanto, depois de pensar nesses três pontos que Hawking faz, eu cheguei a algumas conclusões, e queria saber suas opiniões sobre elas:

1. ESTAS CONCLUSÕES PARECEM CONTRADIZER-SE: Primeiro Hawking propõe provar que o universo é nada coletivamente. Ele então mostra que, de acordo com observações científicas recentes, a criação de algo (a partir) do nada na natureza é possível, mas, então, também afirma que o universo era algo antes do big bang!

2. Se o universo é um zero matemático, então não há nada para criar, nem por Deus, nem pela natureza, nem por qualquer outra fonte que se pode pensar. Creio que esse ponto é um "golpe baixo" ridículo, porque qualquer um pode ver que o universo não é nada. Um buraco e um monte não são nada. Além disso, Hawking parece ter esquecido alguns dos outros elementos nessa analogia, como o homem com a pá (o criador) e a terra da qual ele fez um monte e cavou um buraco. Tanto quanto eu posso ver, não há analogia na natureza que pode ser usada para expressar seu ponto porque não existe. O universo não é nada, e você não pode fazer algo do nada.

3. Não é mais seguro dizer que a razão por trás do súbito aparecimento e desaparecimento das partículas subatômicas é desconhecida para a ciência neste momento no tempo, em vez de concluir que elas simplesmente acontecem e adicionar uma outra lei às leis da natureza? Desde quando os cientistas deixaram de perguntar por quê? Quando é conveniente para ajudar a apoiar sua agenda ateísta? Eu me lembro de ler "Em Defesa da Fé", que, na época de Darwin, as pessoas pensavam que as larvas simplesmente apareciam em carnes deixadas para fora sem explicação. Mais tarde, é claro, foi encontrado que as carnes deixados do lado de fora foram expostas a moscas, que colocaram seus ovos sobre ela e as larvas eclodiram. Acho que a resposta por trás do estranho aparecimento/desaparecimento de partículas subatômicas ainda está a ser descoberto, e é, talvez, irresponsável supor que elas simplesmente se comportam dessa maneira "porque sim" a fim de ganhar uma discussão.

4. Havia alguma coisa, ou nada, antes do big bang? Hawking alega ambas as alternativas no show. No momento em que ele chega ao seu terceiro ponto principal, ele está nos dizendo que havia um buraco negro antes do big bang. Ele descreve o buraco negro como um lugar onde o tempo não existe, portanto, um Criador não poderia existir, nem Ele poderia criar o universo. Acredito que Hawking usa essa teoria do buraco negro para eliminar Deus da lista de possíveis causas por trás da criação do universo, devido às propriedades do buraco negro relativos ao tempo. No entanto, Hawking também afirma que um buraco negro é infinitamente denso. Assim, não só o buraco negro é algo em vez de nada, é uma coisa infinitamente densa. Portanto, este ponto contradiz seus pontos anteriores, e também levanta a questão: se havia um buraco negro antes do big bang, quem ou o que criou esse buraco negro? Além disso, se nós desafiamos esse ponto a partir de uma perspectiva religiosa, poderíamos dizer que Deus transcende o tempo e o espaço, e, portanto, poderia existir em um buraco negro, se, de fato, era o que existia antes do big bang. Poderíamos também dizer que, com Deus, todas as coisas são possíveis.

Esse show foi imediatamente seguido por um "debate" em que vários cientistas, tanto cristãos quanto ateus (e talvez um agnóstico) estavam presentes. Eu achei decepcionante que esses cientistas não pareciam preparados para debater qualquer um dos pontos de Hawking. Parecia que eles estavam simplesmente aceitando-os como fatos concretos. O ponto que Hawking não abordou—a origem das leis da natureza—foi levantado, no entanto, os ateus simplesmente responderam que a origem seria certamente descoberta no futuro. Em última análise, os cientistas cristãos não debateram os pontos de Hawking, e muitos concordaram que a ciência e a religião devem ser mantidas separadas. O programa inteiro pareceu tendencioso para mim.

Eu acho que seria maravilhoso ter alguém como você, expressando a visão criacionista de forma lúcida e baseada em fatos, na televisão. O ateísmo, na minha opinião, tem demasiada influência sobre os jovens americanos nos dias de hoje, especialmente quando suas conclusões são apoiadas em um programa de televisão bem produzido e divertido, com animações bonitas dramatizadas por música parecida com a do filme "Uma Mente Brilhante."Quando eu estava no ensino médio, o estudo da evolução na minha aula de biologia me convenceu a me tornar ateia, então eu sei quão convincente ela pode ser. Se eu tivesse sido exposta a apologética cristã em uma idade mais jovem, talvez isso não teria sido o caso. No entanto, estou feliz e orgulhosa da minha nova fé, e estou sempre triste com o grande número de jovens ateus que entram em meu estúdio de música.

De qualquer forma, obrigado por ter tempo para ler a minha longa "pergunta", e eu espero ansiosa a sua resposta se você se sentir inclinado a responder.

Sinceramente,

Marianna

United States

Dr. Craig responde


A

John e Marianna, estou tão orgulhoso da forma como vocês responderam a este programa! Ao invés de serem intimidados pela autoridade de um eminente físico como Stephen Hawking e concordar irrefletidamente com seus pronunciamentos filosóficos e teológicos, vocês escolheram pensar criticamente sobre o que ele disse, para pesar os argumentos oferecidos em apoio de seus pronunciamentos, e discernir as falácias desses argumentos. Bom para vocês! É para isso que serve o Reasonable Faith: ajudar a equipar os cristãos a pensar criticamente e de forma inteligente sobre sua fé e os desafios a ela, de modo que você não precisa vir até mim por respostas, mas podem proporcionar-lhes por vocês mesmos.

Eu não pude assistir a este programa, mas se vocês resumiram com precisão os argumentos do Prof. Hawking, então eu só posso concluir que ele tem afundado em uma nova baixa vergonhosa de argumentação filosófica e teológica. Deixe-me dizer uma breve palavra sobre os argumentos da forma como vocês os resumiram.

1. O universo é nada, então Deus criou nada. Já ouvi esse argumento absolutamente insano dos lábios de outros cientistas anti-teístas também. O argumento implica que o próprio Stephen Hawking não existe, o que é loucura, já que a própria existência é evidente e incontestável. Como você salientou, Marianna, se levado a sério, a afirmação de Hawking está em contradição com todas as afirmações existenciais que ele faz ao longo do programa.

O argumento de que não existe nada é baseado em um truque de contabilidade: se a energia positiva do universo e a energia negativa do universo se equilibrarem, então a energia líquida do universo é zero; portanto, nada existe! Isto é como dizer que se você for em uma viagem de ida e volta em que o vôo de volta segue a mesma rota de ida, então o seu movimento líquido é zero; portanto, você não foi para nenhum lugar! Marianna, você está absolutamente correta que a ilustração do buraco e da pilha de terra, na verdade, comprovam o exato oposto da afirmação de Hawking, pois mesmo que o volume de terra seja igual ao volume do buraco, isso de modo algum implica que o buraco e a pilha de sujeira não existem (você pode cair no buraco e quebrar a perna ou sentar-se na pilha de terra)! No caso do universo, você ainda precisa de uma causa para explicar a origem do positivo e negativo de energia, em primeiro lugar, mesmo que, quando somados, o saldo líquido seja zero.

2. Há casos em que algo é criado a partir do nada observados na natureza; portanto, é possível que o universo tenha sido criado a partir e por nada. John, você está absolutamente correto que o vácuo quântico que gera as chamadas partículas virtuais não é nada. Caracterizar esse mar de espaço preenchido por energia como nada é uma deturpação tão errônea que aqueles que o fazem são culpados, creio eu, de uma distorção deliberada da ciência.

Marianna, você também está certa em nos lembrar que ele está longe de ser claro que não há, de fato, causas determinísticas do aparecimento de partículas virtuais. Tal comportamento é indeterminista apenas em algumas interpretações da física quântica, como a chamada interpretação de Copenhague, mas há outras interpretações da física quântica que são completamente deterministas e são empiricamente equivalentes a interpretações indeterministas, e ninguém sabe qual, se houver, dessas interpretações concorrentes está correta. O realismo ingênuo sobre a interpretação de Copenhague seria temerário e injustificado.

Além disso, o estado de vácuo primordial a partir do qual o nosso universo visível pode ter surgido não pode, pela própria admissão de Hawking, ser eterno no passado, mas teve um começo absoluto, o que parece apontar para uma causa ultramundana da origem do universo.

3. Antes do Big Bang, o universo era um buraco negro. O tempo não existe em um buraco negro; portanto, não houve tempo para um deus criar o universo. Eu estou um pouco chocado com ambos os seus relatórios que Hawking aparentemente se voltou para o modelo padrão do Big Bang (talvez com uma era inflacionária) que apresenta uma singularidade cosmológica inicial, e não para a sua própria teoria, que possui uma origem não-singular de espaço-tempo. Vamos conceder em prol do argumento que a singularidade era um estado físico real. A afirmação parece ser que, já que a singularidade cosmológica inicial é um ponto-limite para o espaço-tempo, em vez de um ponto do espaço-tempo, por isso não houve tempo em que Deus poderia ter criado a singularidade.

Mas esta conclusão segue apenas se equipararmos tempo com medidas físicas de tempo. Essa visão reducionista é claramente errada. A sequência de eventos mentais por si só é suficiente para gerar relações de mais cedo e mais tarde, em total ausência de eventos físicos. Então, se Deus estivesse em contagem regressiva para a criação, "..., 3, 2, 1, Haja luz! "Deus existiria no tempo, mesmo se Ele não estivesse no tempo físico (isto é, a medida física que representa o tempo na Teoria Geral da Relatividade). Portanto, poderia haver um tempo em que Deus criou a singularidade cosmológica inicial, mesmo que nesse momento não esteja no tempo físico. Mesmo que Deus seja, como vocês dois dizem, atemporal, sem a criação, Sua criação do universo pode ser simultânea com a singularidade cósmica. Tal apelo à metafísica não é ilícita porque Hawking está fazendo uma afirmação metafísica de que Deus não pode criar o universo, porque a singularidade não está no tempo físico, uma jogada reducionista que nenhum teísta deve aceitar.

De qualquer forma, mesmo que nós aceitássemos esta jogada reducionista, tudo o que segue é que Deus não criou o universo em um tempo. Ainda podemos dizer que Deus criando o universo foi coincidente com a singularidade (ou seja, eles ocorrem em conjunto na fronteira do espaço-tempo), e ao criar a singularidade Deus criou o universo.

Finalmente, John, quanto à sua pergunta sobre o cientificismo, o ponto é que há verdades que entendemos e que não são cientificamente acessíveis, entre estas as verdades estéticas. O defensor do cientificismo é forçado a negar que existam juízos estéticos objetivos. Reconhecer esse fato simplesmente aumenta o preço de abraçar o cientificismo: você tem que negar que qualquer coisa, qualquer cena, qualquer música, qualquer arte, é realmente bonito. Se alguém quer defender isso, tudo bem; mas para muitos de nós o preço exigido por um cientificismo consistente começa a parecer muito alto a pagar. Não há nenhuma razão para adotar o cientificismo. Por isso, se você acha que há julgamentos objetivos de beleza, como muitos de nós pensamos, você vai rejeitar a epistemologia estreita do cientificismo.

- William Lane Craig