#47 As pessoas no céu pecam?
July 12, 2012Caro Dr. Craig,
Estive presente em uma de suas palestras em Baltimore (EUA), cerca de dois anos atrás, na conferência Two Tasks [Duas tarefas]. Considero valioso o incansável trabalho que o senhor tem feito. Que Deus possa continuar a fortalecê-lo, ao mesmo tempo que aprofunda seu relacionamento pessoal com ele.
Há uma questão relacionada ao problema do mal que ainda não foi resolvida em minha mente. Essa pergunta tem me aturdido cronicamente e sinto que me deixa vulnerável intelectualmente na defesa do cristianismo.
Uma maneira de escancarar a questão é com a seguinte pergunta:
COMO DEUS GARANTE QUE NÃO HAVERÁ NENHUM MAL ENTRE OS SALVOS NO CÉU?
Algumas respostas possíveis estão esboçadas abaixo. Isso é produto de meu próprio pensamento, influenciado pela pesquisa leiga sobre a matéria. Os céticos também têm apresentado o problema… Por favor, ajude-me a decidir qual é a melhor resposta mais focada na Bíblia e filosoficamente coerente, ou indique uma alternativa a respeito da qual eu não pensei.
Observação: Abaixo, uso o pronome “nós” como uma abreviatura para salvos/eleitos.
Resposta 1: No céu, NÃO existe livre-arbítrio. Os salvos são imutavelmente bons e não têm escolha nem tentação no céu.
Refutação: É possível coexistirem a falta de livre-arbítrio com o amor dos salvos por Deus. (Se a resposta for sim, a defesa do mal pelo livre-arbítrio desmorona.) De que maneira o amor não diminuiria nem se extinguiria sem o livre-arbítrio?
Resposta 2: No céu EXISTE livre-arbítrio — temos a capacidade de escolher o mal. Mas em nosso corpo glorificado e nossa natureza regenerada, abominamos o mal (nenhum desejo maligno) e, portanto, nunca o escolhemos. Para apoiar esse entendimento, consideremos que Deus, o qual é livre, despreza o mal e é amor supremo. Talvez o livre-arbítrio deva ser definido estritamente como ter a capacidade de escolher algo, mas jamais alguém escolheria por causa de sua própria natureza.
Refutação: Se esse for o caso, por que Deus não criou Adão de tal maneira que ele originalmente não desejasse o mal? Além disso, de que maneira a natureza de Adão antes da queda é diferente daquela caracterizada na Resposta 2?
Resposta 3: No céu, NÃO existe livre-arbítrio. Entretanto, não podemos considerar o céu isolado da decisão terrena que levou à vida eterna. Tínhamos livre-arbítrio na Terra e Deus simplesmente consolidou de forma permanente a decisão (salvadoramente eficaz) de aceitar Cristo que é tomada livremente em oposição à morte extrema. O amor ainda existe no céu, pois Deus aceita a decisão motivada pelo livre-arbítrio de seguir a Cristo enquanto estávamos na Terra. (Essa é uma linha de raciocínio tênue e não totalmente desenvolvida).
Muitíssimo obrigado.
Gary
United States
Dr. Craig responde
A
Quando se trata de questões dessa ordem, o que podemos fazer é apenas especulações. Em decorrência disso, poderia haver mais de uma resposta plausível. Quanto aos céticos, cabe-lhes provarem a existência de algum tipo de incoerência aqui, o que seria muito difícil de fazer.
Minha própria inclinação favorece uma visão alinhada com (3). Deus nos criou com uma “distância epistêmica”, por assim dizer, que nos concede a liberdade de nos rebelarmos contra ele e de nos separarmos dele. Este mundo é um vale de tomadas de decisão, no qual decidimos se queremos ou não viver para sempre com Deus ou rejeitá-lo e assim nos separarmos irrevogavelmente dele. Como as discussões a respeito do denominado “secretismo de Deus” têm frisado, Deus poderia ter feito a sua existência esmagadoramente óbvia, se assim o quisesse. Como disse Paulo, durante esta vida, “vemos como por um espelho, de modo obscuro”, mas algum dia “veremos face a face” (1Co 13.12). Os teólogos medievais gostavam de falar sobre a “visão beatífica” que os bem-aventurados receberiam no céu. Lá, o véu será removido, e veremos a Cristo em toda sua beleza e majestade. A visão de Cristo, a fonte de infinita bondade e amor, será tão extraordinária que removerá toda a liberdade para pecar. Gosto de imaginá-la como limalhas de ferro na presença de um eletroímã altamente poderoso. As limalhas seriam atraídas pelo eletroímã tão poderosamente que não há simplesmente nenhuma possibilidade de caírem. Assim será com os bem-aventurados no céu.
Algo assim já pode ter ocorrido com os seres angelicais. A princípio, criados epistemicamente “ao alcance da mão” de Deus, tiveram tempo para escolher ficar a favor ou contra Deus. Os que escolheram em favor de Deus foram depois selados com a Visão Beatífica, de sorte que não é mais possível caírem. Os anjos caídos são Satanás e seus lacaios.
Acho satisfatório esse modo de descrever a questão. Mas a doutrina do conhecimento médio fornece a versão (2), que também é viável. Seria possível sustentar que Deus, mediante seu conhecimento médio, sabe exatamente quais pessoas, se salvas e glorificadas no céu, haveriam de perseverar na graça por livre vontade, mesmo que conservassem a liberdade para pecar. Não é que elas tenham uma natureza diferente da de outras pessoas; é apenas que é assim que elas optariam livremente. Deus decidiu criar um mundo no qual todos os salvos são precisamente essas pessoas. Por isso, todos quantos estão no céu perseverarão por livre vontade. Essas pessoas poderiam cair, mas simplesmente não cairão. Curiosamente, a criação de um mundo assim levaria Deus a ter de aturar muitos outros aspectos indesejáveis desse mundo, como grandes doses de males naturais e morais. Talvez, somente em um mundo assim, todos quantos viriam por livre vontade a conhecer a Deus e a sua salvação fossem pessoas que perseverariam livremente no céu. Tal perspectiva seria de notória importância para o problema do mal.
Minha preferência pessoal continua a ser (3), simplesmente porque parece certo entender que a visão de Cristo, pura e imaculada, seria algo de uma atração tão avassaladora que a liberdade para resistir-lhe se desfaria totalmente.
- William Lane Craig