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#46 O dilema de Êutifron uma vez mais

July 12, 2012
Q

Caro Dr. Craig,

Seu trabalho e contribuição à filosofia e ao pensamento cristão de modo geral têm sido um auxílio indispensável em minha jornada pelas questões da vida. Já faz alguns anos que estou ensinando na Tailândia e sempre levo algumas de suas ideias para serem discutidas com outros professores. Atualmente, eu e um colega professor estamos indo e vindo em nossa discussão acerca do argumento moral. Sou um entusiasta do argumento, mas, recentemente, tenho tido algumas dúvidas a respeito. Gostaria de levantar duas questões que estão relacionadas com a O dilema de Êutifron sua resposta a James, a respeito do Dilema de Êutifron, na seção de perguntas e respostas.

Eu (acho que) entendo a diferença entre a ontologia moral (base ou fundamento dos valores morais) e a epistemologia moral (como chegamos ao conhecimento desses valores morais), todavia não consigo ligar completamente os pontos sobre como a pergunta de James e a resposta imediata que o senhor dá, no final, não causam problemas para a proposição principal do argumento moral: que os valores morais não podem existir (ontologicamente) sem Deus. Posso entender o argumento de que Deus é necessariamente bom e, portanto, não é possível afirmar que padrões morais do bem existem independentemente dele ou fora dele. Mas parece que isso só faz o dilema de Êutifron recuar mais um passo. Caso se rejeite a ideia de que a vontade, ou aprovação, declarada de Deus não faz algo ser bom e se prefira a afirmação de que a aprovação de Deus é uma extensão de sua natureza necessariamente boa, então, isso impõe a pergunta: Se a natureza de Deus rejeita o estupro de criancinhas, mas não é uma rejeição arbitrária (rejeitada sem razão nenhuma), então, isso não significaria que a natureza de Deus é boa em conformidade com boas razões? Em outras palavras, não podemos dizer que a natureza de Deus é necessariamente contrária ao estupro de criancinhas PORQUE em cada mundo possível essa atitude causa injustiças e feridas à vítima (i.e., boas razões)? Não deveríamos concluir que a razão para não estuprar (destituída de amor e injusta) deixaria de existir se não houvesse a existência de nenhuma natureza transcendente e necessariamente boa? Não vejo razão para chegarmos a essa conclusão. Para que a natureza intrínseca e necessariamente boa de Deus escape à acusação de ser arbitrária (ela É boa e É contra o estupro, e ponto final), parece-me que ela deva estar fundamentada em razões — boas razões quanto a por que X é bom e amável e Y é mau e detestável. Tendo isso em vista, parece-me que a questão passa a ser se essas boas razões podem existir ou não, se Deus não existir.

Além disso, estou com dificuldade para entender como a conclusão a que o senhor e James chegaram ainda não leva inevitavelmente o teísta a defender que a natureza de Deus é que FAZ o estupro ser errado, em contraste com o fato de o estupro ser errado simplesmente por várias razões. Esse modo de ver, em última análise, não magnificaria a glória de Deus em razão de ele escolher, em 100% das vezes, agir de maneira boa? O que seria diferente de agir de modo necessariamente forçado devido a uma natureza que DEVE fazer assim e assado por causa da perfeição de tal natureza.

Seria a diferença entre dizer que “Deus é necessariamente bom simplesmente porque” e “Deus é perfeitamente bom porque ele sempre escolhe o bem”. Deus poderia por livre vontade escolher ser um ditador cósmico malévolo e nocivo, mas escolheu livremente não ser assim. Suas escolhas por amar e fazer o bem em meio à sua liberdade de agir de outra maneira é essencialmente a sua glória. Uma natureza necessariamente moral obrigada a amar ou a fazer o bem em contraste com a escolha de fazer o bem, no fundo, não privaria Deus da virtude e da glória que só podem ser identificadas com a vontade que tem a liberdade para escolher? Admito de pronto que, se descartarmos a premissa de que a natureza de Deus é necessariamente boa, nos restará um Deus cuja natureza só é perfeitamente boa porque ele tem um currículo perfeito em escolher o que é bom. Todavia, não estou convencido de que seja tão ruim assim, já que uma natureza necessária parece ser inimiga da liberdade digna de louvor e exige que Deus deve fazer X e não pode fazer Y. Deixe-me acrescentar apenas que há muito tempo tenho sido um entusiasta incondicional do argumento moral, mas esses pensamentos são alguns com os quais tenho lutado, em reação a discussões com outras pessoas.

Deus o abençoe.

Matt

United States

Dr. Craig responde


A

Vamos nos certificar, Matt, que entendemos a visão que estou defendendo antes de eu tratar de suas perguntas. A posição não é a de “que Deus é necessariamente bom e, portanto, não é possível afirmar que padrões morais do bem existem independente dele ou fora dele”. O fato de o ser de Deus ser necessariamente bom é consistente com a visão de que, em cada mundo possível, ele se conforma a algum padrão externo. Ora, isso não é suficiente. Antes, a posição é que a natureza moral de Deus é o paradigma de bondade. O que é bom ou mau é determinado pela conformidade ou não com a natureza de Deus. Analogamente, pense em algumas gravações de áudio como sendo de “alta-fidelidade”. O que determina se a gravação de uma sinfonia é de alta-fidelidade é a sua aproximação do som de uma orquestra ao vivo. O som de uma orquestra ao vivo não apresenta fidelidade a nada mais; ele é exatamente o parâmetro que determina se alguma gravação é ou não de alta-fidelidade. Isso se assemelha à natureza de Deus. Além disso, a natureza moral de Deus expressa-se para conosco na forma de mandamentos divinos, os quais constituem nossos deveres morais. As coisas são certas ou erradas até onde forem ordenadas ou proibidas por Deus.

Agora, você faz a seguinte pergunta:

Se a natureza de Deus rejeita o estupro de criancinhas, mas não é uma rejeição arbitrária (rejeitada sem razão nenhuma), então, isso não significaria que a natureza de Deus é boa em conformidade com boas razões? Em outras palavras, não podemos dizer que a natureza de Deus é necessariamente contrária ao estupro de criancinhas PORQUE em cada mundo possível essa atitude causa injustiças e feridas à vítima (i.e., boas razões)?

Eu responderia que pode haver certamente razões para o que Deus ordena. Por exemplo, ele proíbe o estupro de criancinhas porque isso lhes seria injusto e prejudicial. Mas a pergunta mais profunda é: “Por que é errado prejudicar pessoas inocentes? O que determina o que é justo ou injusto?”. No fim das contas, essas questões devem encontrar um ponto final no caráter de Deus. A benignidade é boa, pois é o modo de ser de Deus; a crueldade é má, pois é inconsistente com a natureza divina. Por isso, Deus ordena mandamentos que proíbem a conduta cruel e prescrevem o comportamento benévolo. Estupro é cruel, não benévolo, por isso é proibido por Deus e, logo, é errado.

Você replica: “Não deveríamos concluir que a razão para não estuprar (destituída de amor e injusta) deixaria de existir se não houvesse a existência de nenhuma natureza transcendente e necessariamente boa?”. Sim, no sentido de que, na ausência de Deus, não é evidente que a crueldade seria errada. No reino animal, atividades muito semelhantes ao estupro ocorrem o tempo todo, mas sem nenhuma dimensão moral atribuída ao ato. Segundo o ateísmo, é exatamente isso que somos: apenas animais, primatas relativamente avançados, sendo difícil perceber por que razão a atividade humana deveria ter a dimensão moral que falta na atividade de outros animais. Portanto, na inexistência de Deus, apesar de o estupro ainda ser nocivo, cruel e humilhante, não haveria nada, até onde posso ver, que tornasse moralmente erradas atitudes com tais propriedades. Suponho que alguém poderia tentar defender algum tipo de platonismo moral ateísta, mas, então, essa pessoa teria de responder à minha crítica tripla ao Realismo Moral Ateísta, que apresento no livro Filosofia e cosmovisão cristã (Vida Nova, 2005).

Você afirma: “Para que a natureza intrínseca e necessariamente boa de Deus escape à acusação de ser arbitrária (ela É boa e É contra o estupro, e ponto final), parece-me que ela deva estar fundamentada em razões — boas razões quanto a porquê X é bom e amável e Y é mau e detestável”. Acho que há algumas coisas confusas aqui. Primeiro, podemos apresentar boas razões para Deus ordenar o que ele ordena, conforme já disse. Mas isso não significa que, à parte de Deus, deveriam existir boas razões para que o amor, a bondade e a paciência sejam virtudes, e a gula, a crueldade e o ódio sejam vícios. Segundo, acho que você está confundindo ser absoluto com ser arbitrário. Se algo serve como explicação absoluta, não deve haver mais nenhuma outra explicação, pois ele é o que é. Mas isso não quer dizer que a explicação seja arbitrária, significando que poderia ter sido de outra forma, e que, portanto, apenas é do jeito que é por acidente. A natureza de Deus, assim como o Bem de Platão, é absoluta, mas, como James admitiu na pergunta feita por ele, não é arbitrária. Nem se considera a natureza de Deus como paradigmática para o Bem arbitrário, pois Deus é o maior de todos os seres imagináveis e é grande demais para ser o paradigma de bondade e não meramente para exemplificá-la.

A infelicidade teológica de afirmar que “Deus poderia por livre vontade escolher ser um ditador cósmico malévolo e nocivo, mas escolheu livremente não ser assim” é que, em tal perspectiva, Deus não é essencialmente bom. Há mundos possíveis nos quais Deus por livre vontade escolhe ser maligno. Você está mesmo disposto a dizer que Deus poderia ter sido perverso? Nesse tipo de mundo, ele não seria digno de adoração. Mas um ser que não é digno de adoração, por definição, não é Deus. Isso não parece fazer sentido; o ateísmo seria verdadeiro nesse mundo? Ou alguém mais seria Deus? Deus, então, teria sido criado por tal Deus?

Ademais, no panorama sugerido, qual seria a condição ontológica do Bem? Parece que você adotou um tipo de platonismo incompatível com a possibilidade de Deus ser a fonte de toda a realidade fora dele mesmo, que não fornece nenhuma fonte de obrigação moral.

Você pergunta: “Uma natureza necessariamente moral obrigada a amar ou a fazer o bem em contraste com a escolha de fazer o bem, no fundo, não privaria Deus da virtude e da glória que só podem ser identificadas com a vontade que tem a liberdade para escolher?”. Não! Você está pensando na bondade e na virtude de Deus em termos de cumprimento de dever: Deus cumpre perfeitamente seus deveres morais. Mas, como expliquei em Filosofia e cosmovisão cristã, Deus não tem realmente deveres morais para cumprir, uma vez que não impõe mandamentos a si mesmo. Assim, não o louvamos por cumprir seu dever. Mas deve ser adorado em razão do seu caráter moral, porque é amoroso, justo, benigno, etc. Uma vez que Deus é assim, essas qualidades são originalmente contadas como virtudes. Portanto, se entendermos a bondade de Deus nos termos de que ele tem certas virtudes e não de que cumpre certos deveres, acho que temos um conceito mais exaltado e mais adequado de Deus.

- William Lane Craig