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#82 Ceticismo com o Paradigma Neo-Darwinista

August 03, 2014
Q

Dr. Craig como um Cristão também mas também com um grande interesse em ciência eu fiquei muito decepcionado com seu podcast recente sobre a doutrina da criação. Você parece expressar considerável ceticismo da macroevolução, que tem sido de fato frequentemente observado. Microevolução é definida simplesmente como variação entre uma espécie enquanto macroevolução é definida como variação no nível de, ou acima do nível, espécies. Especiação que é um exemplo disso tem sido observado sobre diversas condições e documentada muitas vezes na literatura científica então eu fiquei um pouco chocado pela sua aparente prontidão em enfatizar a diferença entre as duas.

Eu também sinto que você fez um trabalho ruim em tentar descrever o estado do registro fóssil. O único fóssil de transição que você mencionou foi o archaeolpteryx que nem mesmo é o único fóssil na transição de dinossauros para pássaros. Existe um número enorme de fósseis mostrando outras transições tais como aqueles de peixe para anfíbios, invertebrados para peixes, e também outras transições maiores. Nós também temos extremamente bons fósseis documentando a evolução da baleia, do cavalo, do elefante, e é claro, dos homo sapiens. Eu sinto que esta forma de criacionismo progressista que você parece defender faz Deus parecer um tipo de intrometido e trapalhão, constantemente tendo que ajudar ao longo do processo que ele deve ter estabelecido mas que era inadequado para produzir tudo o que Ele requeria que fizesse. Algumas coisas são aparentemente abeis de evoluir como Ele requer enquanto que há outros estágios que Ele precisa intervir diretamente para essencialmente criar novas criaturas. Isso também faz com que o registro fóssil repleto de seus erros, o que pode sugerir que Ele não é muito bom no que está fazendo, e esse não é um Deus que me sinto confortável em adorar. Você também menciona livros por pessoas como Phillip Johnson que não é um cientista, e Michael Denton cujo livro foi escrito mais de 20 anos atrás e não foi bem visto pelos cientistas até mesmo naquela época e agora já está muito ultrapassado. Depois tem o Michael Behe, que parece aceitar ancestralidade comum da vida mas parece pensar que Deus é necessário para mexer com o flagelo das bactérias, e isso novamente, eu sinto, diminui a glória de sua criação.

Ninguém que toma uma visão objetiva dos fatos, tais como o registro fóssil, a existência de retrovírus endógenos e pseudogenes compartilhados, e a fusão do cromossomo humano número 2, pode duvidar que nós compartilhamos um ancestral em comum com chimpanzés e, como isso parece ser o ponto principal de divergência entre céticos da evolução, eu não vejo nenhuma razão porque nós não deveríamos estender essa linha até o LUCA.

Eu espero que você possa clarificar suas visões sobre isso, que como eu disse causou-me considerável desânimo após ter apreciado seus podcasts anteriores.

Steve

United States

Dr. Craig responde


A

Como eu expliquei em minha exposição da Doutrina da Criação, quando o assunto é perguntas sobre a origem da vida e complexidade biológica, Cristãos bíblicos tem a vantagem sobre o naturalista de ser verdadeiramente aberto para seguir a evidência onde quer que leve. Já que eu acredito, pelas razões explicadas no podcast, que uma teoria evolucionista é compatível com o relato bíblico em Gênesis 1, a pergunta das origens biológicas é para mim uma pergunta especificamente científica: o que a evidência indica sobre os meios pelos quais Deus trouxe a vida e a complexidade biológica? Minha análise honesta e de leigo sobre a evidência faz com que eu seja cético do relato neo-Darwiniano e me deixa com um agnosticismo a respeito da teoria.

O paradigma neo-Darwiniano é uma síntese de duas teses abrangentes: A Tese da Ancestralidade Comum e a Tese da Mutação Aleatória e Seleção Natural como os meios do desenvolvimento evolucionista. As evidências para essas duas teses não são nada convincentes; de fato, a teoria envolve uma enorme extrapolação da evidência de extensões muito limitadas para conclusões muito além da evidência. Nós sabemos que na ciência tais extrapolações frequentemente falham (tome, por exemplo, a tentativa falha de Albert Einstein de extrapolar o princípio geral da relatividade que relativizaria aceleração e movimento rotacional assim como seus princípio especial havia relativizado o movimento uniforme com sucesso). Tais falhas fazem com que uma pergunta seja urgentemente feita: como nós sabemos que a extrapolação de instâncias locais do desenvolvimento evolucionista para a grande história da evolução é válida?

Vamos primeiro acertar a nossa terminologia. Você interpreta erroneamente a noção de microevolução quando você declara a imutabilidade das espécies. Steve, nem mesmo criacionistas de seis dias, sem falar nos criacionistas progressistas, limitam a mudança microevolucionária para variação entre espécies! Certamente esta não era a forma em que eu estava usando o termo, como deveria ter sido claro dos exemplos de mudança evolucionária que eu considerei. Modificação microevolucionária é simplesmente mudar entre certos limites vagos, limites que são muito menores do que o desenvolvimento indiscriminado imaginado pela Tese da Ancestralidade Comum.

Para dar-lhe uma ideia do tipo de extrapolação da evidência da mudança microevolucionária para conclusões macroevolucionárias, considere a seguinte imagem, que exibe alguns dos grandes filos dentro do Reino Animal:

Note que somente o único filo dos vertebrados (Chordata) inclui todos os peixes, mamíferos, pássaros, répteis, etc. Visto no contexto da figura maior, típicos exemplos de mudança evolucionária são vistos como sendo mudanças microevolucionárias. O desenvolvimento evolucionário de baleias, cavalos, e elefantes que você menciona são trivialidades comparado com o grande cenário vislumbrado pela teoria. A transição de primatas menores para humanos não é nada comparado com o que a teoria postula na grande escala.

Você irá lembrar minha citação de Michael Denton que diz que para um morcego e uma baleia ter um ancestral comum deveria haver literalmente milhões de formas de transição, que não estão lá no registro fóssil. Mas até mesmo aquela ilustração obscurece o fato de quão trivial tal desenvolvimento seria no grande cenário, pois teria acontecido inteiramente dentro da classe das Mamálias (mamíferos) no filo da Cordata. Até mesmo a evolução dos anfíbios dos peixes ou pássaros dos répteis é minúscula comparada a toda a árvore da vida postulada pela teoria, pois somente envolve o desenvolvimento evolucionário dentro de um único filo.

Em contraste, qual a evidência que o morcego e a esponja são descendentes por mutação e seleção natural de um ancestral comum? E agora reflita que a imagem acima mostra apenas alguns dos filos dentro do Reino Animal, que é apenas parte do domínio da Eukaria, que também inclui o todo do Reino Vegetal, e que somando ao domínio da Eukaria também temos as Bactérias e a Archaea para prestar contas! Claramente estamos lidando com uma extrapolação inimaginável das instâncias limitadas de mudança microevolucionária para conclusões fora do alcance da evidência. Precaução parece certamente apropriada aqui.

Então considere agora suas objeções à minha apresentação. Pegue primeiro a Tese de Descendência Comum. Em meu podcast, compartilhei algumas razões para ser cuidadoso em relação a essa afirmação, enquanto reconheço a evidência biomolecular a seu favor. Você reclama que eu mencionei apenas o Archaeopteryx como um fóssil de transição. Mas meu propósito aqui era de prover um exemplo do registro fóssil para o tipo mais significativo de transição que a evidência carrega. A maioria dos exemplos que você cita são trivialidades em comparação, pois eles não envolvem uma mudança através de grandes categorias. Mencioná-los teria somente enfraquecido a defesa da macroevolução com base no registro fóssil, que era o que eu estava tentando apresentar de forma simpática. O ponto de Michael Denton que nós deveríamos ver milhões de formas de transição se o paradigma neo-Darwiniano fosse verdade dificilmente está ultrapassado e permanece um problema urgente. (Seu jogo baixo contra Denton, que é, na verdade, um cientista de ponta, é típico daqueles que recorrem a ataques ad hominem quando eles não conseguem refutar a evidência.) Então eu não vejo que você tenha dito muito além daquilo que eu compartilhei para fortalecer a defesa da Teses do Ancestral Comum.

De qualquer forma, como eu enfatizei, a Tese da Ancestralidade Comum é na verdade a afirmação menos importante do paradigma neo-Darwiniano: muito mais importante é a Tese da Mutação Aleatória e Seleção Natural. Como você notou, teóricos como Michael Behe aceitam a Teoria da Ancestralidade Comum. O que eles lutam contra são os mecanismos explicativos postulados da síntese neo-Darwiniana. Aqui você não tinha nada para dizer para mostrar que a incrível complexidade biológica que nosso mundo exibe poderia ter sido criada por tais mecanismos num espaço de tempo de quatro bilhões de anos. Lembre-se da afirmação de Barrow e Tipler que existem pelo menos dez passos na evolução do homo sapiens, cada um sendo tão improvável que antes que isso pudesse ocorrer o sol teria cessado de ser um estrela de seqüência principal e teria incinerado a Terra! Aqui está onde minha maior hesitação sobre o paradigma neo-Darwiniano está. Eu não tenho visto qualquer evidência de que a hipótese de mutação aleatória e seleção natural tem o tipo de poder explanatório que o paradigma neo-Darwiniano o atribui. Parece-me que até mesmo dada a Tese da Ancestralidade Comum, uma teoria de criacionismo progressista encaixa todos os fatos e poderia muito bem ser verdade.

Tudo isso levanta a seguinte pergunta: como uma teoria que é tão especulativa e tão fracamente confirmada como a neo-Darwiniana ser defendida com tanta confiança e tenacidade pela comunidade científica? Aqui é onde o insight de Philip Johnson é relevante para a discussão. (É claro, ele não é um cientista, como você notou, mas a contribuição dele é filosófica, não científica.) Como eu explico em meu artigo “Naturalismo e Design Inteligente,” em Intelligent Design, ed. R. Stewart (Minneapolis: Fortress Press, 2007), pp. 58-71, o insight de Johnson é que o status da teoria neo-Darwiniana como a melhor explicação da complexidade biológica depende crucialmente em excluir da multitude de opções de explicações viáveis as hipóteses não-naturalistas. Johnson tem dito frequentemente que ele não teria qualquer objeção a teóricos evolucionistas defendendo que a evolução é a melhor hipótese naturalista disponível para explicar a complexidade biológica. O que ele protesta é a afirmação de que a teoria evolucionista é a melhor explicação de forma absoluta. Se admitíssemos dentro da multitude de opções explanatórias as hipóteses não-naturalistas, então não seria mais evidente que a teoria evolucionista é a melhor explicação dos dados. É nesse sentido que a teoria pressupões naturalismo. A teoria por si mesma não implica naturalismo; pelo contrário, é posição atual exaltada como o paradigma reinante que depende curiosamente em excluir de consideração alternativas não-naturalistas. Pois se o naturalismo é verdade, como Alvin Plantinga gosta de dizer, evolução é o único jogo da cidade. Não importa quão improvável, não importa quão fraca a evidência, evolução tem de ser verdade porque simplesmente não existe nada não-natural para dar conta da complexidade biológica. Por isso, a convicção.

Ironicamente, Steve, sua própria carta ilustra precisamente o ponto que estou fazendo. É evidente que você é contra teorias não-naturalistas em fundamentação teológica. Você não gosta da imagem de um Deus de remendos se intrometendo no desenvolvimento evolucionário de coisas como o flagelo da bactéria. Você acha que isso faz com que Deus seja um intrometido e trapalhão, e você não quer adorar um Deus assim. Você não consegue ver que você abandonou uma avaliação objetiva das evidências, seguindo onde quer que leve, em favor de seguir suas próprias predileções teológicas? Francamente, eu encontro isso frequentemente em discussões desse tipo: são nossas pressuposições filosóficas e teológicas que determinam onde as pessoas chegam, e não a evidência em si.

Quanto a suas preferências teológicas pessoais, eu te advirto a não assumir que Deus tem que se conformar a sua visão teológica preferida. É enormemente presunçoso pensar que podemos dizer com convicção o que Deus faria ou não faria quando o assunto é a criação da vida neste planeta. Melhor manter uma mente aberta e olhar as evidências para ver o que Ele fez de fato!

Além do mais, talvez seu modelo de Deus está todo errado. Talvez Deus não é como o engenheiro que pode ser culpado se sua máquina não funciona perfeitamente sem sua intromissão. Talvez Deus é mais como o artista que tem prazer em sujar Suas mãos na tinta ou argila para moldar um mundo espetacular. Porque não?

De qualquer forma o Design Inteligente do mundo não precisa envolver a intervenção de Deus na série de causas secundárias na forma como você imagina. Se Deus tem Conhecimento Médio, então Ele pode criar um mundo em que os contrafactuais apropriados são tais que de certas condições iniciais um mundo projetado iria resultar naturalmente (veja novamente meu artigo citado acima). Tal visão não te compromete a qualquer tipo de intervenções.

Então não fique desanimado, meu irmã! Há boas razões para ser cuidadoso a respeito do paradigma atual na biologia evolucionista. Aqui, pra variar, Cristãos podem fazer o papel de inquiridores céticos.

- William Lane Craig