#84 Ceticismo sobre Neo-Darwinismo revisitado
August 03, 2014Olá Dr. Craig,
Como muitas pessoas no tal debate criacionismo/evolucionismo você parece misturar ciência e filosofia. Certamente você aprecia que, mesmo que você seja um teísta, você não pode trazer Deus para dentro de ciência, porque você então pára de fazer ciência. Uma vez que você invoca Deus como uma explicação para um fenômeno natural, você está efetivamente dizendo: nós não podemos explicar isso e nunca poderemos, então nós atingimos o limite da ciência. 'Deus é o encerramento da ciência', para citar Stephen J. Gould. Você aparentemente concorda com a evolução, mas requer a intervenção de Deus, ou não? Você diz 'siga a evidência e veja onde te leva.' Leva para lacunas no nosso conhecimento atual, e aparentemente isso provê axiomaticamente evidência para Deus. Você não conjetura em que ponto Deus interfere, então alguém pode concluir que ele compensa pelas lacunas manifestas pela nossa ignorância, o conhecido 'Deus das lacunas'. Quanto a Gênesis apoiando a evolução bem, deve ser uma versão bem dissecada de Gênesis. Não existe ciência em Gênesis ou em qualquer outro lugar das escrituras. Nenhuma descoberta científica já foi feita a partir de estudos das Escrituras, desde o tempo de Pitágoras até os tempos modernos. Mas Gênesis, em particular, é um dos livros mais místicos em uma compilação de livros místicos. Se você quer uma pergunta: como a evolução é apoiada por uma história que se baseia no homem sendo criado do barro, uma mulher da costela do homem, uma cobra que fala, e um pedaço de fruta, que, quando ingerida, faz humanos geneticamente inerentemente maus?
Abraços,
Paul
United States
Dr. Craig responde
A
Você levanta alguns pontos em sua resposta à minha resposta para a Pergunta 82 em “Ceticismo sobre o Paradigma Neo-Darwiniano,” Paul, então deixe-me tentar destrinchá-los e responder um por vez.
É ingênuo pensar que ciência e filosofia são duas disciplinas distintas que podem ser separadas uma da outra. Eu não os misturo, mas eu vejo-os inextricavelmente unidos. Sua própria carta ilustra meu ponto. Para sua objeção principal “invoca Deus como a explicação para um fenômeno natural” é um afirmação filosófica sobre os limites da ciência. Isso não é em si mesma uma afirmação feita por qualquer teoria científica mas é uma declaração da filosofia da ciência. Portanto, sua própria posição é enraizada no fim das contas na filosofia, não na ciência.
Quanto a sua afirmação filosófica, é uma asserção do naturalismo metodológico, a declaração de que afim de qualificar como uma explicação científica, uma hipótese deve ser naturalista. Hipóteses não-naturalistas não podem mesmo ser avaliados porque eles são excluídos da gama de opções explicatórias viáveis.
Mas se a ciência é assim restrita, então a afirmação que o neo-Darwinismo é a melhor explicação científica torna-se uma vitória oca. Lembre-se do ponto de Philip Johnson: ele está disposto a concordar que a melhor explicação naturalista para a complexidade biológica é a síntese neo-Darwiniana. Mas ele quer saber se aquela explicação é verdade. Como sabemos que nós não excluímos a explicação verdadeira por meio de uma mera restrição metodológica? Nós não deveríamos nos sentir apreensivos, especialmente se somos teístas, ao pressupor que a explicação verdadeira deve ser encontrada entre explicações naturalistas? Por que pensar que Deus conforma-se com nossas restrições metodológicas?
De qualquer forma, por que adotar o naturalismo metodológico? Você pode dizer que nós não temos escolha quanto a isso, se desejamos fazer ciência, pois invocar Deus como uma causa para o fenômeno natural é um travador de ciência e assim nos impediria de fazer ciência. O proponente da hipótese teísta, como o proponente de qualquer hipótese científica, irá procurar estabelecer condições que serviriam para falsificar esta hipótese, e então ele irá propor experimentos para testar sua hipótese ao tentar fazer uma réplica de tais condições. Portanto, longe de ser um travador de ciência, uma hipótese teísta pode servir para gerar um programa contínuo de pesquisa. Não há motivo nenhum para pensar que a atitude do proponente da hipótese teísta deve ser, “Nós não podemos explicar isso e nunca poderemos,” Muito pelo contrário, ele pode defender sua hipótese muito tentativamente e estar preparado para submetê-lo se a evidência experimental falsificar sua hipótese.
Mas vamos supor que você está certo, e ciência requer naturalismo metodológico. O que segue disso? Meramente que o design da hipótese não é uma hipótese científica, dado sua definição de ciência. Como um filósofo, esta conclusão não me incomoda nem um pouco. Na verdade, eu permaneço de mente bastante aberta com a afirmação de que o Design Inteligente é uma hipótese científica. Richard Dawkins acredita que é (uma das muitas afirmações em que ele concorda com os teóricos do Design Inteligente), mas eu não estou tão certo. Eu estou contente com respeito a sua declaração metafísica, uma declaração que pode até ser verdade, mesmo que não se encaixe dentro dos limites metodológicos da ciência.
Você pergunta, a melhor explicação da complexidade biológica envolve a intervenção de Deus ou não? Eu honestamente não sei. Estou disposto a seguir a evidência para onde ela me leve. Michael Behe acredita que não, mesmo sendo um proponente do Design Inteligente. Criacionistas progressistas acreditam que sim. Quem está certo, se é que algum deles está? A única maneira de saber é olhar para a evidência.
Você acusa que esta atitude leva ao “Deus das lacunas,” tão desprezado hoje. Eu acredito que esta acusação está mal colocada. O “Deus das lacunas” tem a ver com argumentos para a existência de Deus baseado em lacunas no conhecimento científica. Mas aqui é onde nós não precisamos estar discutindo a existência de Deus de forma alguma. O teísta pode chegar para a evidência com a cosmovisão teísta já em mãos e então perguntar (como eu faço), “O que a evidência indica sobre a forma em que Deus trouxe a tona a complexidade biológica? Ele usou a evolução? Ele interviu miraculosamente?” A fim de responder estas perguntas, ele olhará a evidência. Se existem enormes lacunas no registro fóssil e se os mecanismos explanatórios da teoria neo-Darwiniana envolvem enormes extrapolações além da evidência limitada, então o teísta pode ser justificadamente cético sobre a verdade da teoria prevalecente (que, lembre-se, depende crucialmente de uma restrição metodológica de natureza filosófica). As lacunas, então, funcionam como evidência empírica que a teoria atual está de alguma forma deficiente. É claro, eu não irei conjecturar de forma avançada a respeito de onde Deus intervém (como eu esperaria saber algo assim a priori?) Ao invés disso eu olharei a evidência para ver se e onde podem existir lugares onde uma intervenção divina pode ter ocorrido. Se as lacunas estão fechadas, e a evidência para a adequação dos mecanismos explicatórios evolucionistas fortalecidos, então eu posso me tornar mais confiante de que a visão que prevalece está correta.
Você pode dizer que os proponentes do Design Inteligente realmente defendem a existência de Deus, ou pelo menos algum tipo de projetista inteligente do mundo. Isso está certo; mas os melhores deles não fazem isso com base nas lacunas na evidência. Ao invés disso um teórico como William Dembski propõe uma teoria de inferência de design que aplica para inferências de design de qualquer tipo que não tem nada a ver com lacunas na evidência ou com intervencionalismo divino. (A teoria de Dembski de ação divina é muito sutil e é totalmente consistente com não-intervencionalismo.) Sua teoria de inferência de design é portanto uma inferência baseada em princípios, não simplesmente uma apelação baseada em ignorância.
Quanto ao Gênesis, eu novamente estou incerto se existe ciência ali ou não. Certamente seu propósito teológico não é primariamente científica. Mas Wolfhart Pannenberg alega, apelando para o acadêmico de Antigo Testamento Gerhard von Rad, que a narrativa foi intencionada para ser um relato científico da origem do mundo. Você está errado em pensar que é puramente mitológico. De fato, o relato é positivamente demitologizador em seu tom. Ele tira todo o tipo de dragões e deuses primordiais de mitos da criação dos vizinhos de Israel. O sol e a lua não são deidades astrais; eles são simplesmente luzes no céu que Deus fez. Os animais e vegetação que povoam a Terra são apenas criaturas feitas por Deus. O capítulo inteiro tem uma intenção demitologizador com respeito ao mundo criado.
Uma vez que você se livra da ideia que a história quer narrar seis dias consecutivos de 24 horas - e existem bons motivos no texto para pensar que o autor não tinha esta intenção -, então é chocante que a narrativa diz absolutamente nada sobre como Deus fez as plantas e os animais. Não me entenda mal: eu não estou dizendo que Gênesis 1 ensina a evolução - isso seria anacrônico - mas meramente que não existe incompatibilidade entre Gênesis 1 e uma teoria evolucionária. Agostinho entendi este ponto 1500 anos antes de Darwin.
Você confunde a história da criação e queda do homem em Gênesis 2-3 com o relato da criação em Gênesis 1. Certamente aquele relato é rico em seu simbolismo - o autor não pretendia que imaginássemos Deus fazendo um tipo de RCP em Adão por seu nariz-, mas não deprecie a narrativa por não ser literal. Preciso acrescentar que a narrativa não diz nada sobre pecado original sendo geneticamente transmitido?
A Bíblia não pretende ser um livro-texto científico, então seria tolo olhar para ela por descobertas científicas. Mas a ciência moderna nasceu por uma cosmovisão bíblica que não via o mundo como divino ou habitado por espíritos mas como um local racional criado por Deus e portanto submisso a exploração científica. E a visão teísta do mundo pode certamente contribuir para nossa compreensão da verdade científica. Dê uma olhada no meu artigo sobre a relação da ciência com teologia sob a seção “Ciência e Teologia” dos “Artigos Populares.” No atual caso concernente a qual a melhor explicação para a complexidade biológica, uma perspectiva teísta pode nos ajudar a sermos mais críticos e menos ingênuo com respeito a teorias baseadas em suposições filosóficas e tênues bases evidenciais.
- William Lane Craig