#168 Começar a Existir
October 28, 2014Pergunta #1:
Caro Dr. Craig,
Eu estou estudando atualmente em um curso sobre sua versão do argumento cosmológico kalam. Estou um pouco confuso sobre a definição de "x começa a existir". Então aqui está a minha pergunta:
Para x começar a existir, seria necessário que haja um momento anterior no tempo, em que x não existe? Ou pode também ser o caso de que x começou a existir, se x existia desde o primeiro momento no tempo?
Jan
Pergunta #2:
Dr. Craig,
Em primeiro lugar eu gostaria de estender o meu agradecimento e admiração pelo seu trabalho. Em parte por causa de seu exemplo, eu estou inspirado a trabalhar na direção de obter um doutorado, se Deus permitir, no campo da teologia filosófica, e no futuro com o objetivo de ensinar no campo aqui na Europa. Eu estou usando o seu novo livro Em Guarda para equipar um grupo de (principalmente) homens da igreja local aqui em apologética, mas eu tenho uma pergunta sobre uma das premissas do argumento cosmológico kalam, levantada por um companheiro filósofo cristão amigo meu. Ele sente que a forma como a premissa "tudo o que começa a existir tem uma causa" é problemática no sentido em que se Deus se torna temporal (que ele aceita) na criação, então Deus (temporalmente) começou a existir, mas, claramente, nós não gostaríamos de dizer que Deus foi causado! Estou certo de que você vai ter algo a dizer sobre isso e agradeceria se você pudesse, caso contrário não tenho certeza como eu posso usar esta versão do argumento!
Bênção de Cristo,
Rob
United States
Dr. Craig responde
A
O argumento cosmológico kalam usa a frase "começa a existir." Para aqueles que querem saber o que isso significa eu, por vezes, uso a expressão "vem a ser" como sinônimo. Podemos explicar esta última noção da seguinte forma: para qualquer entidade e tempo t,
e passa a existir em t se, e somente se, (1) e existe em t, (2) t é a primeira vez em que e existe, (3) não há nenhum estado de coisas no mundo real em que e existe atemporalmente, e (4) a existência de e em t é um fato temporal.
Das cláusulas (1) e (2), Jan, você pode ver que, para que e comece a existir, não há necessidade que haja um tempo antes de t no qual e não existe. Se fosse esse o caso, então seria verdade, por definição, que o tempo não começou a existir, o que é certamente uma questão a ser resolvida por meio de investigação, não definição!
Quanto à sua pergunta, Rob, a cláusula (3) opõe-se ao começo da existência de Deus, se Ele entra no tempo no momento da criação de um estado de criação sans atemporalidade. Este resultado é intuitivo, porque Deus, se Ele existe atemporalmente sans criação, não começa a existir ou vem a existir no momento da criação!
A cláusula (4), Jan, é o que nos dá um começo temporal, em oposição à mera existência estática. Deixe-me explicar o que quero dizer com um "fato temporal." Estamos todos familiarizados com a temporalidade, uma vez que desempenha um papel na linguagem. Em inglês nós normalmente expressamos tempo flexionando o verbo de uma frase, de modo a expressar o passado, presente ou tempo futuro. Embora a maior parte da nossa língua comum é temporal, há ocasiões em que empregamos frases que são gramaticalmente no tempo presente para expressar o que são realmente verdades atemporais. Por exemplo, dizemos coisas como "Lady Macbeth comete suicídio no Ato V. cena v", "o vidro quebra facilmente", ou "A área de um círculo é πr2." É evidente que os verbos nestas frases são realmente atemporais porque seria errado substituí-los pelo tempo presente equivalente a "é + (particípio presente)", por exemplo, "está cometendo", "está quebrando", e assim por diante. Tal substituição tornaria algumas dessas frases verdadeiras claramente falsas.
A função da temporalidade é localizar algo em relação ao presente. Isso pode ser feito não só por meio de verbos, mas também por meio de expressões temporais indiciais como "hoje", "agora", "há três dias." Tais expressões temporais diferem radicalmente das expressões usando horários de relógio ou datas, que são atemporais. "3 de janeiro de 1812" invariavelmente remete para o mesmo dia, seja no passado, presente ou futuro; enquanto expressões temporais indiciais como "ontem", "hoje" ou "amanhã" dependem do contexto de sua enunciação para qual o dia que se referem.
As datas podem, portanto, ser utilizadas em conjunto com verbos atemporais para localizar coisas atemporalmente no tempo. Por exemplo, podemos afirmar: "Em 1960, John Kennedy se compromete a enviar um homem à Lua antes do final da década" (o itálico sendo uma convenção estilística para mostrar que o verbo é atemporal). Esta frase expressa um fato atemporal e por isso é sempre verdade. Observe que mesmo se você soubesse essa verdade, você não saberia se Kennedy emitiu sua promessa a menos que você também soubesse se 1960 foi passado. Por outro lado, se nós substituímos o verbo atemporal com o tempo verbo passado "se comprometeu", então nós saberíamos que o evento previsto aconteceu. Esta frase temporal não seria, no entanto, sempre verdade: antes de 1960, seria falso. Antes de 1960, o verbo flexionado teria que ser tempo futuro "vai se comprometer" se a frase deve ser verdade. Em contraste com frases atemporais, então, frases temporais servem para localizar coisas no tempo em relação ao presente e isso pode mudar o seu valor de verdade.
O ponto importante de tudo isto é que, além de fatos atemporais, parecem existir também fatos temporais. A informação veiculada por frases temporais é relacionada não apenas com fatos atemporais, mas também fatos temporais, fatos sobre como algo está relacionado com o presente. Assim, o que é um fato em um momento pode não ser um fato em outro momento. Agora é um fato que os EUA estão em guerra no Afeganistão; mas em alguns anos, isso pode já não ser um fato. Assim, o conjunto de fatos temporais está mudando constantemente.
Agora, se há fatos temporais, então o próprio tempo é temporal. Ou seja, os momentos do tempo são realmente passado, presente ou futuro, de forma independente de nossa experiência subjetiva do tempo. Temporalidade não é apenas uma característica da linguagem e experiência humana, mas é uma característica objetiva da realidade. É um fato objetivo, por exemplo, que a viagem de Colombo em 1492 acabou; é passado. Portanto, 1492 é passado em si, uma vez que a viagem foi localizada naquele momento. A realidade dos fatos temporais, portanto, implicam uma teoria temporal de tempo, geralmente chamado de Teoria-A do tempo na literatura filosófica. Uma das implicações da Teoria-A do tempo é a realidade objetiva de tornar-se temporal. Coisas entram e saem de existência. As coisas que são reais existem inteiramente no presente e são suportadas ao longo do tempo de um momento para o outro. Assim, em um Teoria-A do tempo, há um dinamismo sobre a realidade, um constante tornar-se da realidade no tempo.
Por outro lado, em uma Teoria-B ou atemporal de tempo, realmente não há fatos temporais. O conteúdo factual de frases contendo verbos temporais e indexicais temporais incluem apenas os locais atemporais (datas, horário) e relações atemporais (mais cedo do que, simultâneo com, e mais tarde do que) de eventos. Temporalidade linguística é uma característica egocêntrica de usuários da língua. Ela serve somente para expressar a perspectiva subjetiva do utilizador. Mas, na realidade objetiva não existe "agora" no mundo. Tudo existe apenas atemporalmente. Então, de acordo com a Teoria-B de tempo, todas as coisas e eventos no tempo são igualmente existentes. Se não houvesse mentes, não haveria passado, presente ou futuro. Haveria apenas o universo do espaço-tempo de quatro dimensões existentes en bloc. Segue, portanto, que não há tornar-se temporal. Tornar-se temporal é uma ilusão da consciência humana. Nada no bloco de espaço-tempo entra ou sai de existência, nem o bloco de espaço-tempo como um todo vem a ser ou acaba. Em uma visão teísta ele co-existe eternamente com Deus.
O argumento cosmológico Kalam pressupõe de início ao fim uma Teoria-A do tempo. As coisas não passam a existir sem uma causa. Se o universo é finito no passado, então ele começou a existir no sentido de que ele veio à existência. O primeiro momento da criação não é um instante atemporal à frente de um bloco de quatro dimensões, mas um momento evanescente que veio a ser e foi embora. Em uma Teoria-B do tempo Deus é o Criador do universo no sentido de que o bloco inteiro do universo e tudo dentro dele depende de Deus para sua existência. A afirmação dos Teóricos-B que Deus trouxe o universo à existência do nada em algum momento no passado finito pode, na melhor das hipóteses, significar que Deus atemporalmente sustenta o universo em existência e que não há (temporalmente) um momento que é separado de qualquer outro momento do tempo por um intervalo de tempo finito e antes do qual nenhum momento de duração comparável existe. O universo começou a existir apenas no sentido de que o bloco do universo atemporalmente existente tem um limite frontal. Tem um início apenas no sentido de que uma régua tem um começo. Não há, no mundo real, nenhum estado de coisas em que Deus existe sozinho, sem o universo espaço-tempo. Deus nunca traz de fato o universo à existência; como um todo, ele co-existe eternamente com Deus.
A cláusula (4) da minha explicação é uma expressão do meu endosso de uma Teoria-A do tempo e da realidade de tornar-se temporal. Ela garante que, em virtude de sua finitude passada, o universo veio à existência. Se você estiver interessado em saber por que eu acredito como eu acredito sobre a natureza do tempo, dê uma olhada no meu livro Time and Eternity [Tempo e Eternidade].
- William Lane Craig