#737 Complô russo
September 12, 2021Caro Dr. Craig,
Sou ateu, mas com grande interesse em questões filosóficas e existenciais, e considero o seu trabalho incomparável neste sentido entre os escritores e pensadores atuais, nos dois lados (ou nos múltiplos lados) da discussão. Um desafio que o senhor gosta de apresentar aos ateus é como explicar os eventos dos evangelhos, e o senhor gosta de dizer que, simplesmente, não há nenhuma explicação racional (por exemplo, o senhor mencionou um cético com sua proposta ridícula de que Jesus tinha irmão-gêmeo que fez isso e aquilo). Contudo, há um livro (resenhado na revista Nature) do paleontólogo, escritor e popularizador científico Kirill Yeskov dedicado exatamente a esta questão, em que ele elabora uma interpretação ateísta desses eventos, supondo completa sinceridade e precisão dos escritores dos evangelhos e dos discípulos (bem como de Jesus). Em suma, é que o equivalente romano da KGB/serviço secreto enxergou a utilidade política dessa seita e organizou “milagres” para amparar a sua popularidade. (Assim, o único evento realmente surpreendente é a visão de Paulo, que é, entretanto, como a visão igualmente incompatível de Maomé e, portanto, não prova nada). O que acha desta interpretação? (Vale acrescentar que apontar para este trabalho é essencialmente A resposta padrão entre ateus russófonos quando surge o assunto da historicidade da ressurreição de Jesus!)
Atenciosamente,
Bogdan
Ukraine
Dr. Craig responde
A
Bogdan, a sua carta revela como é deprimente a mínima mudança ocorrida na Rússia desde os dias em que viajei e palestrei na velha União Soviética. Na época, era uma pocilga intelectual quando se tratava de questões teológicas e filosóficas. Os professores que conheci nos departamentos de filosofia eram, basicamente, picaretas marxistas contratados para alimentar os alunos com propaganda do partido. A crítica da religião não era em nada diferente do velho Livre Pensar do século XIX, desinformado e irremediavelmente desatualizado. Foi-me dito que, embora os alunos não comprassem o discurso positivo do partido, adotavam a sua crítica negativa da religião. Eu esperava que as coisas tivessem mudado desde os velhos dias. No entanto, a sua informação de que a teoria da conspiração de Yeskov “é essencialmente A resposta padrão entre ateus russófonos quando surge o assunto da historicidade da ressurreição de Jesus” me diz que pouco mudou.
Entenda, porém, que este tipo de teoria histórica da conspiração costuma ser desdenhada pelos historiadores de profissão. Sempre haverá explicação dos fatos que seja mais simples e menos forçada do que qualquer hipótese que nos obrigue a crer em conspiração secreta. No Ocidente, teorias da conspiração, tipicamente envolvendo os próprios discípulos, e não os romanos, eram um tanto populares no fim do século XVIII e início do XIX. Elas vieram, porém, a um fim abrupto assim que os próprios céticos perceberam que havia explicação mais plausível dos eventos milagrosos dos evangelhos do que a hipótese conspiratória — a saber, a hipótese de que os relatos dos evangelhos são o resultado de extenso período de desenvolvimento durante o qual a memória histórica dos eventos originais se perdeu, e a figura de Jesus foi coberta de mito e lenda. Esta hipótese ainda continua sendo a principal alternativa naturalista à historicidade da ressurreição de Jesus hoje. É muito mais crível do que forçadas teorias da conspiração, de modo que nenhum historiador de profissão ou biblista concordaria com a teoria de Yeskov. Caso Yeskov apresentasse a sua teoria em conferência de estudiosos profissionais no Ocidente, muita gente ia revirar os olhos, e iam retirá-lo da sala aos risos — isso se as pessoas não se levantassem e saíssem antes! Um paleontólogo como Yeskov, que estuda vestígios fósseis de animais pré-históricos, não está qualificado para escrever história e está apostando na sua reputação científica para lhe dar credibilidade fora do seu próprio campo. O fato de que um cientista russo viesse a desenvolver uma teoria que envolve organização parecida com a KGB para explicar os eventos dos evangelhos é engraçado demais e tem algo a nos ensinar!
Para ser mais específico, qualquer teoria da conspiração sucumbirá às objeções do tipo que discuti em meu livro Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2012), pp. 345-383. Obviamente, a variante particular da teoria segundo Yeskov demandará a adaptação da crítica, saindo da conspiração que envolve os discípulos para a conspiração que envolve as autoridades romanas, mas penso que a tarefa lhe será bastante fácil. De fato, a conspiração de autoridades romanas seculares a fingir a ressurreição é ainda mais absurda do que a conspiração entre os discípulos, que tinham interesse velado incomparavelmente maior no movimento que seguia a Jesus.
Por exemplo, uma das críticas mais avassaladoras de teorias da conspiração é que elas são irremediavelmente anacrônicas. Acerca da conspiração dos discípulos para fingir a ressurreição de Jesus, escrevi:
o problema dominante é o anacronismo dos judeus do primeiro século, como se tivessem a intenção de ludibriar com a ressurreição de Jesus. A hipótese da conspiração encara a situação dos discípulos com o espelho retrovisor da história cristã, e não com os olhos de algum judeu do século I. Não havia nenhuma expectativa de um Messias que, em vez de estabelecer o trono de Davi e subjugar os inimigos de Israel, seria vergonhosamente executado pelos gentios como criminoso. Ademais, a ideia de ressurreição escatológica não estava associada à ideia de Messias e era, até mesmo, incompatível com esta. Conforme Wright o expressou muito bem, se o seu Messias favorito viesse a ser crucificado, você voltava para casa ou, então, arranjava para si um novo Messias. Porém, a ideia de roubar o cadáver de Jesus e dizer que Deus o ressuscitara dentre os mortos é algo que dificilmente teria entrado nas mentes dos discípulos.
Percebe como a mesma crítica pode ser adaptada à teoria de Yeskov? Apenas substitua “judeus” e “discípulos” por “romanos” em todos os pontos, e você vai entender aonde quero chegar. Não havia nenhuma expectativa no judaísmo do primeiro século de um Messias que viesse a ser humilhado e executado pelos inimigos de Israel, nem tampouco nenhuma associação entre o Messias e a ressurreição dentre os mortos e, portanto, nenhum fundamento para que as autoridades romanas inventassem tal ideia. Ao dar o fim a Jesus, como havia feito com tantos outros, Roma pôs um fim categórico a toda a questão.
- William Lane Craig