#736 Algum lugar para Christus victor?
September 12, 2021Por que é que a sua visão da expiação não inclui Christus victor? Por que seria uma coisa ou outra?
Crystal
Canada
Dr. Craig responde
A
A sua pergunta me chamou a atenção, Crystal, porque bem ontem li uma resenha muito precisa de meu livro Atonement and the Death of Christ [Expiação e a morte de Cristo] (Baylor University Press, 2020) por Chad McIntosh, no periódico Modern Reformation (março/abril de 2021), em que ele faz o seguinte comentário:
Craig não presta praticamente nenhuma atenção ao tema da batalha espiritual nas Escrituras, naquilo que diz respeito à expiação (especialmente no Novo Testamento), que é robusto o suficiente para ter inspirado as primeiras teorias da expiação entre os Pais. É revelador que a substituição penal, ao menos enquanto apresentada por Craig como teoria da expiação, é totalmente compatível com a inexistência de Satanás e demônios. Será que se trata mesmo de uma teoria da expiação apropriada do ponto de vista bíblico? Parece-me que integrar a substituição penal numa teoria robusta de Christus victor seria empreitada promissora.
Fiquei perplexo com o comentário porque meu livro foi exatamente uma tentativa de enunciar uma teoria integradora da expiação que inclua Christus victor como um dos seus elementos. Comparo a doutrina da expiação com uma joia multifacetada. Uma teoria da expiação apropriada do ponto de vista bíblico incluirá todas as facetas da doutrina encontradas no Novo Testamento, incluindo a conquista de Cristo sobre a morte, o inferno e Satanás, o que a teoria de Christus victor almeja expressar. Assim, encerro a minha discussão de teorias patrísticas com a frase: “Quem quer que aspire a articular uma teoria da expiação apropriada do ponto de vista bíblico desejará incluir Christus victor como faceta de tal teoria” (p. 112). Não é uma coisa ou a outra.
Na Parte III do livro, busco ir ao encontro dessa ambição ao dedicar dois capítulos inteiros ao tema bíblico da redenção, que é o tema que teorias de Christus victor tentam captar. O próprio cerne de tais teorias é que Cristo nos livrou do cativeiro da morte, do inferno e do diabo. Por isso, inicio o meu primeiro capítulo sobre redenção ao afirmar: “A morte expiatória de Cristo nos livra do cativeiro do pecado, morte e inferno, libertando-nos do poder de Satanás. Esta ênfase é característica das teorias clássicas de Christus victor” (p. 215). A questão é não só que Cristo foi derrotar o diabo, mas que ele libertou os que ele mantinha em prisão e estavam, portanto, no cativeiro do pecado, da morte e do inferno. Por esta razão, os Pais da igreja enfatizavam que Cristo derrotou a Satanás, não por poder (o que teria sido de uma facilidade trivial para um ser onipotente), mas por justiça. A morte expiatória de Cristo em nosso favor satisfaz às demandas da justiça de Deus e, portanto, nos liberta. Assim, a substituição penal é o que obtém a redenção para nós. Conforme Agostinho o expressou belamente, Cristo é victor quia victima (vitorioso por ser vítima). Por isso, defendo a incrível integração da substituição penal com Christus victor.
Embora seja verdade que não digo muito acerca do “tema da batalha espiritual nas Escrituras, naquilo que diz respeito à expiação”, isto se dá porque não considero que a batalha espiritual seja tema destacado com relação à expiação. Sim, é verdade, ele está presente: “E a vós, quando ainda estáveis mortos nos vossos pecados e na incircuncisão da vossa carne, Deus vos deu vida juntamente com ele, perdoando todos os nossos pecados; e, apagando a escrita de dívida, que nos era contrária e constava contra nós em seus mandamentos, removeu-a do nosso meio, cravando-a na cruz; e, tendo despojado os principados e poderes, os expôs em público e na mesma cruz triunfou sobre eles” (Colossenses 2.13-15). No caso, Paulo integra muito bem a substituição penal, a satisfação da justiça divina e a derrota de Satanás. Eu poderia ter enfatizado mais este terceiro tema, suponho eu, mas dificilmente se trata de tema destacado da expiação no Novo Testamento.
Quanto à alegação de que a minha teoria é “totalmente compatível com a inexistência de Satanás e demônios”, embora tenha razão, o mesmo se aplica a teorias de Christus victor. Conforme observo no livro, “Christus victor ainda pode ser faceta valiosa da teoria da expiação, mesmo sem o diabo. Isto porque a redenção do nosso cativeiro de pecado, morte e inferno não depende da realidade da pessoa do diabo” (pp. 111-112). E isto é muito bom, penso eu! Não queremos que a doutrina da expiação e, portanto, o cristianismo em si se sustente ou, então, desmorone, com base na existência da pessoa do diabo! A minha teoria não exclui a existência de Satanás, muito pelo contrário. De fato, comento que, na medida em que o ceticismo moderno acerca do diabo “está enraizado no anti-sobrenaturalismo, ... trata-se de preconceito da modernidade ao qual o teólogo cristão não precisa se render” (p. 111).
- William Lane Craig