#655 Crer é difícil
February 02, 2020Olá, Dr. Craig.
Acabei de ler a pergunta 647 e devo admitir, mesmo sendo ateu/agnóstico, que o senhor desmantelou minuciosa e belamente o argumento proposto na pergunta daquela pessoa. É um argumento sobre o qual eu mesmo ponderei e pensava ser bastante sólido. Por isso, tiro meu chapéu para o senhor; ganhou meu respeito. Porém, no fim da sua carta, o senhor diz que a pessoa que lhe escreveu não conhece direito a defesa histórica de Jesus para ficar abalado com tanta facilidade assim.
Discordo e penso que a posição natural baseada em experiências pessoais é não aceitar milagres facilmente e falar de coisas que, segundo vejo, são iguais a fábulas.
Creio que o mundo se conduz de modo completamente naturalista; por isso, por que aceitar com tanta facilidade argumentos que parecem “racionais”? Quando esses mesmos argumentos entram em conflito com minha experiência de vida, isto não os torna irracionais? Não sou filósofo nem tenho vasta leitura. Costumo só vir até seu site quando me ocorre algum pensamento curioso. Porém, por mais lógico que o senhor me pareça, não sinto que isto me dê os fundamentos para crer em algo que contradiria minha própria experiência e vida cotidiana. Estou aberto a ser persuadido, mas isso fica no cerne da minha indisposição de me aventurar no cristianismo. O que tem a dizer?
Jacob
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Obrigado por partilhar suas sinceras reações à minha resposta, Jacob! Acho, porém, que você e o autor da pergunta 647 estão em situações muito diferentes.
Na pergunta 647, Parker se apresenta como “cristão e fã seu e de seu trabalho sobre a ressurreição de Jesus”. Assim, Parker já abandonou a cosmovisão “naturalista” que você mantém e já se “aventurou no cristianismo”. Ele tem uma relação pessoal com Deus e nasceu de novo espiritualmente, por meio do Espírito de Deus. Ele já é habitado pelo Espírito Santo, que testemunha em seu espírito que ele é filho de Deus (Romanos 8.16). Mais ainda, ele afirma ser fã de meu trabalho sobre a historicidade da ressurreição de Jesus. Assim sendo, ele deve conhecer as múltiplas linhas de indícios históricos a favor da descoberta do sepulcro vazio pelas discípulas, das aparições pós-morte de Jesus testemunhadas por vários indivíduos e grupos, além da crença repentina e sincera dos discípulos na ressurreição de Jesus, apesar de toda predisposição em contrário. Ele deve saber que a ampla maioria dos estudiosos de Jesus estão convencidos destes fatos com base em tais indícios. Além disso, ele deve saber que explicações naturalistas destes fatos recebem uma rejeição retumbante da pesquisa moderna. Levando em conta tudo isto, fiquei espantado que Parker tenha relatado que a objeção à crença na ressurreição de Jesus que ele ouvira “desafiou demais minha fé no cristianismo”. Parker não estava apenas partilhando um dilema interessante que ouvira e indagando qual a melhor forma de responder-lhe. Antes, seu compromisso cristão estava em perigo. Por isso, pensei que ele precisava de um pouco de “amor confrontador”. Mesmo que ele não soubesse como responder à objeção, sua familiaridade com as provas positivas da ressurreição de Jesus, sem contar o testemunho do Espírito Santo, deveriam dar-lhe a segurança de que há uma boa resposta à objeção, ainda que não lhe parecesse claro àquela altura.
Mas, como eu disse, você não está na mesma situação de Parker. Aparentemente, você é naturalista e não crê que Deus aja milagrosamente no mundo. Aparentemente, você não crê sequer que Deus exista. Com certeza, você não crê que Deus tenha ressuscitado Jesus de Nazaré dentre os mortos. Você não se diz aprendiz dos argumentos e provas. Antes, você diz: “só venho até seu site quando me ocorre algum pensamento curioso”.
Por isso, eu jamais o repreenderia, por mais educadamente, como fiz com o Parker. Parker deve saber mais, mas não se pode esperar que você, Jacob, creia como um cristão. Antes, você precisa questionar se realmente tem boas razões para seu naturalismo. Tudo bem, você talvez não tenha experimentado milagres pessoalmente, mas sua falta de tais experiências conta contra a crença cristã somente se a verdade do cristianismo torna mais provável que você experimente tais milagres. Não há motivo algum para tal suposição. Os milagres operados por Jesus, culminando na ressurreição, eram sinais da entrada do reino de Deus na história humana por meio de sua pessoa. Eram a ratificação divina de quem ele era (Messias, Filho de Deus, Filho do homem) e do que ele ensinava. Assim, a verdade do cristianismo não contradiz, de forma alguma, “minha própria experiência e vida cotidiana”.
Por outro lado, há muitos fortes motivos para pensar que o mundo natural não é tudo que existe: a contingência do mundo, o começo temporal do universo, o ajuste fino do universo para a vida inteligente, a aplicabilidade da matemática ao mundo físico, a objetividade de valores e deveres morais no mundo, e assim por diante. Convido-o a assistir aos vídeos animados neste site. Se um criador e arquiteto transcendente do cosmo existe, então, como o expressou muito bem o filósofo ateu Peter Slezak, “a estranha ressurreição se torna brincadeira de criança”.
Por isso, eu o incentivo, Jacob, a erguer seus olhos e olhar além do horizonte de seu mundo, perguntando-se: “Será que existe mesmo um Deus que criou o mundo e que se revelou em Jesus? Será que existe algo mais na realidade além do que já sonhei ou experimentei?”
- William Lane Craig