#656 Será que Deus enganou seu povo ao ressuscitar Jesus?
February 02, 2020Caro Dr. Craig,
Parece que a validação central de Jesus se baseia na historicidade da ressurreição. Ou seja, se temos um fundamento racional para crer que a ressurreição é histórica, parecer ser a vindicação das afirmações que Jesus fez de seu messiado e de sua divindade. Já que a maioria dos seus oponentes em debates são naturalistas, supostamente concordariam; se Jesus, de fato, ressuscitou dentre os mortos, inevitavelmente se seguiriam consequências teológicas. É por isso que a maior parte de suas discussões do assunto gira em torno da verificação histórica do evento e da possibilidade de explicações naturalistas.
Um problema com isto é a pressuposição de que não haja nenhuma explicação sobrenaturalista. No entanto, em Deuteronômio 13.1-6 (nas edições modernas, 12.32—13.5), afirma-se o seguinte:
Obedecerás a tudo o que te ordeno. Nada acrescentarás nem diminuirás. Se um profeta ou alguém que adivinha por meio de sonhos aparecer entre vós e vos anunciar um sinal ou prodígio, e o sinal ou prodígio de que tiver falado vier a acontecer, e ele disser: “Vamos seguir outros deuses que nunca conhecestes e vamos cultuá-los”, não dareis atenção às palavras desse profeta ou sonhador, pois o SENHOR, vosso Deus, vos está provando para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o coração e de toda a alma. Segui o SENHOR, vosso Deus, e a ele temei. Guardai seus mandamentos e ouvi sua voz. A ele cultuareis e vos apegareis. E o profeta ou sonhador morrerá, pois pregou a rebeldia contra o SENHOR, vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito e vos resgatou da casa da escravidão, para vos desviar do caminho em que o SENHOR, vosso Deus, vos ordenou que andásseis. Assim exterminareis o mal do vosso meio.
Lendo estes versículos, vejo uma brecha enorme na narrativa da ressurreição a partir da perspectiva judaica, uma vez que, sem dúvida, a ressurreição deveria servir de sinal:
Então alguns escribas e fariseus tomaram a palavra e disseram: “Mestre, queremos ver algum sinal da tua parte.” Mas ele lhes respondeu: “Uma geração má e adúltera pede um milagre; mas nenhum milagre lhe será dado, senão o do profeta Jonas; pois, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra.”
Fui atrás de um judeu ortodoxo e, como era de se esperar, a resposta foi algo assim: Deus se revelou no Sinai e estabeleceu uma aliança conosco. Ele nos disse explicitamente como discernir um falso profeta em potencial; se ele manda adorar um deus que nem você nem seus pais conhecem, ele é falso profeta, apesar de seus feitos sobrenaturais. Os judeus certamente não conheciam nem adoravam Jesus ou um deus trino no deserto!
O primeiro versículo em Deuteronômio 13.1 (12.32 nas edições modernas) lança ainda mais dúvida sobre Jesus, pois o resultado do cristianismo exige uma reformulação da lei mosaica. Em minha correspondência com cristãos, eles são rápidos em apontar que Jesus não veio abolir a lei mosaica: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir" (Mateus 5.17). Porém, da perspectiva judaica, pode-se ver como isto seria rejeitado. Podem até chamar de “cumprimento”, se quiserem, mas a Bíblia foi muito clara ao dizer: “Obedecerás a tudo o que te ordeno. Nada acrescentarás nem diminuirás”.
Tenho certeza que o senhor deva entender que, para o judeu, o cristianismo só pode ser visto como degradação. Por que um judeu deveria crer que se trate de algo diferente daquilo contra o qual Deus advertiu? Os cristãos também são rápidos em apontar que Jesus não afirmou ser um deus diferente, mas, sim, uma manifestação do mesmo Deus que Israel conhecia — ao que se pode rebater com muita facilidade: por que o judeu deveria crer que Jesus é o mesmo Deus? Aos seus olhos, Jesus é um mediador desconhecido!
Na tentativa de responder a esta questão, Aron Wall, autor por trás do blogue “Undivided Looking”, comenta o seguinte:
Suponha que eu use, pelo contrário, as provas para a ressurreição para defender que a ressurreição ocorreu. Você leva a sério a possibilidade de que Deus, de fato, ressuscitou Jesus dentre os mortos, mas como teste para Israel? A partir de Deuteronômio 32.39, parece que apenas Deus teria o poder de produzir este sinal em particular, o que corresponderia às palavras literais de Deuteronômio 13, caso se interprete “provar” como se significasse que o próprio Deus produziria o sinal. Seria, porém, uma cosmovisão religiosa estranha demais…
Esta resposta parece completamente inadequada, por alguns motivos: 1) Deus parece ter indicado claramente que ele, de fato, testará Israel: “não dareis atenção às palavras desse profeta ou sonhador, pois o SENHOR, vosso Deus, vos está provando para saber se amais o SENHOR, vosso Deus, de todo o coração e de toda a alma”. 2) Em Deuteronômio 32.39, declara-se também: “não há outro deus além de mim. Eu faço morrer e faço viver”. Devemos acreditar que apenas Deus pode matar? Obviamente, eu posso matar, se assim quiser! 3) “Provar” pode ser definido como a habilidade que Deus dá a pessoas que ele não aprova de realizarem proezas sobrenaturais. Balaão seria bom exemplo.
Outros afirmam que a ressurreição é exceção e, portanto, não está incluída em Deuteronômio 13. Parece-me argumento forçado. Como um blogueiro bem colocou: “Deuteronômio 13 explicitamente abre a possibilidade de milagres em tradições falsas e diz: ‘Não dareis atenção às palavras desse profeta’. Nada diz sobre sobreviver a uma execução como exceção ou algum grande padrão. Por que os cristãos pensam que a ressurreição anula ou muda a Torá? A partir de qual padrão?” Parece-me razoável. A única maneira em que vejo a ressurreição cumprir uma função é se houver razão prévia para acreditar que Jesus é divino e o Messias do Antigo Testamento. Dei atenção à discussão por meio dos debates e escritos do dr. Michael Brown e do rabino Tovia Singer, entre outros, e a questão está longe de ser resolvida. Aguardo sua resposta.
Ayal
Israel
Israel
Dr. Craig responde
A
Sua pergunta, Ayal, deve ter perturbado os judeus dos dias de Jesus, incluindo seus discípulos, especialmente antes da ressurreição de Jesus. Por que seguir esse suposto Messias iconoclasta, em vez de rejeitá-lo como blasfemo, assim como tantos sacerdotes e escribas o fizeram? Pois bem, se Deus realmente ressuscitou Jesus dentre os mortos, Deus parece ter inequivocamente vindicado suas afirmações aparentemente blasfemas. No judaísmo, apenas Deus pode ressuscitar os mortos para a vida e glória eternas, de modo que a ressurreição de Jesus teria sido vista, no contexto judaico, como ato tremendo de Deus. Contudo, como você diz, talvez Deus o tenha ressuscitado dentre os mortos apenas para provar a fé dos judeus fiéis, e os verdadeiramente fiéis resistirão à tentação.
Ora, parece-me que a questão é bem clara: qual hipótese é mais plausível? Julgo muito mais plausível pensar que Deus tem a liberdade soberana para fazer algo novo e inesperado em Jesus do que pensar que Ele tenha o caráter de Enganador, da forma como você o descreveu. Como você pode ter tanta certeza de ter tudo tão sob controle a ponto de saber que Deus não traria um Messias como Jesus? Talvez você esteja errado neste quesito. Como pode ter tanta certeza? Parte da dificuldade é que não penso termos nenhuma boa razão para pensar que o Deus da Bíblia hebraica existe sem Jesus e sua ressurreição. É porque acredito em Jesus que creio no Deus judaico. Por isso, não é correto equiparar Jesus com o falso profeta que diz: “Vamos seguir outros deuses que nunca conhecestes e vamos cultuá-los” (Deuteronômio 13.1), pois o Deus adorado e proclamado por Jesus de Nazaré era o Deus da Bíblia hebraica! É por causa de Jesus que creio no Deus judaico. Retire, porém, Jesus e sua ressurreição, e o que resta? Devemos, então, perguntar: por que crer que o Deus do Antigo Testamento existe? Não há lá tantas provas do judaísmo sem Jesus. Por isso, é difícil enxergar por que, se Jesus era enganador ou fanático, deve-se ser judeu.
Por outro lado, admitir que Deus, o Deus da Bíblia hebraica, ressuscitou, de fato, Jesus dentre os mortos, mas estava simplesmente provando as pessoas me parece um ato de desespero. Lembra-me daquele dito segundo o qual Deus colocou os supostos restos fósseis da vida pré-histórica nas rochas a fim de provar nossa fé numa criação de seis mil anos. Nem o Deus da Bíblia nem o Deus da teologia natural é um Enganador desses. Pense bem no que você está dando a entender sobre o caráter de Deus! Será que Deus desviaria bilhões de pessoas no mundo para que cressem em Jesus ao ressuscitá-lo dentre os mortos, cônscio de que ficariam, assim, alienadas da vida de Deus e de sua aliança? Não se trata aí do Deus da Bíblia hebraica, mas, sim, de Satanás, o adversário da obra de Deus no mundo. O Deus da Bíblia promete abençoar toda a humanidade e quer que os gentios também venham a conhecê-lo. O próprio Deus em cujo nome você rejeita Jesus é incompatível com tal engano da humanidade em escala global, como você o contempla. Em contraste, ao enxergar a ressurreição como a vindicação que Deus deu de Jesus, vemos que, por meio de Jesus e de sua ressurreição, Deus fez com que a crença no Deus de Israel se tornasse a fé de bilhões de pessoas ao redor do mundo.
- William Lane Craig