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#726 Definhando filosoficamente no Canadá

September 07, 2021
Q

Olá, Dr. Craig. Obrigado por seu trabalho. Nós nos encontramos uma vez em Toronto na sua discussão com Jordan Peterson e Rebecca Goldstein. Foi um grande privilégio.

Como natural de Toronto e, mais especificamente, como doutorando em filosofia no Canadá, confronta-me um problema em que, espero eu, o senhor possa me ajudar. Está ficando claro para mim que a filosofia da religião é subdisciplina moribunda nos departamentos de filosofia no Canadá. Não apenas me orientam a não me especializar nela por causa da dificuldade de achar emprego na área, mas confronta-me também um oceano de incompetentes filósofos da religião. Por exemplo, o principal filósofo que ensina teologia natural está no Departamento de Ciências da Religião. É horrendo que seja este o departamento em que se estuda teologia natural.

Permita-me dar um resumo do que acontece. Observamos os argumentos ontológicos historicamente, sem nenhuma referência às versões modais contemporâneas com respostas a Kant (presume-se que Kant estava certo quanto à teologia natural); analisamos argumentos cosmológicos sem discutir o seu trabalho e o de outros, nem qualquer tentativa de sistematização das premissas; há grosseira distorção dos argumentos teológicos naturais (em especial, os argumentos de Tomás de Aquino) e assim por diante. Costumo ser suprimido quando faço distinções críticas — por exemplo, causalidade linear vs. hierárquica — ou mesmo quando trago à discussão os relevantes debates contemporâneos destes tópicos. Conheço um mundo de literatura muito rico, mas não consigo compartilhá-lo com os meus colegas.

Vou ilustrar com um caso específico. No seminário de pós-graduação em filosofia da religião, estávamos discutindo como Tomás de Aquino rejeitou o argumento ontológico. O professor nos fez ler Tomás sem ler Anselmo. Eu mencionara que isto era historicamente injusto, para não dizer filosoficamente injusto. Então, quando avaliamos a crítica de Tomás, foi-nos dito que Anselmo sequer estava propondo um argumento. Obviamente, veio-me à mente a reformulação que Adams fez do argumento na lógica simbólica. Fiz esta menção, e por isso fui simplesmente ridicularizado. Depois, passamos para os argumentos de Tomás para a existência de Deus, e cada um dos argumentos foi desenvolvido de modo insuficiente, distorcido, sendo, enfim, abandonado. Pensei comigo mesmo: Feser foi levado ao cristianismo ao perceber como esses argumentos eram ruins — realmente espero que o mesmo aconteça com este professor. O nível de incompetência é espantoso, desanimador e, para ser bem sincero, irritante.

O senhor passou a vida inteira a debater contra mal-entendidos incompetentes, puras distorções e leituras imaturas do seu trabalho; no entanto, o senhor jamais perde a esperança e continua a prosseguir como filósofo cristão, com integridade. Que conselhos daria para um aluno de pós-graduação que, na busca por servir a Cristo e ao seu reino, confronta-se com este nível de superficialidade acadêmica?

Obrigado, e Deus abençoe.

Anônimo

Canadá

Canada

Dr. Craig responde


A

Escolhi a sua pergunta não porque tenho algum conselho especial para dar, mas principalmente para advertir os nossos leitores da situação desesperadora nas universidades canadenses. A estagnação intelectual que você descreve é realmente aterradora e inexcusável. Dados os recursos disponíveis atualmente e os avanços significativos da disciplina em relação às questões que você traz à tona, os professores presos no passado, conforme você descreve, são culpados por estar em falta com as suas obrigações para com os seus alunos, que lhes estão pagando para obter educação de qualidade. Esta semana mesmo, ao escrever sobre a existência necessária de Deus, reli Anselmo, Hume e Kant quanto ao argumento ontológico e, francamente, fiquei estupefato com a fraqueza das críticas. Ocorreu-me que pensadores (em especial, teólogos) que ainda estão travados nas críticas kantianas são, simplesmente, mal informados sobre o argumento ontológico e a existência necessária. Você tem razão de que teologia natural não deveria ser ensinada em departamentos de ciências da religião, onde os professores não têm a formação filosófica para lidar com as questões, mas, sim, em cursos de filosofia. Que os argumentos até mesmo dessas figuras do passado, hoje ultrapassadas, devam ser representados erroneamente e passados batidos é simplesmente repreensível, indigno da educação universitária. É desanimador que a renascença da filosofia cristã que transpirou nos Estados Unidos teve impacto visível tão pequeno no Canadá.

Então, o que você pode fazer? Pois bem, alguns pontos me vêm à mente:

1. Não dê ouvidos aos derrotistas. Mesmo na época em que era aluno de pós-graduação, a visão convencional era que não seria possível achar um emprego em filosofia. Como cristão, você não deve dar ouvidos aos catastrofistas. Deus tem uma vontade para a sua vida, e ele prometeu guiá-lo ao confiar nEle (Provérbios 3.5-6). Se você estiver andando na Sua vontade, Ele o encaminhará aonde Ele quer que você esteja. Pode ou não ser uma posição de docência. Olhe para o meu caso. Embora eu tenha sido antes professor em tempo integral, abandonei a profissão por me sentir chamado para um tipo de ministério bem diferente. Por isso, agora leciono apenas algumas semanas por ano. Você provavelmente não conseguirá adivinhar aonde você vai parar, mesmo que tente. Simplesmente, confie em Deus a cada passo, e Ele cuidará do seu futuro.

2. Concentre-se em fazer trabalho filosófico de excelência. Eleve-se acima do padrão estabelecido pelos seus professores fraquinhos. Aprenda tudo o que puder deles, mas não se contente com a mediocridade que eles lhe modelam. Use as suas aulas e os seus trabalhos e tese para fazer o seu melhor, valendo-se dos vastos recursos que lhe estão disponíveis atualmente. Diferentemente dos estudantes de gerações anteriores, como na metade do século XX, você, pelo menos, tem acesso aos melhores trabalhos de ponta na área. Empenhe-se para alcançar a excelência filosófica.

3. Alie-se a outros filósofos cristãos nos Estados Unidos. Espero que você seja membro da Sociedade Filosófica Evangélica e/ou da Sociedade de Filósofos Cristãos. Se você conseguir participar do encontro anual da sociedade evangélica, verá que a comunhão cristã ali é revigorante e o intercâmbio de ideias, estimulante. Dada a sua situação, você precisa formar um novo círculo de amizades, e estas sociedades permitem que você faça exatamente isto. Elas podem levar a trocas de mensagens de e-mail com pessoas a estudar assuntos parecidos, o que pode ajudá-lo a transcender as suas deprimentes circunstâncias imediatas.

4. Por fim, não se deixe amargurar. Seria compreensível e fácil ressentir os seus professores pelo desserviço que lhe estão fazendo. No entanto, essa “raiz de amargura” (Hebreus 12.15) só lhe trará dor. Confie que Deus o encherá com o Seu Santo Espírito e produzirá o fruto do Espírito (Gálatas 5.22-23) na sua vida. A sua provação terminará em breve, se Deus quiser, e você se formará muito mais bem preparado do que o foram os seus professores para seguir a carreira que Deus reservou para você.

- William Lane Craig