#731 Deus deve ser multipessoal?
September 12, 2021Olá, Dr. Craig.
Na pergunta da semana 447, “Perguntas de um mulçumano sobre a Trindade”, https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/perguntas-de-um-mulcumano-sobre-a-trindade, o senhor afirmou:
“Penso que se pode propor um argumento filosófico plausível contra o conceito unitário de Deus como o que se encontra no Islam. Conforme defendo em Filosofia e cosmovisão cristã, Deus, enquanto o ser máximo que se pode conceber, deve ser perfeito.
Ora, um ser perfeito deve ser amoroso. Isto porque o amor é perfeição moral; é melhor que a pessoa seja amorosa do que desamorosa. Deus, portanto, deve ser um ser perfeitamente amoroso. Ora, é da própria natureza do amor doar-se. O amor vai ao encontro do outro, em vez de concentrar-se totalmente em si. Assim, se Deus é perfeitamente amoroso, na Sua natureza mesma, Ele deve se doar em amor a outro. Mas quem é este outro? Não pode ser nenhuma pessoa criada, uma vez que a criação é resultado da livre vontade de Deus, e não resultado da Sua natureza. Faz parte da própria essência de Deus amar, mas não faz parte da Sua essência criar. Assim, podemos imaginar um mundo possível em que Deus é perfeitamente amoroso e, ainda assim, nenhuma pessoa criada existe. Assim, pessoas criadas não podem explicar suficientemente a quem Deus ama... Segue, portanto, que o outro ao qual o amor de Deus é, necessariamente, dirigido deve ser interno ao próprio Deus.
Em outras palavras, Deus não é pessoa sozinha e isolada, como sustentam formas unitárias de teísmo, a exemplo do Islam; antes, Deus é pluralidade de pessoas, conforme afirma a doutrina cristã da trindade. Segunda a visão unitária, Deus é pessoa que não se doa essencialmente em amor por outro; Ele se concentra essencialmente em Si mesmo. Portanto, Ele não pode ser o ser mais perfeito. No entanto, segundo a visão cristã, Deus é uma tríade de pessoas em relações de amor eternas e doadoras. Assim, uma vez que Deus é amoroso, na Sua essência, a doutrina da trindade é mais plausível do que qualquer doutrina unitária de Deus.
Como o senhor observa, este argumento não nos oferecerá exatamente três pessoas — o que não é lá motivo para reclamar. Ele já basta para tornar o conceito cristão de Deus mais plausível do que a concepção islâmica.
Como o senhor responderia a um muçulmano, se ele argumentasse contra isto da seguinte maneira: Deus não tem de agir segundo a Sua capacidade de amar; desde que Ele tenha a capacidade de amar, ele pode ser visto como amoroso. Isto se assemelha a dizer que Deus é onipotente. Deus não tem de agir segundo tal capacidade (por exemplo, ao criar o mundo) a fim de ser onipotente. Ele poderia jamais ter criado nada e, ainda assim, ser onipotente, pois tem tal capacidade — i.e., Ele é todo-poderoso na Sua capacidade. Do contrário, se, para Deus ser amoroso, é necessário que Ele seja pluralidade de pessoas, conforme afirma a doutrina da trindade, segue que, para Deus ser onipotente, é necessário que Ele crie o mundo para expressar a Sua onipotência. Isto significaria que Deus não criou o mundo livremente, mas, sim, por necessidade (o que muçulmanos e cristãos julgariam censurável). Como o senhor responderia, Dr. Craig?
Anônimo
United States
Dr. Craig responde
A
Penso que esta resposta é a maneira mais óbvia e plausível de reagir ao argumento. Ela afirma que alguém que tenha a disposição para amar é tão grande quanto alguém que é, de fato, amoroso. A título de analogia, pense no marinheiro abandonado numa ilha deserta que tem a disposição para amar o próximo, mas, circunstancialmente, não tem ninguém para amar. Será que ele não é tão excelente do ponto de vista moral quanto alguém que tenha outra pessoa a quem ame de fato?
Pois bem, isto não me é tão óbvio assim. A pessoa que, de fato, ama outra me parece exibir excelências morais que faltam à outra. A tentativa de justificar a equação da disposição para amar com o amor real, seguindo a analogia com a onipotência, claramente não funciona, penso eu, porque a onipotência é, evidentemente, propriedade modal (a saber, a capacidade de fazer certas coisas), e não propriedade de facto (por exemplo, realmente fazer tais coisas), ao passo que amar não é propriedade modal, mas propriedade de facto que a pessoa tem ou não. Assim, embora Deus seja onipotente, criando ou não o mundo (uma vez que, nos dois casos, Ele ainda tem a capacidade de criar o mundo), se Deus existe sozinho como pessoa solitária, Ele não é amoroso, mesmo que tenha a disposição para amar.
Além disso, observe que, no caso de Deus, se ele é pessoa sozinha (como no Islam), Ele não é amoroso, em Sua essência. Ele ser amoroso dependerá, como no caso do marinheiro ilhado, do fato contingente de que há outra pessoa para amar. Porém, se Deus é uma trindade, ele é essencial e necessariamente amoroso. Assim, o que é maior, um ser que tem a disposição para amar e, na melhor das hipóteses, é contingencialmente amoroso, ou um ser que não somente tem a disposição para amar, mas é essencialmente amoroso?
- William Lane Craig