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#608 Deus e a eficácia desproporcional da matemática

April 01, 2019
Q

Caro Dr. Craig,

Sou um cristão que realmente aprecia seu trabalho, e gostaria de saber se teria tempo para responder a uma breve pergunta minha. Já mandei algumas perguntas antes, mas sempre descobri logo em seguida que elas já tinham sido respondidas em algum lugar neste site gigantesco. Portanto, procurei minuciosamente, mas não consegui encontrar nenhuma resposta à questão; então, faço aqui esta pergunta.

Vi em um de seus artigos de divulgação, onde se propõem oito motivos para a crença em Deus, que o senhor pensa na aplicabilidade da matemática ao mundo natural como bom motivo para a crença em Deus. Originalmente, não consegui ver problema nisso, e fiquei estupefato de que um argumento tão bom assim a) não havia sido criado antes e b) não era mais popular depois de tê-lo criado. Fiquei surpreso que artigos, livros, tratados e críticas não estão sendo escritos em relação ao que se poderia denominar “o duro problema da matemática”. Só me restou tentar encontrar respostas ao problema, mas nenhuma delas teve êxito.

No entanto, à medida que pensava nisto, ocorreu-me que o argumento não era tão convincente como aparentava a princípio. Para começo de conversa, não se poderia dizer que a maior parte do mundo matemático não seja aplicável ao mundo natural? Alguns conceitos, geralmente conhecidos apenas de pensadores no nível mais elevado, não têm aplicação alguma. Indo além, não se poderia ainda notar as tantas coisas que a matemática e a ciência não podem explicar (por exemplo, amor, a alma, Deus), e isto não poderia ser prova substancial contra uma teoria assim?

Em segundo lugar, por que não descartar o problema inteiro, de uma vez por todas, e dizer que a razão para a correlação antinaturalmente simples entre as duas se reduz à evolução? Ou seja, quem vê o nexo entre as duas é o mesmo que tem mais chances de sobreviver, considerando que tem mais conhecimento do mundo ao seu redor (entendo que se trate da razão mais discutível, e tampouco tenho plena certeza a seu respeito, mas sinto que ela mereça uma resposta à altura).

O motivo por que sinto a necessidade de fazer um papel desses como advogado do diabo é simplesmente que não consigo enxergar por que uma prova tão boa assim (ao meu ver, prova irrefutável) não entrou na esfera acadêmica e pública. Mesmo indo além das minhas críticas no momento, só consigo pensar que deve haver um segredo escondido em algum lugar e que, de certa forma, nada disso é tão bom quanto parece. Obviamente, todos continuaríamos sendo cristãos, se não houvesse nenhum problema. Contudo, foi esta também minha atitude diante do argumento ontológico modal de Alvin Plantinga, que eventualmente vim a aceitar. Se esses problemas não se sustentarem, terei de concluir que tudo isso é mesmo tão bom quanto parece. Se for o caso, acho que vou começar a espalhar a ideia.

Enfim, agradeço por ler minha pergunta, e mil desculpas se, depois de fazer toda minha verificação, não ter visto que o senhor já deu uma resposta em algum outro lugar.

Muito obrigado,

Josh

Reino Unido

United Kingdom

Dr. Craig responde


A

Para quem não está familiarizado com o argumento a favor de Deus a partir da aplicabilidade da matemática ao mundo físico, segue aqui uma formulação simples que eu uso:

1. Se Deus não existe, a aplicabilidade da matemática ao mundo físico se trata apenas de uma feliz coincidência.

2. A aplicabilidade da matemática ao mundo físico não se trata apenas de uma feliz coincidência.

3. Logo, Deus existe.

Concordo com você que este é um argumento teísta extremamente persuasivo. Basta ver como Alex Rosenberg ficou fugindo do assunto quando o propus em meu debate com ele![1]

Deixemos de lado, por um instante, o motivo por que o argumento não é usado mais amplamente. Considere suas duas respostas a ele.

Primeiramente, “não se poderia ainda notar as tantas coisas que a matemática e a ciência não podem explicar (por exemplo, amor, a alma, Deus), e isto não poderia ser prova substancial contra uma teoria assim?” Uma rápida reflexão mostrará que a questão é equivocada. No argumento, ninguém está tentando explicar as coisas por meio da matemática e da ciência; antes, a tentativa é explicar por que a matemática, que diz respeito a um domínio causalmente desconexo e abstrato ou um domínio meramente do faz-de-conta, é tão cientificamente útil em descrever a forma como o mundo funciona. É claro que há coisas que não são matematicamente descritíveis, como amor ou pessoas, mas o argumento diz respeito àqueles aspectos da realidade, sobretudo estudados pela física, que o são.

Mas “não se poderia dizer que a maior parte do mundo matemático não seja aplicável ao mundo natural?” Perfeitamente! O alvo mais elevado da teoria dos conjuntos e as ordens superiores da aritmética transfinita são incapazes de se realizarem fisicamente e, por isso, o mundo não exibe uma estrutura assim. Porém, resta ainda uma questão: por que o mundo físico tem esta estrutura matemática incrivelmente complexa, de tal maneira que os cálculos matemáticos lhe sejam aplicáveis? Seria apenas uma feliz coincidência? Ou seria o produto de um arquiteto inteligente?

Em segundo lugar, “por que não... dizer que a razão para a correlação antinaturalmente simples entre as duas se reduz à evolução? Ou seja, quem vê o nexo entre as duas é o mesmo que tem mais chances de sobreviver”. Esta pergunta se baseia numa confusão entre epistemologia e ontologia, Josh. Ninguém está tentando explicar como ou por que temos conhecimento matemático, mas por que o mundo físico é descritível pela matemática, quer alguma forma de vida inteligente tenha evoluído ou não, ou então acumulado um repertório de conhecimento matemático.

Suponha que as criaturas com mais chances de sobreviver sejam aquelas que conseguem discernir a aplicabilidade da matemática ao mundo. Permanece ainda a mesma questão: para começo de conversa, por que a aplicabilidade da matemática à natureza está aí para ser discernida? A evolução não trata da questão.

Agora, a pergunta valendo um milhão de dólares: por que um argumento tão forte assim não é mais popular? Por que artigos, livros, tratados e críticas não estão sendo escritos em relação ao que se poderia denominar ‘o duro problema da matemática’”? Bem, na verdade, estão sendo, sim, se com “o duro problema da matemática” você quis dizer a aplicabilidade da matemática ao mundo físico. No entanto, essas discussões acontecem na filosofia da matemática — por sinal, uma disciplina diminuta, na qual quase nenhum filósofo cristão se especializa. O único cristão filósofo da matemática que conheço é Christopher Menzel, na Universidade do Texas A&M, e não sei bem se ele já escreveu sobre o assunto. Também tenha em mente que a filosofia da matemática existe mesmo enquanto disciplina somente desde os Fundamentos da aritmética (1884), de Gottlob Frege, e que o positivismo antiteísta dominou a filosofia até o fim do século XX, quando teve início a renascença da filosofia cristã. Para ilustrar, o destacado filósofo alemão Bernulf Kanitscheider, em Natur und Zahl [Natureza e número] desconsidera a visão medieval de que entidades matemáticas existam na mente de Deus, dizendo que ela “não é mais aceita no mundo secular atual”, sendo, portanto, obsoleta, bem como incompatível com o naturalismo materialista.[2] Mark Steiner, filósofo da matemática, escreveu em profundida sobre o problema, reconhecendo que a aplicabilidade da matemática se constitui “um desafio ao naturalismo”.[3] Infelizmente, filósofos seculares jamais consideram seriamente que o teísmo seja uma opção, e quase não há cristãos trabalhando na área para desafiá-los.

Em sua retrospectiva “Christian Philosophy at the End of the 20th Century” [Filosofia cristã no fim do século XX], Alvin Plantinga pergunta como se deram os cristãos ao propor e desenvolver argumentos para a existência de Deus. Ele responde assim: “De maneira geral, penso eu, não muito bem... muito mais pode e deve ser feito. Existe mesmo uma multidão de bons argumentos teístas, todos pacientemente esperando para serem desenvolvidos detalhada e profundamente. Trata-se de uma área em que filósofos cristãos contemporâneos têm muito trabalho a fazer”.[4] Plantinga menciona, especificamente, argumentos a partir de conjuntos e números, embora não mencione a aplicabilidade da matemática. O argumento da aplicabilidade é mencionado, entretanto, por Tyron Goldschmidt e Robin Collins em seus ensaios preparados para o volume em homenagem a Alvin Plantinga, Two Dozen (or so) Arguments for God.[5] Não há aí segredo algum. Só precisamos de mais filósofos e matemáticos cristãos.

Já pode começar a espalhar a ideia!


[1] Ver William Lane Craig e Alex Rosenberg, Is Faith in God Reasonable? Debates in Philosophy, Science, and Rhetoric, ed. Paul Gould e Corey Miller, Routledge Studies in the Philosophy of Religion (Londres: Routledge, 2014); para uma gravação em vídeo (que, entretanto, não inclui os comentários finais de Rosenberg dirigindo-se àqueles que nos responderam no livro), ver https://www.youtube.com/watch?v=bhfkhq-CM84.

[2] Bernulf Kanitscheider, Natur und Zahl: Die Mathematisierbarkeit der Welt (Berlim: Springer Verlag, 2013), pp. 92-93, 205.

[3] Mark Steiner, Mathematics as a Philosophical Problem (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1998), p. 176.

[4] Alvin Plantinga, “Christian Philosophy at the End of the Twentieth Century,” in The Analytic Theist: An Alvin Plantinga Reader, ed. James F. Sennett (Grand Rapids, Mich.: William B. Eerdmans, 1998), p. 339.

[5] Two Dozen (or so) Arguments for God, ed. Jerry L. Walls e Trent Dougherty (Oxford: Oxford University Press, 2018), pp. 74, 91.

- William Lane Craig