#607 Podemos concordar em discordar?
April 01, 2019Caro Dr. Craig,
Recentemente, muito se tem debatido na academia sobre a relevância epistêmica da discordância religiosa. Isto deu origem a um argumento bastante popular contra a crença teísta e a favor do agnosticismo. Em linhas gerais, o argumento diz que, quando partes iguais — com mesma perspicácia, inteligência e acesso às informações relevantes — discordam quanto a determinado enunciado, deveriam suspender o juízo. Pois bem, partes iguais na academia que satisfazem a tais condições discordam quanto ao teísmo. Portanto, deveriam suspender o juízo. Parece que, daí, aqueles que não têm a mesma perícia deveriam seguir o exemplo, também suspendendo o juízo quanto à racionalidade da crença teísta. Todos deveríamos nos manter agnósticos. Chamemos este argumento de “argumento agnóstico a partir da humildade epistêmica”.
Para ser honesto, parece-me que este argumento é contraditório. Partes iguais na academia discordam sobre a força do argumento (Plantinga, van Inwagen e o senhor já se posicionaram contra objeções semelhantes). Portanto, todos deveríamos suspender o juízo quanto ao “argumento agnóstico a partir da humildade epistêmica”. O argumento também parece ignorar a importância da tenacidade na crença. Se Galileu tivesse abandonado seu compromisso com o heliocentrismo diante da discordância de seus pares, todos nós teríamos saído prejudicados por isso.
No entanto, também parece razoável ponderar um pouco sobre o fato da discordância (eu diria que o dogmatismo do neoateísmo levou à sua derrocada).
Assim, em seu ponto de vista, como deveríamos levar em conta a discordância de nossos pares em nossos juízos? E como podemos evitar o dogmatismo, enquanto permanecemos completamente comprometidos com nossa fé?
Em Cristo,
Graham
Reino Unido
United Kingdom
Dr. Craig responde
A
Graham, fico impressionado com sua habilidade em mostrar a natureza contraditória dessa objeção! Quem propõe a objeção acaba tropeçando no próprio pé.
É assim que eu avaliaria a relevância da discordância por parte de colegas que respeitamos. O fato da discordância em si mesmo nada faz para solapar os motivos pelos quais mantenho uma perspectiva. Antes, o fato de que alguém inteligente e, aparentemente, honesto discorda comigo deveria me fazer reexaminar os motivos pelos quais eu creio no que creio, vendo, assim, se cometi alguém deslize. Se, após reavaliar meus motivos, eles continuarem a me parecer convincentes, eu deveria continuar a crer como já o faço. Eu e meu colega podemos simplesmente concordar em discordar. Não tenho de abandonar meu ponto de vista simplesmente porque ele discorda de mim. Antes, eu devo abandonar minha ideia se eu vir que cometi um deslize lógico ou um erro factual. É a descoberta de erro, e não a mera presença de discordância, que me levará a alterar meu ponto de vista.
Assim, colegas podem, sim, ser tubos de ensaio muito valiosos para testarmos nossas ideias. Evitamos, desse modo, o dogmatismo. Devemos partilhar nossos argumentos com eles pare receber uma avaliação. Se eles expuserem equívocos em nosso raciocínio, podemos revisar nossas ideias e agradecer-lhes pela correção. Porém, se simplesmente discordamos, não há nenhum motivo para abandonar o que julgamos ser verdade.
- William Lane Craig