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#742 Deus, o tempo e a criação

September 12, 2021
Q

Muitos ficam surpresos com a sua visão sobre Deus e o tempo... Esta é a objeção que pessoas como Paul Helm levantaram, mais ou menos assim: qual é exatamente a relação entre a fase atemporal de Deus e a sua fase temporal? Em particular, como um Deus atemporal pode ser causalmente responsável pela existência do universo temporal? Tipicamente, os filósofos dizem que causas são temporalmente anteriores aos seus efeitos. Bem, não pode ser o que está em jogo aqui. Um Deus atemporal não pode existir temporalmente antes de nada, muito menos temporalmente antes de um efeito. A causação simultânea tampouco parece ajudar, pois simultaneidade é relação temporal. Um Deus atemporal não pode ser simultâneo a nenhuma coisa temporal. Assim, o que está em jogo, neste caso? Qual é a relação entre a fase atemporal de Deus e a sua fase temporal?

Ryan

Finland

Dr. Craig responde


A

Intuitivamente, é possível que Deus exista imutavelmente sozinho sem o universo e, assim, seja atemporal. Uma vez que Ele é agente livre, no entanto, Ele pode causar livremente que ocorra um evento, a criação do universo. Esse momento não é apenas o primeiro momento do tempo em que o universo existe, mas também o primeiro momento de tempo em que Deus existe. Existe, porém, esta enorme diferença entre eles. O universo veio a existir no primeiro momento da sua existência, mas Deus não. Deus não começou a existir naquele momento; Ele meramente começou a ser temporal. Assim, embora Ele não fosse cronologicamente anterior ao começo do universo, era, de algum modo, ontologicamente anterior ao começo do universo. Podemos dizer que Deus é causalmente anterior ao começo do universo no sentido de que, sem a existência de Deus à parte do universo, o universo não poderia ter vindo à existência. Deus é o ser atemporal que causa o começo da existência do universo.

Há uma analogia na cosmologia contemporânea. A singularidade cosmológica inicial a partir da qual o big bang surge no modelo convencional não é um momento no tempo e espaço. Antes, é a fronteira do tempo e espaço, que alguém não pode atravessar. Se você voltar no tempo, eventualmente topará com esse momento fronteiriço além do qual não pode ir. Tal momento é topologicamente anterior a todo momento no espaço-tempo. Igualmente, a eternidade divina é a fronteira do tempo. Se você voltar no tempo, eventualmente topará com o começo do tempo na fronteira da eternidade divina.

Em jogo, neste caso, são duas diferentes visões de causação. Em linhas gerais, de acordo com a noção medieval de causação eficiente, um agente causal C traz à tona um efeito E ao executar uma ação A (e, a menos que A seja permanente, podemos acrescentar “no tempo t”). Na minha afirmação do argumento cosmológico kalam, pressupus esta noção medieval. De fato, na minha formulação do argumento, a causa e o efeito são substâncias: Deus é a causa do universo. Em contraste, se empregarmos uma noção moderna de causação de eventos, teremos de reformular a premissa causal do argumento: se o universo começou a existir, o universo tem uma causa para o seu começo. No caso, a causa de tal evento não é Deus, mas o evento da criação divina do universo. A título de analogia, no sentido medieval, os meus pais são a minha causa, mas, no sentido moderno, a unificação do esperma e do óvulo deles é a causa do começo da minha existência.

Por isso, quando falamos de uma causa atemporal do universo, o fazemos no sentido medieval. A causa do universo é Deus, o qual é atemporal à parte do universo. Porém, no sentido moderno, a causa do começo da existência do universo é a criação divina do universo, simultânea com o começo do universo. Estes dois sentidos são compatíveis, tratando-se apenas de dois modos diferentes de observar a questão.

- William Lane Craig