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#743 Deus, a liberdade e o mal

September 12, 2021
Q

Caro Dr. Craig,

Meu nome é Klil, sou adolescente e vivo em Tel Avive, Israel. Embora eu venha de um lugar que não é cristão, tenho muito interesse no cristianismo, além da filosofia da religião. No momento, estou escrevendo um trabalho como parte dos meus estudos em filosofia na Universidade Bar Ilan de Israel. O trabalho trata do problema do mal, e atualmente estou lutando com o paradoxo da onipotência.

Questiono como um Deus todo-poderoso não tem outra escolha, senão permitir o mal, mesmo que este seja componente logicamente necessário para alcançar o bem maior.

Qual é a sua solução para o paradoxo da onipotência? Como o senhor explicaria um Deus onipotente sujeito a leis da lógica, de modo que a única coisa que ele pode fazer é permitir o mal? E, mesmo que se prove a possibilidade de um Deus sujeito a leis da lógica, como se prova que o mal é logicamente necessário para o melhor de todos os mundos possíveis? Se o mal é um meio para um fim, será que Deus não pode simplesmente nos dar o fim sem usar o meio? Há alguma contradição nesta possibilidade? Se sim, por quê? Muito obrigado de antemão. Aliás, gosto muito e aprendo demais ao assistir aos seus debates e ao conteúdo do seu canal do YouTube, mesmo como agnóstico curioso!

Klil

Israel

Dr. Craig responde


A

Que maravilha receber uma mensagem de alguém em Israel, Klil! Guardamos com carinhos as poucas vezes em que pudemos visitar o seu belo país. Fico feliz em saber do seu interesse na fé cristã e na filosofia da religião.

Parece-me que o seu desconcerto se deve à pressuposição de que “um Deus todo-poderoso não tem outra escolha, senão permitir o mal”. Duvido que alguém mantenha tal pressuposição, Klil, uma vez que ela parece tão patentemente falsa. Com certeza, há mundo possíveis onde Deus se abstém totalmente da criação e, portanto, nenhum mal existe. Assim, Deus pode, com certeza, escolher não permitir o mal.

Por isso, não há nenhuma necessidade lógica de que o mal exista. De fato, há mundos possíveis onde agentes morais livres criados por Deus existem e sempre fazem o que é bom, de modo que a bondade moral exista sem o mal moral. Tais mundos podem até ser factíveis para Deus, dadas as hipóteses verdadeiras da liberdade das criaturas no que diz respeito ao modo como fariam escolhas livres em quaisquer circunstâncias em que Deus viesse a criá-las. Mundos assim, porém, seriam carentes em outros aspectos, de modo que, no balanço geral, Deus não os prefere aos mundos com mal. Alvin Plantinga sugeriu até que a morte sacrificial de Cristo pelos pecados do mundo é um bem tão incomensurável que sobrepuja os males no mundo por ela subentendidos, justificando, portanto, a escolha de Deus por um mundo com mal moral!

Penso que seja designação imprópria falar de um “Deus onipotente sujeito a leis da lógica”. Deus não está sujeito a nada; antes, as leis da lógica são, simplesmente, descrições de como é Deus, um ser supremamente racional. Ademais, pense nisto: se Deus é capaz de violar as leis da lógica, o problema do mal evapora de imediato. Será que é logicamente impossível que um Deus onipotente e o mal coexistam? Não há nenhum problema! Deus pode provocar o logicamente impossível!

Igualmente, talvez não haja algo como “o melhor mundo possível”. Trata-se de afirmação muito controversa! Pode ser que mundos possíveis simplesmente vão ficando cada vez melhor, sem limites. Assim, Deus não está sob a obrigação de criar o melhor mundo possível, uma vez que tal coisa não existe. Mesmo que exista, talvez seja um mundo sem mal. Embora um mundo assim seja logicamente possível, talvez não seja plausível para Deus realizá-lo, dadas as hipóteses verdadeiras da liberdade das criaturas.

Se o mal é um meio para um fim, será que Deus não pode simplesmente nos dar o fim sem usar o meio?” Não necessariamente! Suponha, pois, que o fim é a realização de certas livres decisões das criaturas. Neste caso, a realização do fim subentende que as próprias criaturas escolham livremente o que fazer, e algumas escolhas talvez sejam más. Neste caso, seria contradição lógica realizar os fins sem os meios, porque os fins subentendem os meios. Suponha que o fim que Deus tem em mente é que você livremente O adore. Deus poderia, num passe de mágica, criá-lo já O adorando, sem que você assim escolhesse, mas isto não se trataria do fim da sua livre adoração a Deus, mas, sim, de um fim bastante diferente, estranho ao propósito de Deus. É claro que, por Deus lhe dar a liberdade de escolha, entende-se que você talvez livremente escolha frustrar o propósito de Deus para você.

Klil, fico feliz que você esteja lutando com estas questões. Incentivo-o a ler a discussão de Alvin Plantinga sobre o problema do mal em Deus, a liberdade e o mal (1974). Assim, penso que as coisas vão ficar muito mais claras para você.

- William Lane Craig