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#769 Deus, tempo e mudança

April 09, 2022
Q

Caro Dr. Craig,

Minha pergunta diz respeito ao tempo, mudança, e como tudo isto se relaciona com Deus. É algo que eu, como ateu, tenho debatido com cristãos por mais tempo e queria ouvir as suas ideias. Costuma-se dizer que deus é mente incorpórea. Pois bem, mentes pensam! É o que mentes fazem. Uma mente desencarnada que não pensa, em certo sentido, não existe.

No entanto, pensar é processo temporal, é evento temporal. Como seria logicamente possível que uma mente imaterial pensante realmente existisse fora do tempo? Poderíamos argumentar, mais formalmente, com o argumento seguinte que encontrei online:

P1. É logicamente impossível fazer algo sem fazer algo.

P2. Daí, segue uma consequência inequívoca—o que quer que exista espiritualmente deve também mudar espiritualmente.

P3. É logicamente impossível que exista mudança sem tempo.

C. Assim, um ser atemporal e imutável não pode fazer nada.

Sobre a natureza de deus e o tempo, o senhor disse no seu site que “Uma sequência de eventos mentais, por si só, é suficiente para gerar relações de anteriores e posteriores, sem nenhuma dependência de quaisquer eventos físicos”. Isto significa que, se deus fosse contar de 1 a 10, sempre haveria um momento antes de ele contar e um momento após ele contar. Isto significa que, a fim de pensar, não se pode escapar, logicamente, da dimensão do tempo, mesmo na ausência de matéria física. Pareceria também que a ausência de tempo e da posse de qualidades temporais impede qualquer capacidade de pensar, além da capacidade de executar a própria vontade. Todos estes eventos são temporais, exigindo qualidades temporais.

A alternativa do Dr. Craig é que deus se torna temporal com a criação do tempo. Penso que seja algo absurdo. Primeiramente, não é coerente, do ponto de vista lógico, que um ser exista em estado de atemporalidade e, então, escolha criar o tempo. Um ser atemporal deve ser estático e congelado em todas as possibilidades, pela própria definição; do contrário, qualquer mudança de estado, seja físico ou mental, exige tempo. Um ser atemporal, portanto, não poderia ter “criado” o tempo, porque o tempo em si deve, necessariamente, exigir a sua própria criação, caso exista um ser anterior a si que o crie direito.

Para concluir, só quero agradecer por sua resposta e seu trabalho incrível, dr. Craig. Valeu!

George

Estados Unidos

Dr. Craig responde


A

Sempre me alegro ao ler uma mensagem de alguém que ainda não crê em Deus, George! Espero que, à medida que se envolve com estas questões fascinantes, você se achegue mais a Deus na sua jornada espiritual.

Tratei de todas essas questões nos meus livros — p.ex., Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time [Tempo e eternidade: investigando a relação de Deus com o tempo] (Wheaton, Ill.: Crossway, 2001), em especial o capítulo sobre a possibilidade de pessoalidade atemporal, que recomendo que você leia. Vale observar de passagem que as minhas visões sobre Deus e o tempo são apenas uma opção entre muitas. Como os dados bíblicos são subdeterminantes, os teístas cristãos defendem uma ampla variedade de perspectivas sobre a relação de Deus com o tempo e a mudança. Há quem defenda visões segundo as quais Deus é atemporal e imutável, ou visões segundo as quais Deus é onitemporal e em constante mudança. O meu ponto de vista é híbrido: Deus é atemporal sem a criação e temporal desde o primeiro momento da criação.

Concordo com você que Deus (sem a encarnação) é mente incorpórea (atenção: e não desencarnada) que, por ser autoconsciente, é pensante. A questão, portanto, é se o pensar se trata de processo essencialmente temporal. Embora alguns filósofos tenham defendido tal posição, não consigo pensar em nenhum bom argumento a favor dessa afirmação. Desde que o estado mental da pessoa seja imutável, não há nenhuma necessidade de que ela seja temporal. Parece completamente coerente conceber uma pessoa atemporal com estado mental imutável, especialmente se tal pessoa for onisciente e, portanto, não precisar aprender nenhuma verdade nova. Não leva nenhum tempo para saber algo — por exemplo, a proposição de que Eu sou Deus ou 2+2=4 ou Em 1492, Colombo descobre a América (o negrito a indicar que o verbo não tem marca de tempo). Se o estado mental de Deus for imutável, Deus, por existir sozinho sem a criação, não existirá atemporalmente, segundo a visão relacional do tempo, que diz não poder existir tempo na ausência de eventos.

Quanto ao argumento que você descobriu online, embora eu concorde com (P3), estou seguro de que você tenha a perspicácia lógica para ver que (P2) não segue de (P1), que é tautologia, pura e simplesmente. De fato, como vimos, (P2) é falso do ponto de vista da plausibilidade. É perfeitamente possível que um ser espiritual exista imutavelmente, assim como inúmeros teístas têm sustentado com relação a Deus. Logo, (C) não procede. Em particular, um ser atemporal e imutável pode pensar. E devo acrescentar que ele também pode ter volição, caso a sua volição não mude.

Ora, uma vez que contar envolveria uma sucessão de estados mentais, um ser imutável e atemporal não pode participar do ato de contar. Se Deus fizesse contagem regressiva até à criação: “3, 2, 1... Haja luz!”, o tempo começaria, não no momento da criação, mas antes, quando Deus começasse a contar. No entanto, a sua inferência não procede de que: “Isto significa que, se deus fosse contar de 1 a 10, sempre haveria um momento antes de ele contar e um momento após ele contar”. Por que pensar que haveria um momento anterior à Sua contagem? Por que não pensar, pelo contrário, que o tempo começaria com o primeiro evento de contagem? De fato, como será que ele poderia começar antes, num estado imutável, desprovido de quaisquer eventos? Na total ausência de eventos, não haveria nenhum tempo, e o tempo começaria com o primeiro evento. Assim, haveria tanto um primeiro evento quanto um primeiro momento de tempo (assim como o creem os cosmólogos!). Por esta razão, tomo cuidado ao dizer que Deus, ao existir sozinho sem a criação, em vez de antes da criação, é atemporal.

Quanto à afirmação de que a minha posição é absurda, não penso que qualquer incoerência lógica tenha sido demonstrada para este ponto de vista. A afirmação: “Um ser atemporal deve ser estático e congelado em todas as possibilidades, pela própria definição; do contrário, qualquer mudança de estado, seja físico ou mental, exige tempo” gratuitamente pressupõe que a condição temporal de Deus (isto é, a Sua relação com o tempo) é propriedade essencial de Deus, e não contingente. Tal pressuposto não é apenas injustificado, mas penso que patentemente falso. Suponha que Deus, em virtude de estar relacionado a mudar coisas no mundo, seja temporal. Imagine, porém, um mundo possível em que Deus se abstenha da criação, mas simplesmente exista sem mudança sozinho. Segundo a visão relacional do tempo, Deus seria atemporal em tal mundo possível. Assim, quer Deus seja temporal, quer atemporal, nada disto é propriedade essencial de Deus, mas, sim, contingente. Portanto, é falso que um ser atemporal deva ser “estático e congelado em todas as possibilidades, pela própria definição”. Um ser atemporal pode mudar, se quiser.

Obviamente, se ele fosse mudar, como Lhe é perfeitamente possível fazer, ele estaria no tempo. Por esta razão, temos tido o cuidado de falar da ausência de mudança de Deus sem a criação, e não da imutabilidade de Deus sem a criação. Deus não precisa ser imutável a fim de existir na ausência de mudança. Para Ele, escolher mudar é questão contingente, dependente do Seu livre-arbítrio. No mundo real, Deus existe precisamente na mesma situação sem a criação, como o faz no mundo habitual e, portanto, é plausivelmente atemporal sem a criação, embora Ele seja temporal assim que cria o mundo, e o tempo começa.

A outra afirmação: “qualquer mudança de estado, seja físico ou mental, exige tempo” é ambígua. Se quer dizer que qualquer mudança de estado implica a existência do tempo, a afirmação é verdadeira. É precisamente por esta razão que o ato divino de criar o universo traz à tona o tempo, e Ele entra no tempo. Porém, se a declaração significa que, a fim de que Deus mude, o tempo deve já existir, a declaração é falsa. Segundo a visão relacional do tempo, o tempo é a consequência da ocorrência de um evento. Assim, a afirmação: “Um ser atemporal, portanto, não poderia ter ‘criado’ o tempo, porque o tempo em si deve, necessariamente, exigir a sua própria criação, caso exista um ser anterior a si que o crie direito” é forçada, por acrescentar a oração “caso exista um ser anterior a si que o crie direito”. Isto porque, segundo a visão relacional do tempo, nega-se precisamente que haja um ser anterior ao primeiro momento do tempo.

Antes, Deus existe na ausência de mudança e atemporalmente, sem a criação. Ele livremente exerceu um ato de poder causal para trazer o universo à existência, trazendo também à existência o tempo como concomitante a esse primeiro evento. Quando Ele fez isto? Aproximadamente 13,8 bilhões de anos atrás.

- William Lane Craig