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#223 Duas Perguntas sobre o Molinismo

October 28, 2014
Q

Dr. Craig,

Eu recentemente peguei o livro "Four Views on Divine Providence” [Quatro Visões sobre a Providência Divina], e eu gostei de sua contribuição sobre Molinismo. Notei que havia um par de argumentos contra o molinismo levantados por Gregory Boyd que você não teve a oportunidade de abordar no livro, então eu queria dar-lhe a oportunidade de responder a estas objeções:

1. O Molinismo resulta em uma forma de Platonismo? Boyd diz:

"... Eu diria que Molinismo constitui, na verdade, uma forma de dualismo metafísico, pois postula uma realidade eterna, mas ainda contingente juntamente com Deus, que Deus não escolheu nem criou, [a saber, os contrafactuais verdadeiros da liberdade das criaturas]. Este enorme corpo de fatos contingentes não criados e não-causados simplesmente existiam, juntamente com Deus, desde toda a eternidade como uma metafísica bruta irracional."

2. Será que a versão molinista de contrafactuais de liberdade divina reforça a chamada "objeção de fundamento"? Boyd diz:

"A razão de o Molinismo sofrer com a objeção de fundamento é porque justamente entende que contrafactuais 'iria' minam a liberdade libertária se Deus faz com que sejam verdade, mas não consegue entender que contrafactuais 'iria' minam a liberdade libertária independentemente de quem faz com que sejam verdade e até mesmo (apesar de impossível) se elas não têm quem as faça ser verdade. Curiosamente, Craig chega perto de admitir tanto, quando ele nega que Deus tem "conhecimento médio de como ele mesmo iria escolher em qualquer conjunto de circunstâncias". Se Deus tivesse tal conhecimento, Craig afirma: 'Iria destruir a liberdade de Deus, uma vez que a verdade de tais chamados contrafactuais de liberdade divina seriam 'anteriores a', e, portanto, independentes do decreto de Deus.' Mas como é que verdadeiras contrafactuais 'iria' da livre atividade de Deus minariam a liberdade de Deus se eram conhecidos antes de seu decreto, enquanto verdadeiras contrafactuais 'iria' de nossa atividade livre não minam nossa liberdade quando eram conhecidas antes de nosso decreto (ou seja, a nossa decisão)? A lógica que prejudica a liberdade de um mina a liberdade do outro também."

Eu sei que você recebe um monte de perguntas, mas eu realmente apreciaria se você pudesse responder a estes pontos para mim. Seria uma grande ajuda.

Obrigado,

Justin

United States

Dr. Craig responde


A

Eu acho que essas duas objeções são facilmente respondidas, Justin.

1. O Molinismo é independente dos pontos de visões de alguém sobre o status ontológico das proposições. O Molinismo sustenta que, logicamente antes de Seu decreto criativo, Deus sabe, por exemplo, que Pedro iria livremente negar a Cristo em circunstâncias C. Mas, acreditar nisso não compromete alguém com a realidade de objetos abstratos como as proposições. Tais compromissos ontológicos surgem somente se alguém (como os filósofos dizem) "ascende semânticamente" para fazer a afirmação de que Deus sabe que é verdade que Pedro iria livremente negar a Cristo, etc. Não há necessidade de fazer essa ascensão semântica para falar sobre a verdade de uma proposição, em vez de apenas afirmar o próprio conteúdo proposicional. Claro, é natural e conveniente falar sobre quais proposições Deus sabe ser verdade, mas essa conversa pode ser tomada apenas como uma façon de parler (modo de falar).

Observe que, se a objeção de Boyd fosse sólida, então até mesmo os Teístas Abertos seriam confrontados com o pluralismo metafísico, uma vez que eles sustentam que, logicamente antes de Seu decreto, Deus sabe uma infinidade de proposições necessariamente verdadeiras, como 2 + 2 = 4; Deus existe; Se está chovendo, então está chovendo, etc. Se as proposições conhecidas por Deus nessa fase são contingentemente verdadeiras ou necessariamente verdadeiras é irrelevante. O ponto é que existem verdades conhecidas por Deus antes de Seu decreto criativo, e, por isso, se tal conhecimento necessita a realidade das proposições, então se está preso com pluralismo metafísico.

Finalmente, pode-se ascender semanticamente para falar sobre a verdade e ainda evitar o pluralismo metafísico, adotando o Conceitualismo, segundo o qual o que platônicos chamam proposições são realmente pensamentos na mente de Deus. Nesta visão, não há portadores abstratos de valor de verdade independente de Deus. Tal visão é tão aberto ao molinista como a qualquer pessoa.

2. A segunda objeção confunde a chamada objeção de fundamento com uma preocupação bastante diferente. A objeção de fundamento tem a ver com o que faz com que contrafactuais de liberdade das criaturas sejam verdade. Se alguém nega que tais contrafactuais precisam ou tem fazedores de verdade, então tal objeção é imediatamente dissolvida. Boyd confunde a objeção de fundamento com sua preocupação de que, se conhecendo contrafactuais de liberdade divina antes de seu decreto, Deus oblitera sua liberdade, então Seu conhecimento de contrafactuais de liberdade das criaturas em tal ponto deveria remover a liberdade de forma semelhante.

Essa objeção surge de uma falha em entender por que Deus não pode ter conhecimento de contrafactuais de liberdade divina antes de Seu decreto. É simplesmente porque, então, a verdade de tais contrafactuais estaria fora do Seu controle, assim como Seu conhecimento natural e médio estão fora do Seu controle. Mas a verdade das contrafactuais de liberdade das criaturas não são logicamente antes da tomada de decisões das criaturas, e por isso não estão fora de Seu controle. A questão é que quem quer que seja o conhecedor, ele não pode ter conhecimento de contrafactuais de liberdade sobre suas próprias escolhas logicamente antes de suas próprias escolhas. É por isso que você poderia ter conhecimento médio apenas das decisões livres dos outros. Ninguém poderia ter conhecimento médio de suas próprias decisões livres, mas apenas dos outros.

Assim, o fato de que Deus não pode ter conhecimento médio de contrafactuais de liberdade divina não implica que Deus não pode ter conhecimento médio de contrafactuais de liberdade da criatura. O que é impossível é ter conhecimento médio das próprias escolhas livres de alguém.

- William Lane Craig