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#209 Definição de “Deus”

October 28, 2014
Q

Eu recentemente postei um vídeo no youtube, respeitosamente, pedindo para ateus comentarem qual o seu argumento mais forte em favor do ateísmo. Então os ateus poderiam votar no comentário que eles sentiam que era seu argumento mais forte. Após 1.000 visualizações, o argumento que está em #1 lugar é:

"deus" não é significativamente definido, então, por simples tautologia, é 100% certo que "deus" não se refere a qualquer coisa que exista (ou que não existe).

Eu nem mesmo entendo o que isso significa. Eu nunca ouvi esse argumento antes. Por favor, ajude!

Michael

United States

Dr. Craig responde


A

Wow, wow, wow, wow! O Positivismo vive! Eu simplesmente balanço minha cabeça em descrença quando vejo quão alastrada esta velha linha de filosofia positivista ainda está na cultura popular, apesar de sua morte entre os filósofos há 50 anos. Aqueles que proclamam veementemente que vivemos em uma cultura pós-moderna precisam refletir muito bem em dados como este.

A razão por que você nunca ouviu falar dessa objeção, Michael, provavelmente é porque nenhum filósofo a defende mais. Durante a era positivista, nos anos 1920 e 1930, acreditava-se, entre os filósofos, que as noções "metafísicas" como Deus não faziam sentido. Por quê? Porque nenhum conteúdo empírico poderia ser dado a tais noções. Para ser significativa, uma frase informativa tinha de ser empiricamente verificável. Já que se pensava que frases como "Deus existe" não podiam ser verificadas através dos cinco sentidos, elas foram desconsideradas como sem sentido. O chamado princípio da verificação de significado, no entanto, foi rapidamente considerado demasiado restritivo - tornando até mesmo algumas frases da ciência sem sentido - e, finalmente, foi auto-destrutivo. Com o abandono do princípio da verificação de significado, o nervo vital do positivismo foi cortado, e por isso afundou no túmulo que tanto merecia. Uma nova era então começou na filosofia anglo-americana, dando início a um renascimento da metafísica, ética e filosofia da religião, que os positivistas tinham suprimido.

Seria muito interessante saber o que fortalece a convicção dos ateus do YouTube de que "Deus" é uma palavra sem sentido. É o verificacionismo? Se assim for, então os fundamentos de suas convicções, sem o conhecimento deles, já entrou em colapso há muito tempo.

É fácil dar conteúdo à palavra "Deus". Esta palavra pode ser tomada como um substantivo comum, para que se pudesse falar de "um Deus", ou pode ser usado como um nome próprio, como "George" ou "Suzanne." Richard Swinburne, um proeminente filósofo cristão, trata "Deus" como um nome próprio da pessoa a que se refere a seguinte descrição: uma pessoa sem corpo (isto é, um espírito), que necessariamente é eterno, completamente livre, onipotente, onisciente, perfeitamente bom, e o criador de todas as coisas. Esta descrição expressa o conceito tradicional de Deus na teologia e filosofia ocidental. Agora o ateu do YouTube pode protestar: "Mas como você sabe que Deus tem essas propriedades?" A pergunta está mal colocada. "Deus" foi estipulado a ser a pessoa, se for o caso, a que se refere essa descrição. A verdadeira pergunta é se há algo correspondendo a essa descrição, isto é, tal pessoa existe? Todo o ônus da teologia natural de Swinburne é apresentar argumentos de que há uma pessoa assim. Você pode rejeitar os seus argumentos, mas não há como contestar o significado de sua reinvindicação.

A melhor definição de Deus como um termo descritivo é, penso eu, a de Santo Anselmo: o maior ser concebível. Como Anselmo observou, se você pudesse pensar em algo maior do que Deus, então, este seria Deus! A própria ideia de Deus é de um ser além do qual não pode haver nada maior.

Esta pergunta tem relevância para o meu recente debate com Sam Harris sobre se os fundamentos da moralidade são naturais ou sobrenaturais. Na sequência do debate, meu amigo John escreveu:

William, em seu debate com Sam Harris você afirmou que Deus era o fundamento da moralidade objetiva. Essa palavra "Deus" é, no entanto, problemática. Até que essa palavra seja definida, ou até que você nos diga como saber o que esse "Deus" quer que façamos, ou o que é, o que você acaba dizendo é que há um fundamento objetivo para a moralidade, e é isso. Mas Sam Harris concordou com você a esse respeito.

Se você olhar para o texto de minha declaração de abertura no debate, que eu postei na nossa página de Facebook do Reasonable Faith, você vai ver que eu defini o que quero dizer com "Deus." Eu disse,

Na visão teísta, os valores morais objetivos são fundamentados em Deus. Como Santo Anselmo via, Deus é por definição o maior ser concebível e, portanto, o bem maior. De fato, Ele não é apenas perfeitamente bom; Ele é o locus e paradigma de valor moral.

Já que a bondade moral é uma propriedade de grandeza, o maior ser concebível deve ser moralmente perfeito (assim como tem as outras propriedades superlativas listadas por Swinburne). Na verdade, o maior ser concebível será o paradigma de valor moral. É claro, continua a ser perguntado se tal ser realmente existe. Mas as afirmações que eu estabeleci para defesa no nosso debate eram condicionais: se tal ser existe, então... É por isso que eu acho que o meu primeiro argumento é quase obviamente verdadeiro. É claro que, se tal maior ser concebível existe, os valores e deveres morais objetivos existem! Como não poderiam?

A verdadeira pergunta era se Harris poderia proporcionar um fundamento ontológico dos valores e deveres morais objetivos na ausência de tal ser. Eu apresentei o que eu vejo como um argumento decisivo contra a sua solução, para o que ele chama de "Problema do Valor" (ver Pergunta #208), bem como objeções poderosas para a sua tentativa de derivar deveres morais objetivos da ciência, e seu desejo de afirmar deveres morais objetivos na ausência de qualquer tipo de livre-arbítrio.

Finalmente, deixe-me dizer novamente o que eu disse na resposta à questão #208: Eu não preciso dar conta de "como nós sabemos o que esse ‘Deus’ quer que façamos”, uma vez que se trata, não de ontologia moral, mas de epistemologia moral. Minha preocupação é com a realidade dos valores e deveres morais objetivos; estou aberto a quaisquer teorias epistemológicas, que qualquer pessoa queira sugerir, para saber como chegamos a conhecer os valores e deveres que existem.

- William Lane Craig