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#344 Emoções e Decidindo se o Cristianismo é Verdadeiro

May 16, 2015
Q

Olá Dr Craig,

Primeiro deixe-me agradecer-lhe por seus podcasts estimulantes e por seus debates durante os últimos anos. Sua defesa inteligente do teísmo contra os ataques pessoais indevidos e contra os argumentos do tipo homens de palha intermináveis que seus jogam é digno de admiração.

A pergunta que eu tenho para você, em suma, é a seguinte: Qual é o papel das emoções no processo de decidir se o Cristianismo é verdadeiro?

Eu faço a pergunta porque você deixou claro que é racional acreditar na verdade do cristianismo e vários cristãos convertidos, por exemplo Holly Ordway em seu livro “Not God’s Type” [Não do Tipo de Deus], têm dito que foi o desejo de conhecer a verdade que os motivou examinar as evidências.

No entanto, parece-me que a evidência para a Ressurreição de Cristo não é conclusiva ou convincente e que, portanto, devem ser as emoções que balançam uma pessoa de um lado para outro. Isso certamente significa que uma avaliação completamente imparcial das evidência não é possível?

Um papel crucial para convencer uma pessoa muitas vezes é feito pelo argumento moral, como defendido por você mesmo em muitas ocasiões. Mas este argumento depende de uma segunda premissa tingida de emoção: se uma pessoa sente fortemente o suficiente que algumas coisas realmente são objetivamente erradas, então o argumento vai funcionar e mover essa pessoa mais perto da aceitação das evidências para a Ressurreição. Pessoalmente, porém, eu pareço ser um niilista temperamental durante a minha vida e pessimista sobre a objetividade da moralidade e do significado cósmico e valor de nós seres humanos. Isto faz-me cético em minha avaliação da evidência para a Ressurreição, a despeito de eu estar convencido pelos argumentos cosmológicos de que Deus realmente existe e de meu desejo de que o cristianismo seja verdadeiro. Porém, parece bom demais para ser verdadeiro e a proposição que acompanha de que Deus se preocupa conosco o suficiente para sacrificar seu filho simplesmente não condiz, para mim, com a minha experiência do mundo. O mundo parece um lugar muito difícil, indiferente, se não hostil, para nós. Embora eu esteja ciente de que a minha percepção da realidade possa estar distorcida pelas experiências que tive ou perdi durante a minha vida.

Esta disposição emocional é um enorme obstáculo para eu achar o caso da Ressurreição convincente o suficiente para aceitá-lo. Parece demais com pensamento positivo, querendo que o mundo seja diferente do que realmente parece ser. Mas isso parece indicar que eu estou deixando minhas emoções (negativas) influenciar a minha avaliação das evidências. Como alguém como eu deve abordar a evidência da Ressurreição, dado estes obstáculos temperamentais? É possível colocar o pessimismo de lado e avaliar a evidência objetivamente e ainda chegar a uma conclusão bastante firme?

Muito obrigado,

Grant

Reino Unido

United Kingdom

Dr. Craig responde


A

Fico feliz que você está pensando sobre essas coisas, Grant, e, aparentemente, está pensando em se tornar um cristão.

Ao pensar sobre sua pergunta, eu acho que vai ser útil se distinguirmos entre o papel das emoções em garantir a verdade cristianismo e seu papel em nossa decisão de se o cristianismo é verdadeiro.

Com relação ao primeiro papel, parece-me que as emoções não têm um papel a desempenhar em garantir a verdade do cristianismo, embora muitas vezes as coisas que são mal-entendidas como emoções possam ter um papel importante, de fato, a desempenhar. Ao garantir a verdade do cristianismo, eu quero dizer proporcionar justificativa para pensar que as afirmações de verdades cristãs são verdadeiras. Esse é o papel da razão, não das emoções. Como você se sente sobre algo não é uma indicação de sua verdade ou falsidade, a menos que esses sentimentos surjam como resultado de fatores racionais subjacentes. Isso ocorre porque as emoções não seguem a verdade.

Por outro lado, já ouvi incrédulos caracterizar como meros apelos emocionais o que eu considero ser ideias objetivas da razão que garantem alguma verdade. Tomemos, por exemplo, a segunda premissa do argumento moral

2. Valores e deveres morais objetivos existem.

A qual você mencionou em sua carta. Você diz que este argumento "depende de uma segunda premissa tingida de emoção: se uma pessoa sente fortemente o suficiente que algumas coisas realmente são objetivamente erradas, então o argumento vai funcionar". Agora, se você quer dizer que uma pessoa que acredita firmemente na segunda premissa vai achar o argumento convincente, então a afirmação de você é normal e tem a ver apenas com a utilidade pragmática do argumento em evangelizar incrédulos. Sem dúvida, o argumento moral "funciona", nesse sentido, muito melhor do que o argumento ontológico! Mas se você quer dar a entender que a segunda premissa não goza de garantia racional e que é puramente baseada em sentimentos emocionais, então eu acho que você está confundindo experiência moral com emoções. A forma padrão como os eticistas avaliam a moralidade de várias ações é pensando nelas e avaliando-as à luz da nossa experiência moral e intuições. Dizer que nós não temos nenhum sentido moral para nos guiar já é supor que nossas intuições morais são puras emoções, o qual incorre na petição de princípio. O que é mais óbvio: que abusar sexualmente de uma menina é moralmente errado ou que minhas intuições morais são totalmente não confiáveis? Como Louise Antony disse em nosso debate na Universidade de Massachusetts, "A existência de valores morais objetivos será sempre mais óbvia do que as premissas de qualquer argumento para o ceticismo moral". Portanto, o ceticismo moral nunca pode ser racionalmente justificado. Nossa apreensão da esfera dos valores e deveres morais objetivos é garantida exatamente da mesma forma que a nossa crença em uma esfera objetiva de objetos físicos em torno de nós é garantida. Assim como não há nenhuma maneira de sair fora de nossas intuições sensoriais para verificar a sua veracidade, não podemos sair fora de nossas intuições morais para verificar a sua veracidade. Estas são crenças propriamente básicas fundamentadas na experiência e racionalmente mantidas até derrotadas por alguma crença tendo maior garantia para nós.

Outro exemplo seria a garantia para a verdade do cristianismo que vem do testemunho interior do Espírito Santo. Supor que a experiência do testemunho do Espírito Santo para a verdade do cristianismo é mera emoção é petição de princípio. Se Deus existe, Ele é certamente capaz de comunicar a Sua verdade para você de uma forma interior, bem como através de evidências externas. Mais uma vez, certas crenças cristãs são, estou convencido, conhecidas como verdade de uma maneira propriamente básica, fundamentada no testemunho interior dado a nós por Deus.

Curiosamente, crenças com base em testemunho, semelhante a minha crença de que o seu nome é Grant, são crenças propriamente básicas que eu sou racional em manter, a menos e até que um derrotador dessa crença surja. Da mesma forma, muitas crenças cristãs são crenças garantidas a nós pelo testemunho, pelo próprio testemunho de Deus. Não seja demasiado rápido em rejeitá-la, para que não deixe de ouvir a voz de Deus falando com você.

Assim, enquanto as emoções não desempenham um papel em garantir a verdade do cristianismo, as pessoas que têm pouca ou nenhuma compreensão das crenças propriamente básicas fundamentadas na experiência, muitas vezes irão considerar com desdém crenças garantidas dessa maneira como puramente baseadas na emoção.

Mas e quanto ao segundo papel das emoções, o seu papel em nossa decisão se o cristianismo é verdadeiro? Uma vez que estamos preocupados aqui com a tomada de decisão humana, obviamente as emoções podem desempenhar e desempenham um grande papel na forma como tomamos decisões. Nenhum de nós é o Sr. Spock, impassível, por nossas emoções. Todos nós tomamos decisões através da interação da razão e emoção.

Agora, o discernimento e honestidade da sua carta é louvável, já que você reconhece que este fato é uma faca de dois gumes. Assim como uma pessoa como Pollyana, para quem tudo é doçura e luz, pode estar disposta a ver a mão de Deus em ação em todo o mundo, pessimista cósmico e niilista vai ver o mundo como um lugar muito mais escuro e ser cínico sobre o valor e a motivação das pessoas. O que é importante ver é que nenhuma dessas pessoas é mais justificada por suas emoções na forma como ela vê o mundo. Seus sentimentos que "é bom demais para ser verdade!" (que também me pareceu um não-cristão) não têm mais validade em si mesmos do que alguém guiado pelo pensamento positivo.

Você está certo de que o mundo parece ser um lugar cruel e indiferente. Mas sabe, isso é precisamente o que o Cristianismo nos diz sobre o mundo. Leia o primeiro capítulo da carta de Paulo aos Romanos em seu Novo Testamento. Paulo descreve um mundo de humanidade que está alienada de Deus, moralmente reprovável e culpada diante dEle, tateando em escuridão espiritual, e indo atrás de falsos deuses de sua própria autoria. Três vezes Paulo diz: "Por isso, Deus os entregou [...]" Deus não intervém; Ele permite que a depravação humana siga o seu curso. Isso só serve para aumentar a nossa sensação de que algo está terrivelmente errado e alertar-nos para a nossa necessidade de Deus. Como cristãos, sabemos que estamos vivendo em um mundo caído. Mas este mundo não é nosso lar; somos cidadãos de outro país, uma terra que é mais justa do que o dia.

Então, você precisa sacudir o seu pessimismo e olhar tão objetivamente quanto possível na garantia para as afirmações da verdade cristã. Leia os próprios evangelhos e peça a Deus para falar com você através deles. Leia os capítulos no meu Reasonable Faith sobre a historicidade da ressurreição de Jesus. Veja alguns dos meus debates com críticos do Novo Testamento céticos como Crossan, Borg, Lüdemann, Spong, e Ehrman, e pergunte qual lado conta com o apoio da evidência. O fato de termos qualquer evidência para um evento tão extraordinário como a ressurreição de Jesus de Nazaré dos mortos é impressionante; que a evidência é tão boa é incrível.

Uma coisa que pode ajudá-lo a avaliar a evidência objetiva é considerar o fato, que me ocorreu só depois de concluir meus estudos de doutorado em Munique, que os principais fatos históricos que sustentam a inferência para a ressurreição de Jesus são aceitos pela grande maioria dos historiadores do Novo Testamento hoje, cristãos e não-cristãos. A grande maioria dos eruditos que têm escrito sobre o assunto concordam que (1) o túmulo em que Jesus foi sepultado por José de Arimatéia foi encontrado vazio por um grupo de seguidoras na manhã de domingo após sua crucificação; (2) Em seguida, vários indivíduos e grupos de pessoas em diferentes ocasiões e sob uma variedade de circunstâncias tiveram aparições de Jesus vivo dentre os mortos; e (3) os discípulos originais, de repente e sinceramente, chegaram a acredita de que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, apesar de ter toda a predisposição para o contrário. Não é surpreendente que a maioria dos estudiosos concordem com estes fatos? A pergunta, então, é: como você melhor os explica? Nesta contagem, a maioria dos eruditos hoje provavelmente só professa agnosticismo. Muitos diriam que como historiadores, eles não podem fazer um pronunciamento se Jesus ressuscitou dentre os mortos. Mas, como um filósofo e um ser humano comum, nada me proíbe de fazer tal inferência. Você pode pensar em qualquer explicação melhor do que aquela que os próprios discípulos originais deram?

Eu o encorajaria a reconhecer que o seu pessimismo pode estar impedindo você de avaliar objetivamente as evidências do cristianismo. A realidade pode ser melhor do que você pensa. O filósofo William James disse certa vez: "Poderíamos estar no mundo como cães e gatos estão em nossas bibliotecas, vendo os livros e ouvindo a conversa, mas não tendo nenhuma noção do significado de tudo aquilo".

- William Lane Craig