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#220 Enigmas Cristológicos

October 28, 2014
Q

Caro Dr. Craig,

Depois de ler a "Pergunta 99: Corpo de Jesus" e outras peças que você escreveu sobre cristologia, eu tenho algumas perguntas relacionadas ao campo em que eu me vejo incapaz de responder, então eu ficaria muito grato se você pudesse, talvez, lançar alguma luz sobre elas.

1. Na Pergunta da Semana que eu mencionei acima, você diz que, apesar de Cristo ainda conservar sua natureza humana, não se manifesta corporalmente, porque Cristo agora existe fora do contínuo de quatro dimensões do espaço-tempo. Em seguida, você usa uma analogia com um diapasão em um vácuo para suportar isto. No entanto, este movimento levanta uma série de preocupações para mim. Minha primeira preocupação é que você demonstrou em outros lugares a sua concordância com o Credo de Calcedônia, que ensina que a natureza humana de Cristo era "composta de uma alma racional e corpo." Dada esta definição, no entanto, parece logicamente incoerente dizer que Cristo mantém Sua natureza humana fora do espaço-tempo. Por quê? O corpo humano de Cristo, que é uma parte de sua natureza humana, é inerentemente espacial e temporal; todos os átomos, bárions, e partículas elementares que compõem o corpo de Cristo devem ocupar o espaço e usam matéria e passam por uma mudança no nível subatômico. Mas, fora do espaço-tempo, partículas elementares e mudança temporal não existem, tornando logicamente impossível para qualquer corpo espacial, material semelhante ao de Cristo existir lá. Agora, eu acho que se você levar o tempo metafísico em conta, o problema do corpo de Cristo não é difícil, mas o problema de um corpo material constituído por partículas elementares espaciais em um estado de existência sem espaço ainda permanece. A minha segunda preocupação é que a sua opinião sobre esta questão parece contradizer seus próprios pontos de vista sobre o tempo, que é necessário para o sucesso do argumento cosmológico Kalam. Você diz que a natureza humana de Cristo não é mais perceptível porque Cristo deixou nosso universo quadridimensional. No entanto, a ideia de um universo de quatro dimensões implica que a interpretação de Minkowski da relatividade está correta e que o seu preferido, Neo-Lorentzian, é falsa? Como eu tenho certeza que você percebe, a interpretação Minkowskiana implica uma visão atemporal de tempo, o que derrota a segunda premissa do argumento cosmológico Kalam. Como você resolveria essas contradições à primeira vista?

2. Você concorda com o Credo de Calcedônia que a natureza humana de Cristo é composta de uma alma humana racional e de um corpo humano. Mas, isso parece pavimentar um caminho perigoso para Nestorianismo. Uma vez que Cristo é uma pessoa divina que possuía uma natureza divina antes de seu nascimento, então a adição de uma alma humana e de um corpo à pessoa divina significa que Cristo tem duas faculdades cognitivas, ou seja, a pessoa divina e a alma humana. Dado que as pessoas são simplesmente partes conscientes individualizadas de um ser e já que a alma humana é uma pessoa (eu acredito que você é um dualista de substância neo-cartesiano), seguiria que Cristo é composto por duas pessoas, uma divina, o Logos pré-existente e uma alma humana criada (que é o equivalente religioso da "mente" filosófica). Além disso, se a natureza humana de Cristo inclui uma alma, então como devemos compreender a Sua morte? A morte física é a separação da alma e do corpo, mas se Cristo consiste de duas pessoas, então o que está sendo separado? Será que só a natureza divina de Cristo separa de Seu corpo humano e a alma humana foi deixada no corpo? Ou será que só a alma humana separou? Ou ambos separaram do corpo? Se ambos foram separados do corpo, eles de alguma eram conjugados? Parece difícil de ver como pessoas imateriais poderiam ser conjuntas sem comprometer um ser. Ou será que a pessoa divina e a alma humana são separados um do outro? Onde cada uma foi? Será que uma desceu ao inferno, enquanto a outra ficou para trás? Como você pode ver, essa visão da natureza humana de Cristo suscita uma série desconcertante de perguntas. Pessoalmente, eu acho que é mais fácil simplesmente redefinir a natureza humana de Cristo como apenas o corpo humano; então, Sua pessoa divina funcionaria como a alma em todas as outras pessoas. Este ponto de vista é bíblico?

3. Ao falar com um amigo cético sobre como Deus pode ignorar a Segunda Lei da Termodinâmica e impedir a morte térmica do universo para que Cristo volte, ele respondeu que nem mesmo Deus poderia violar uma lei da física, pois não seria então realmente uma lei. Eu tentei corrigir a sua definição de uma lei física, dizendo que as leis físicas têm pressuposto nelas a suposição de que agentes inteligentes não irão intervir. Ele então respondeu que a minha re-definição era apenas uma tentativa ad hoc para salvar a Deus porque, segundo ele, não há outros casos em que agentes inteligentes, além de Deus, podem ignorar as leis da física. Assim, ele alega, alterando a definição de uma lei física como eu fiz petição de princípio em favor do teísmo, porque eu preciso primeiro assumir que Deus é a exceção à regra que pode ignorar as leis da física, quando esta é a mesma coisa em disputa. Como eu poderia responder isso?

4. Por fim, quando Cristo retornar, Apocalipse indica que Ele e o Pai irão governar em um novo céu e uma nova terra. O novo céu e a nova terra é o mesmo lugar que habitaremos temporariamente como almas antes da ressurreição dos mortos no dia do Juízo Final? Se assim for, parece difícil ver como um reino temporal e espacial poderia conter almas imateriais e sem espaço. Ou Deus irá criar os novos céus e a nova terra? Uma vez que os novos céus e nova terra existem no espaço e no tempo, como eles podem estar em relação ao nosso universo atual? Será que eles vão estar dentro desse universo? Ou eles vão estar em um universo inteiramente novo?

Eu sei que eu fiz um monte de perguntas, algumas das quais são muito difíceis de responder com confiança, mas eu espero que você possa me ajudar a resolver estes problemas.

Obrigado,

Brandon

United States

Dr. Craig responde


A

Estas são profundas e difíceis perguntas, Brandon, e provavelmente o melhor que o teólogo sistemático pode fazer é oferecer possíveis respostas para as suas perguntas, que são biblicamente compatíveis e filosoficamente coerentes. Então deixe-me tentar responder as suas perguntas.

1. Parece-me que Cristo possuir uma natureza humana no tempo, entre sua ascensão e retorno, não necessita que este tenha um corpo humano durante esse tempo, mais do que eu, possuindo uma natureza humana durante o estado intermediário entre a minha morte e ressurreição, exige que eu tenha um corpo durante esse tempo. Alguém cujo corpo foi vaporizado em uma explosão, por exemplo, não tem corpo durante o estado intermediário, nem mesmo um corpo morto, mas ele ainda é um ser humano. Por quê? Talvez pudéssemos dizer que ele é um ser humano porque sua alma era unida com um corpo humano. Por essa razão, ele não é um ser angelical ou algum outro tipo de ser. Mas podemos dizer exatamente o mesmo a respeito de Cristo em seu estado de ascensão. Além disso, como a ilustração diapasão deixa claro, a natureza humana de Cristo não é incompleta em tal estado; é só que ele não está no ambiente (ou seja, o espaço-tempo) no qual a sua natureza humana se manifesta como um corpo.

Quanto à sua segunda preocupação, entenda o meu uso de "espaço-tempo" ou "coletor de espaço-tempo de quatro dimensões" como apenas uma façon de parler. É como falar sobre o nascer ou pôr do sol - literalmente falso, mas formas coloquiais de falar. Pode-se refazer a frase, dizendo que Cristo não existe mais no espaço.

2. Parece que você não está familiarizado com a minha proposta Cristológica neo-Apolinária em Philosophical Foundations for a Christian Worldview [Filosofia e Cosmovisão Cristã em português]. Ela foi feita justamente porque eu acho que o modelo habitual tende a Nestorianismo pelas razões que você mencionou. No modelo tradicional a alma humana de Cristo não é uma pessoa, que eu acho desconcertante. No meu modelo, o Logos, a Segunda Pessoa da Trindade, é a alma de Jesus Cristo. Ao assumir um corpo humano o Logos completou a natureza humana de Cristo, tornando-o um composto de corpo/alma. Assim, Cristo tem duas naturezas completas, divina e humana.

A morte de Cristo deve ser entendida como a separação de sua alma de seu corpo. No meu modelo proposto, o Logos é separado de seu corpo, mas Cristo mantém sua natureza humana, em virtude do que eu disse acima a respeito de porque continuamos humanos, mesmo após a destruição do nosso corpo (embora no caso de Cristo, seu corpo ainda existia; estava apenas sem vida).

Você está certo de que o modelo tradicional levanta uma série de perguntas desconcertantes, que o meu modelo visa resolver. Mas não podemos passar para o seu modelo sugerido que a natureza humana de Cristo era apenas um corpo de hominídeo, e permanecer cristãos ortodoxos. Para a sua visão sugerida Cristo não era genuinamente humano, pois ele não possuía uma natureza humana completa (apenas ter um corpo hominídeo não é suficiente para ser um ser humano). Acho que o que você realmente quer dizer é o que eu articulei e defendi em Filosofia e Cosmovisão Cristã.

3. As leis da física obviamente pressupõem que não há agentes sobrenaturais intervindo nos processos naturais descritos nas leis. Isso não quer dizer que exista qualquer desses agentes, por isso não é inferir a petição de princípio em favor do teísmo. É só para dizer que as leis da natureza não tomam nenhum conhecimento de tais seres. Elas descrevem o que vai acontecer dadas as condições naturais especificadas. Elas não fazem nenhuma previsão sobre o que aconteceria se um deus interferisse. Então, se não deve acontecer de ser um criador transcendente do universo que pode causalmente intervir no seu funcionamento físico, então a segunda lei só não faz previsões sobre o que aconteceria em uma determinada situação se Ele intervir causalmente.

Agora, se o seu amigo insiste que a Segunda Lei prevê o que vai acontecer não importa que, então a conclusão a tirar é que não é uma lei! Pois um criador transcendente poderia fazer aquilo que a lei não consegue prever. Tant pis para a lei (como diriam os franceses)! A pergunta, então, é, temos boas razões para pensar que um Criador tão poderoso do universo existe, e minha resposta é: "Pode apostar que temos!", e o debate está em curso! Na ausência de algum argumento para o ateísmo, ele apenas incorre a petição de princípio assumindo que a Segunda Lei é uma lei em seu sentido estranho.

4. Não, eu considero que o novo céu e terra será uma criação renovada, física que é espaço-temporal, em contraste com o estado intermediário desencarnado. Qual é a sua relação com o nosso universo? Bem, eu não acho que ele está em qualquer relação espacial com ele, mas eu diria que vem temporalmente após esse universo, e assim existirá depois do que ele. Presumo que será um universo inteiramente novo, pelo velho universo ser destruído ou transformado no novo, assim como nossos corpos terrestres serão transformados em nossos corpos ressuscitados.

Estas são questões sobre as quais não se pode ser dogmático, Brandon, mas espero ter sugerido respostas que são pelo menos plausíveis e bíblicas.

- William Lane Craig