#331 Extermínio dos Cananeus, Mais uma Vez
May 16, 2015Caro Dr. Craig,
Em primeiro lugar, permita-me juntar a minha voz ao coro de elogios por seu trabalho e ministério. No meu caso, eu tinha sido recentemente levado à deriva em uma direção decididamente liberal, disposto a simplesmente aceitar as críticas céticas da bíblia e da teologia cristã em vez de tentar formular uma defesa verdadeiramente robusta para as crenças que eu tinha tido como verdadeiras. Eu fui conquistado por seus argumentos, simplesmente porque eu era ignorante para a alternativa razoável.
Desde então me juntei a um grupo do Reasonable Faith em Melbourne e tenho me tornado um ouvinte ávido de seus podcasts. Você tem me ajudado a impulsionar em direção a uma abordagem mais ortodoxa e sólida para questões como a confiabilidade dos Evangelhos e da historicidade da ressurreição. É muito emocionante e gratificante, e eu lhe agradeço por isso.
No entanto, ao ouvir recentemente a sua resposta bem pensada para a questão da matança dos cananeus no Antigo Testamento, senti que ali estava um ponto em que eu não podia abandonar a interpretação liberal: que os israelitas estavam meramente equivocados em sua interpretação da vontade de Deus. Enquanto eu estava intrigado com a sua ideia, eu não conseguia aceitá-la.
Em primeiro lugar, o seu ponto de que este tipo de comando não é típico do Deus do Antigo Testamento. Aqui, eu concordo com você. Entretanto, certamente se Deus é achado cometendo até mesmo um único ato que seja menos do que moralmente perfeito, Ele não pode ser Deus. Todavia, este ponto não é central para o seu argumento e eu entendo que você estava apenas tentando fazer valer algum senso de equilíbrio para a retórica aquecida que muitas vezes permeia essas questões.
Em segundo lugar, você afirma que, ao emitir esse comando, Deus não deixou de cumprir quaisquer obrigações morais, já que um ser divino não é submetido a tais obrigações. Ele não fez algo errado. Acho que você está completamente correto neste ponto, porém, certamente a preocupação aqui não é se Deus não foi capaz de obedecer a certas obrigações morais, mas que Ele não agiu de acordo com seu caráter moral. Um Ser moralmente perfeito não poderia emitir tal comando. Ele não violou nenhuma obrigação, mas é simplesmente uma impossibilidade.
Em terceiro lugar, devo confessar que as suas observações sobre as crianças cananeias me contorceu com desconforto. Contudo, não há dúvida de que você diria que, se uma proposição apela para nós ou não, não tem qualquer influência sobre ser ou não ser verdade. Isso seria uma falácia. Mesmo assim, parece que a noção da morte de uma criança poder ser considerada uma gentileza no fundamento de que seria assegurado a ela um lugar no céu, parece ter implicações profundamente preocupantes. Por que devemos reter tal recompensa, se é isso, de qualquer criança? Se o ato é ou não é um comando, parece que este raciocínio vale por si só. Ou a morte de uma criança deve ser bem-vinda por estes motivos, ou não.
Em última análise, parece-me que as implicações preocupantes para a Doutrina da perfeição moral, e as aparentes contradições com os ensinamentos do Novo Testamento sobre moralidade, violência e unidade com os gentios exige que nós consideremos tais passagens como essencialmente mitológicas. Nós simplesmente temos razões filosóficas melhores para disputar a precisão desse texto do que temos razões históricas para aceitá-lo.
Obrigado pelo seu tempo,
Daniel
Austrália
Australia
Dr. Craig responde
A
É maravilhoso ler uma resposta racional a minha defesa da historicidade das narrativas da conquista, Daniel! A resposta típica acaba sendo denúncias emocionais aquecidas com nenhuma interação racional com a teoria moral eu defendi nas Perguntas # 16 e 225. (Os leitores que não estão familiarizados com esta defesa são aconselhados a ler essas respostas como pano de fundo a esta.)
Primeiro, deixe-me felicitá-lo por ver que esta questão é um debate interno entre judeus e cristãos. Se fosse o caso de que Deus não poderia ter emitido os comandos em questão, isso não chega perto de provar o ateísmo ou minar o argumento moral para Deus; no máximo, isso implica uma doutrina liberal de inspiração bíblica de tal forma que a inspiração não implica infalibilidade.
Deixa-me comentar sobre seus pontos em ordem.
1. Eu concordo que "se Deus é achado cometendo, até mesmo um único ato, que seja menos do que moralmente perfeito, Ele não pode ser Deus." Mas é bom lembrar que a razão pela qual as narrativas de conquista são tão intrigantes é que o caráter de Deus no Antigo Testamento é tão moralmente elevado que é difícil entender como Ele poderia emitir tais comandos, especialmente depois da história de negociação de Abraão com Deus sobre Sodoma e Gomorra. Ele não é o vilão que os neo ateus O consideram.
2. Estou muito satisfeito que você concorda comigo na minha teoria ética do Comando Divino (ou teoria dos Mandamentos Divinos) [1]. Eu acho que isso vai longe ao resolver o problema. Deus não faz nada moralmente errado em emitir estes comandos. Em vez disso, toda a pergunta recai, como você nota, nisso: Deus deixou de agir em conformidade com o Seu caráter moralmente perfeito? A tarefa do crente bíblico agora é mostrar que na emissão desses comandos Deus não faz nada fora do Seu caráter de um ser perfeitamente justo e amoroso.
3. Você aparentemente está concordando comigo de que o julgamento de Deus dos cananeus adultos é consistente com Deus ser perfeitamente justo e amoroso, dada a forma como indizivelmente más essas pessoas eram. Então, tudo se resume às crianças. Tirar suas vidas é coerente com o caráter de um ser perfeitamente justo e amoroso? Bem, por que não? Minha ideia é que, ao levar essas crianças para casa mais cedo, Deus não lhes fez nada de errado. Na verdade, Ele pode impedir a sua condenação eterna por tirá-las de uma cultura cananeia depravada.
Você se opôs a isto, dizendo:
a noção da morte de uma criança poderia ser considerada uma gentileza no fundamento de que seria assegurado um lugar no céu, parece ter implicações profundamente preocupantes. Por que devemos reter tal recompensa, se é isso, de qualquer criança? Se o ato é ou não é um comando, parece que este raciocínio vale por si só. Ou a morte de uma criança deve ser bem-vinda por estes motivos, ou não.
Mas a sua pergunta é fácil de responder. A razão pela qual devemos reter tal recompensa é que Deus emitiu um comando "Não matarás", de modo que temos uma proibição moral contra a matança dos inocentes. Não temos o direito de brincar de Deus; é Ele e somente Ele, que tem a prerrogativa de dar e tirar a vida. Sim, a morte de uma criança traz um grande bem para essa criança. É por isso que somos consolados em funerais de crianças. Mas não há nada em minha teoria moral que implica que devemos realizar este grande bem (eu não sou um utilitarista!). Na verdade, a minha teoria moral implica que temos o dever moral de não tirar a vida de uma criança ou de qualquer pessoa inocente. Deus proibiu-nos de fazê-lo, e quem se atreve a fazê-lo comete um grande mal. Isto está bem em linha com o ensinamento do Novo Testamento, bem como do Antigo.
Então, onde está o problema? Como eu disse antes, as únicas pessoas que eu posso pensar que foram possivelmente injustiçadas por Deus emitir tão extraordinário comando, são os soldados israelenses encarregados de realizá-lo. Mas, então, eu apresentei uma defesa de Deus dar-lhes tal comando, em vista da sua finalidade providencial para Israel. Em suma, eu não acho que haja qualquer objeção filosófica insuperáveis para tomar o texto como histórico.
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[1]
[a teoria do “comando divino” também é conhecida como a “teoria do(s) mandamento(s) divino(s)” em diferentes partes deste site e em outros lugares].
[a teoria do “comando divino” também é conhecida como a “teoria do(s) mandamento(s) divino(s)” em diferentes partes deste site e em outros lugares].
- William Lane Craig