#360 Argumentos Teológicos que Apoiam Um Passado Infinito
May 16, 2015Olá Dr. Craig,
Espero que você esteja bem.
Eu tenho objeções teológicas a sua proposição de que uma regressão infinita de eventos para no passado é impossível.
Eu sou de uma denominação islâmica em particular e minha denominação não aceita a ideia de que é impossível que haja uma regressão infinita de eventos no passado. Principalmente por três razões:
Primeiro e mais importante, se você afirmar que uma regressão infinita de eventos no passado é impossível, então isso significa que você alega que é impossível que Deus esteja criando desde a eternidade. Se você afirmar isso, então isso significa que você está afirmando que houve um ponto em que Deus não era capaz de criar, portanto, compromete Seu atributo de onipotência. Então, basicamente, você está dizendo que Deus "mais tarde" tinha a "capacidade" para criar. Mas se você afirma que sempre foi possível para Deus criar, então, basicamente, você estaria admitindo que uma regressão infinita de criações é possível, tornando, portanto, o seu argumento falso.
Em segundo lugar, as "ação é um sinal de vida". Certamente Deus está sempre ativo (ou seja, Ele está sempre exercendo Seus atributos) e não está em qualquer ponto ocioso como um ídolo. As ações de Deus são um sinal de Sua perfeição e Ele ser inativo O tornaria menos perfeito do que se Ele fosse agir. Assim, espera-se que Deus esteja sempre "fazendo alguma coisa", e uma vez que Deus é eterno, isso significaria que há uma série infinita de "eventos" (criações físicas ou eventos mentais ou assim por diante) no passado.
Em terceiro lugar, não há nenhuma razão para acreditar que alguma vez houve uma "fase de inatividade" onde Deus não estivesse criando. Você teria de oferecer uma razão plausível de por que Deus, de repente, decidiu começar a ser ativo e começar a criar. O que "mudou" exatamente, mais especificamente, se Deus estava em um estado de atemporalidade antes da criação, como você afirma?
Eu apreciaria muito você ter tempo para responder às minhas perguntas.
Obrigado,
Anônimo
Arábia Saudita
Saudi Arabia
Dr. Craig responde
A
Estou surpreso ao saber que existe uma facção contemporânea do Islã que, aparentemente, é partidária dos praticantes medievais de falsafa (filosofia) em oposição aos praticantes ortodoxos do kalam, considerando a criação como eterna no passado. Eu não estou convencido de que seus três argumentos devem levar-nos a abandonar a opinião da maioria.
1. Apesar de você posteriormente reconhecer que eu, como al-Ghazali, considero Deus como estando "em um estado de atemporalidade [causalmente] antes da criação", a sua primeira objeção parece pressupor precisamente o oposto, ou seja, que havia na minha opinião uma espécie de tempo vazio em que Deus existiu antes da criação. De que outra forma pode fazer sentido o seu comentário que "basicamente, você está afirmando que Deus 'mais tarde' teve a 'capacidade' para criar"? Na minha opinião, não há "mais tarde" ou "mais cedo" no estado de existência atemporal de Deus. Já que antes/depois são relações temporais, tal visão como você descreve seria autocontraditória. Como Ghazali explicou, quando pensamos em Deus existindo, digamos, uma hora antes de criar o universo, isso é puramente uma fantasia da imaginação humana. Na realidade, não houve tal ponto. Por essa razão, é falsa a alegação de que a impossibilidade de criação desde a eternidade implica que "houve um ponto em que Deus não era capaz de criar." Não existem pontos de tempo na eternidade e, portanto, nenhum ponto no qual Deus não foi capaz de criar. O tempo começa no momento da criação.
(Na verdade, ao pensar sobre isso, ocorre-me que o seu argumento é falacioso mesmo se houvesse uma série infinita de pontos temporais antes da criação! Pois em qualquer ponto no passado infinito em que Deus escolheu criar existe apenas um distância finita até o presente, assim como qualquer número negativo que você escolhe é apenas um número finito distante de 0, mesmo que haja um número infinito de números negativos. A partir do fato de que em qualquer ponto do infinito passado Deus é capaz de criar um mundo, isso não quer dizer que Deus era capaz de criar um mundo com um passado infinito.)
2. A ociosidade novamente presume tempo, durante o qual se faz nada. Mas Deus não passa por momentos antes da criação, uma vez que o tempo começa na criação. Portanto, Ele não pode ficar ocioso. É verdade, Ele deve ser sem mudança em tal estado. Mas não mudar não implica inatividade; requer apenas constância de qualquer atividade. Aqui a superioridade teológica de uma visão trinitária de Deus, em oposição a uma visão unitária de Deus como nós temos no Islã, começa a surgir. Na comunhão atemporal do Pai, do Filho e do Espírito Santo, existe constante e imutável amor mútuo, conhecimento e vontade. Não há necessidade de séries de eventos em tal estado, nem Deus tem necessidade de criaturas para expressar Seus atributos.
3. Nós temos bases teológicas, filosóficas e científicas para pensar que o mundo não existe desde a eternidade passada e, assim, para Deus não ter criado desde a eternidade. A Bíblia começa assim: "No princípio Deus criou os céus ea terra" (Gênesis 1:1), e o Islã ortodoxo concorda com este ensinamento. Eu tenho defendido argumentos cosmológicos kalam para a finitude do passado. A evidência da cosmologia astrofísica confirma a conclusão a que esses argumentos nos levam.
Dizer que o tempo e o universo tiveram um começo não implica que "Deus de repente decidiu começar a ser ativo e começar a criar." Sua decisão de criar é uma decisão atemporal, não precedida de um período de indecisão (na verdade, nenhum período de tempo!). É livre já que cabia a Ele criar ou abster-se de criar, e existem mundos possíveis nos quais Ele se abstem. Ele não poderia ter criado antes do que Ele fez, já que não há "mais cedo." Eu acho que esse ato da criação de Deus é como uma mudança, a medida que é algo que Ele não estava fazendo antes (já que não houve "antes"), e, portanto, Deus está no tempo desde o momento da criação. Assim, na minha visão Deus é atemporal sem a criação e dentro do tempo desde o momento da criação.
- William Lane Craig