#81 Ficionalismo e as Duas Naturezas de Cristo
August 03, 2014Sr. Craig,
Eu escutei sua palestra a respeito de objetos abstratos, e defendendo Ficionalismo sobre Platonismo. Sou inclinado a concordar com você que objetos abstratos são simplesmente ficções úteis, tendo nenhuma realidade independente da mente. Mas como você aplica Ficcionalismo à Cristologia?
Estou pensando em particular na formulação de Calcedônia sobre Cristo como uma pessoa em duas naturezas. A menos que eu esteja enganado, naturezas são objetos abstratos. Como tais, dizer que Cristo é uma pessoa subsistindo em duas natureza é ficção útil. Isso levanta algumas perguntas:
1. Como devemos entender “natureza?” É melhor entendida como uma série de capacidades idealizadas que demarcam um tipo de coisa da outra? Nessa definição, uma natureza seria entendida, não como tipos de entidades arquetípicas abstratas existindo na esfera das ideias ou mentes de Deus, mas como uma ficção útil para descrever o que une entidades comuns, e o que diferencia-os de outros grupos de entidades comuns.
2. O que exatamente significa dizer que Cristo subsiste em duas naturezas?
3. A maioria defende que a natureza humana de Cristo era anipostática, sendo personalizada apenas pela pessoa divina que o assumiu (enipostática). Isto é necessário para assegurar a pessoalidade de Cristo sem o custo de negar Sua humanidade genuína. Mas se as naturezas são ficções úteis, o que significa dizer que Deus “hipostasiou” a natureza humana? É uma ficção, útil para afirmar a verdade simples que a pessoa divina assumiu todas as capacidades peculiares para humanos para que Ele mesmo pudesse existir como um humano, sem criar uma pessoa humana ontologicamente separada no processo?
Estou interessado nas suas ideias a respeito. Obrigado.
Jason
United States
Dr. Craig responde
A
Estas são perguntas excelentes, Jason, porque uma interpretação Ficcionalista da doutrina das duas naturezas de Cristo é apta a ser mal compreendida. Já que muito frequentemente na história do pensamento os pontos de vista de uma pessoa tem ajudado a gerar movimentos diferentes dos pontos de vista da pessoa originária, é importante fazer tudo o que podemos para corrigir má compreensões ou tendências antes deles decolarem.
Ficcionalismo é a ideia de que afirmações contendo palavras que aparentemente referem-se a objetos abstratos são literalmente falsas (pelo menos de acordo com a teoria semântica típica que governa tais palavras). Por um objeto abstrato queremos dizer um objeto que é causalmente esgotado, isto é, não tem poder causal. Objetos abstratos são portanto entidades imateriais e são frequentemente vistos como existindo além do tempo e do espaço. Exemplos típicos incluem objetos matemáticos como números, proposições expressas por sentenças, e propriedades.
Nós usamos frases contendo palavras aparentemente referindo-se a objetos abstratos o tempo todo. De fato, acredito que a maioria de nós ficaria chocado de quão meticulosamente nosso discurso é permeado com tais expressões. Por exemplo, dizemos coisas como, “O número de pessoas que pereceram no massacre de Rhuanda foi mais de 800,000” ou “Sabedoria é mais preciosa do que a prata.” O Ficcionalista não acredita que existem objetos como números ou virtudes existindo além do espaço e do tempo, portanto ele vê tais afirmações como literalmente falsas, já que não existem referentes de “número” ou “sabedoria.” Apesar disso ele considera tais afirmações como úteis e inofensivos no discurso normal. É somente quando algum filósofo aparece e começa a pressionar tais afirmações ao exigir, “Então você pensa que o número 800,000 realmente existe?” que o Ficcionalista começa a objetar. Ele pode parafrasear a declaração literalmente falsa com uma que não contenha qualquer palavra que referir-se-ia a números, por exemplo, “Mais de 800,000 pessoas pereceram no massacre de Rhuanda.” (Aqui “800,000” é um adjetivo, não um substantiva, e não envolve uma referência a qualquer objeto.) Mas muitas vezes tais paráfrases podem ser impossíveis e são difíceis e estranhos de qualquer forma, então é melhor usar nossas conversas aparentemente referenciais, ficando alertas caso algum filósofo miserável aparecer.
Agora como você disse, naturezas como coleções de propriedades são objetos abstratos. Mas note, isso não é como a afirmação de Calcedônia utilizou a palavra. Pois ele fala da natureza humana de Cristo como composta de uma alma e corpo racionais. Isso não é um objeto abstrato! Quando teólogos clássicos falam da natureza humana de Cristo, eles frequentemente queriam falar sobre a natureza humana individualizada dele, isso quer dizer, que o composto corpo/alma que foi nascido de Maria, caminhou sobre os montes da Galileia, e foi crucificado sobre Pôncio Pilatos. Nesse sentido, alguém está falando sobre um objeto concreto, não um objeto abstrato. Como tal, conversas sobre duas naturezas são irrepreensíveis da perspectiva Ficcionalista.
O que um Ficcionalista negaria é que existem dois objetos abstratos existindo em isolamento esplêndido além do espaço e do tempo que nós referíamos como “a natureza humana de Cristo” e “a natureza divina de Cristo.” Note que tal negação é totalmente consistente com dizer que Cristo, como divino, era essencialmente onipotente, onisciente, e santo, isto é, é impossível que ele poderia existir sem ser onipotente, onisciente, e santo. Além do mais, em seu estado encarnado a natureza individual de Cristo era essencialmente como a nossa: limitada no espaço, mortal, e tendo um corpo e alma racional. Então não pense que o Ficcionalismo leva a algum tipo de nominalismo teológico que nega que Cristo tinha qualquer tipo de propriedades essenciais. (Note como nessa última frase eu usei a ficção útil de propriedades para expressar a ideia que existem afirmações verdadeiras da forma “Cristo era essencialmente--”.)
Agora quanto a suas perguntas específicas:
1. Como devemos entender “natureza”? Nós podemos entender a palavra em dois sentidos. Um é no sentido de uma natureza individualizada. Este é o sentido da palavra como usada em Calcedônia. O outro sentido é a noção de um objeto abstrato que é uma coleção de propriedades ou talvez de propriedades complexas. Calcedônia parece usar a palavra “substância” nesse sentido, pois diz que Cristo enquanto humano tem as mesmas substâncias que nós temos. Nesse segundo sentido, uma natureza é uma ficção útil para expressar a ideia que algo é essencialmente de uma certa maneira. Coisas que tem a mesma natureza partilham as mesmas propriedades, isso quer dizer, eles são essencialmente parecidos.
2. O que exatamente significa dizer que Cristo subsistiu em duas naturezas? Significa que Cristo é essencialmente uma pessoa divina que assumiu na encarnação um corpo e alma racional tais que são essenciais para o seres humanos. Ele é tudo o que alguém precisa para ser Deus e tudo o que alguém precisa para ser homem.
3. O que significa dizer que Deus “hipostasiou” a natureza humana? Isso é um jeito estranho de falar que a parte de sua união com a segunda pessoa da Trindade a natureza humana individual de Cristo não seria uma pessoa. Torna-se pessoal somente em virtude de ser assumido pelo Filho. É por isso que não existe uma pessoa humana acrescentado à pessoa divina na encarnação. Em Philosophical Foundations for a Christian Worldview [Fundamentos Filosóficos para uma Cosmovisão Cristã] em meu capítulo “Doutrinas Cristãs II: A encarnação” eu tento fazer sentido dessa doutrina ao argumentar que talvez a alma racional da natureza humana de Cristo é a contribuição do Filho divino, isso quer dizer, em virtude da união do Filho com o corpo a natureza humana dele torna-se completa e portanto “hipostática.”
Espero que você possa ver nessa discussão que Ficcionalismo não ameaça desfazer a teologia Cristã, que é moldada em termos de conversas sobre naturezas e propriedades. Tal conversa é irrepreensível e pode ser compreendido de tal forma para não envolver comprometimento a objetos abstratos.
Um último comentário: a abordagem Ficcionalista para conversas sobre objetos abstratos pressupõe a referência semântica típica para nomes e descrições definidas (chamadas termos singulares). Estou cada vez mais convencido que tal semântica é profundamente falha e que o Ficcionalista concede muito em aceitar tal semântica. O fato que nós usamos afirmações todo o tempo envolvendo o que parece ser termos singulares mas que não se referem a nada; por exemplo,
"A localização de Osama Bin Laden é desconhecida”.
“O pensamento rápido do piloto preveniu o pior acidente na história da aerolínea.”
“A próxima Quarta-feira será o dia da reunião de professores.”
Certamente nós não queremos que a verdade de tais afirmações nos comprometa a realidade de coisas como “localização,” “o acidente que foi prevenido,” e “Quartas-feiras”! Porém essas afirmações parecem ser verdade. Por que pensar que eles são literalmente falsos? Por que não ao invés disso rejeitar as semânticas típicas para termos singulares e defender que a verdade de tais afirmações não requer que todos seus termos singulares se refiram a objetos mas meramente que realidade seja tal como toda a afirmação diz que é; por exemplo, que a afirmação “A localização de Osama Bin Laden é desconhecida” é verdade se e somente se a localização de Osama Bin Laden é desconhecida?
- William Lane Craig