#621 Fontes independentes para o sepulcro vazio
April 23, 2019Dr. Craig,
Quero cumprimentá-lo por seus vídeos animados que tem postado. São muito úteis e bem feitos. O último vídeo, “Did Jesus Rise from the Dead” [Jesus ressuscitou dentre os mortos?], é bastante convincente, mas tenho uma pergunta a respeito dele. No primeiro vídeo, o senhor cita como prova os evangelhos, além de Atos e 1 Coríntios, referidos como fontes “independentes” e “sem relação”. Mas isto não é totalmente verdadeiro, certo? Afinal, dois dos livros foram escritos pelo mesmo autor, Lucas, de modo que Lucas e Atos são relacionados por autoria. Além disso, não é verdade que boa parte da informação transmitida em Mateus e Lucas advém de Marcos? Estes dois fatos tornam inverdadeira a declaração de que os evangelhos são “independentes” e “sem relação”, não é mesmo? Agradeço pelo ótimo trabalho que faz.
Atenciosamente,
Blake
United States
Dr. Craig responde
A
Fico feliz com sua pergunta, Blake, pois a mesma objeção foi apontada por um vídeo de YouTube feito em resposta a nosso vídeo Zangmeister. A objeção se baseia num equívoco. Ela pressupõe que as fontes às quais me refiro sejam os livros do Novo Testamento. Mas não é disso que estou falando.
Nosso vídeo Zangmeister é apenas a ponto do icebergue, resumindo com concisão o que explico com mais profundidade em Reasonable Faith (Wheaton, Ill.: Crossway, 2008) [publicado em português com o título Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã (São Paulo: Vida Nova, 2012)] e com ainda mais detalhes em Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus (Toronto: Edwin Mellen, 1989). Ali, explico que os críticos de Novo Testamento identificaram inúmeras fontes por trás do Novo Testamento, nas quais os autores do Novo Testamento se basearam. Por exemplo, Mateus e Lucas se valeram não apenas da fonte de Marcos, mas também da fonte denominada pelos estudiosos como “Q”, que parece ter contido os ditos ou ensinamentos de Jesus. Assim, se fosse possível mostrar que um dito em Mateus ou Lucas aparece tanto em Marcos quanto Q, ele contaria como atestação independente múltipla.
Pois bem, o impressionante é como o sepultamento e o sepulcro vazio de Jesus são atestados em múltiplas fontes independentes.
1. O evangelho de Marcos se encerra com a história da descoberta do sepulcro vazio de Jesus feito pelas mulheres. Porém, Marcos não compôs seu relato do nada. Ele parece ter se valido de uma fonte anterior para a paixão de Jesus, isto é, a última semana de seu sofrimento e morte. Quando se lê o evangelho de Marcos, percebe-se que ele consiste de uma série de anedotas desconexas sobre Jesus, como contas num colar, que nem sempre podem ser arranjadas cronologicamente. Quando se trata da última semana da vida de Jesus, no entanto, vemos um relato cronológico e ininterrupto de suas atividades, prisão, julgamento, condenação e morte. Os estudiosos pensam, portanto, que Marcos se serviu de uma história pré-marcana da paixão na composição de seu evangelho. É interessante que essa fonte pré-marcana da paixão provavelmente incluía o relato do sepultamento de Jesus por José no sepulcro e a descoberta do sepulcro vazio feita pelas mulheres. Uma vez que Marcos já é o evangelho mais antigo, esse relato pré-marcano da paixão é fonte extremamente antiga, sendo valiosa para nossa reconstrução do destino de Jesus de Nazaré, incluindo seu sepultamento e sepulcro vazio.
2. É evidente que Mateus tinha fontes independentes (designadas por “M”) além de Marcos para o relato do sepulcro vazio, pois ele inclui a história da guarda a postos junto ao sepulcro de Jesus, uma história que não se encontra em Marcos. A história não é criação de Mateus, pois está cheia de vocabulário não-mateano, o que indica que ele se valeu de tradição anterior. Além do mais, a polêmica entre cristãos judeus e judeus não-cristãos pressupõe uma história da disputa que provavelmente antecede a destruição de Jerusalém, remontando aos primeiros debates naquela cidade quanto à proclamação da parte dos discípulos de que “ele ressuscitou dentre os mortos”.
3. Lucas também tem fontes independentes (designadas “L”) para o sepulcro vazio, uma vez que inclui a história da visita de Pedro e outro discípulo anônimo ao sepulcro de Jesus a fim de verificar o relato das mulheres. O incidente não pode ser criação lucana, pois também é mencionado em João, que é independente do evangelho de Lucas.
4. O evangelho de João é, geralmente, reconhecido como independente dos três demais, chamados evangelhos sinóticos. João também tem uma narrativa do sepulcro vazio que, alguns diriam, é a tradição mais primitiva de todas.
5. Os sermões apostólicos no livro de Atos não foram, provavelmente, criados por Lucas do nada, mas também lançam mão de tradição anterior que testemunha da pregação apostólica antiga. Em Atos 2, Pedro contrasta o rei Davi, cujo “túmulo está até hoje entre nós”, com Jesus, “que Deus ressuscitou”. O contraste claramente implica que o sepulcro de Jesus estava vazio.
6. Em 1 Coríntios 15.3-5, Paulo cita uma antiga fórmula cristã resumindo a pregação apostólica. A formula pré-paulina costuma ser datada dentro do período de cinco após a crucificação de Jesus. A segunda linha da fórmula refere-se ao sepultamento de Jesus e a terceira linha, à sua ressurreição dentre os mortos. Nenhum judeu do primeiro século teria entendido esta declaração de outro modo, senão que o corpo de Jesus não jazia mais no túmulo. Mas será que o sepultamento mencionado pela fórmula pré-paulina corresponde ao sepultamento de jesus por José no sepulcro? Uma comparação da fórmula em quatro linhas com os evangelhos, por um lado, e os sermões apostólicos — por exemplo, em Atos 13 —, por outro lado, permite-nos responder à pergunta com segurança. A fórmula pré-paulina é um esboço, ponto a ponto, dos principais eventos da morte e ressurreição de Jesus, conforme relatados nos evangelhos e em Atos 13. Assim, o que corresponde à segunda linha: “e foi sepultado”? É o sepultamento de Jesus no sepulcro. E o que corresponde à terceira linha: “e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras”? É a história da descoberta do sepulcro vazio! Confirmação de que a terceira linha da fórmula resume o relato do sepulcro vazio se encontra na frase “ao terceiro dia”. Por que ao terceiro dia? Por que não ao sétimo? A resposta mais plausível é que foi ao terceiro dia após a crucificação que as mulheres encontraram o sepulcro vazio de Jesus e, assim, a ressurreição naturalmente passou a ser datada naquele dia. O tema do terceiro dia, portanto, é um indicador temporal da descoberta do sepulcro vazio.
Historiadores pensam que atingem lucro histórico quando têm duas fontes independentes para algum evento. Se tudo que tivéssemos para o túmulo vazio fossem a história pré-marcana da paixão e a fórmula pré-paulina, seriam já o suficiente para convencer a maioria dos estudiosos acerca da historicidade do sepultamento e do túmulo vazio de Jesus. Porém, na verdade, temos ao menos seis fontes, algumas das quais estão entre os materiais mais antigos no Novo Testamento. Não é nenhuma surpresa que a maioria dos estudiosos esteja convencida!
Pois bem, é claro que mesmo assim ainda estou resumindo. Muito mais pode (e foi) dito. Não há substitutos para cavar mais fundo e ler bons livros sobre a ressurreição de Jesus. Mas creio que isto já basta para levar o debate a um novo patamar, muito além de simples equívocos.
- William Lane Craig